
A guerra do silncio


Kim Philby

A guerra do silncio

Crculo de Leitores

Ttulo do original   My silent war Traduo de   Ana Lcia Sena Lmo Reviso de   Csar Ramos

Crculo de Leitores, Lda Composto em Times 10 Impresso e encadernado por Prmter Portuguesa no ms de Janeiro de 1976 1 a edio 7500 ex

Edio integral

Licena editorial para o Crculo de Leitores por cortesia da Livraria Bertrand, SARL E proibida a venda a quem no pertena ao Crculo


*** Digitalizao e correco: Maria de Lurdes
Esteves Coelho ***

Aos camaradas que me orientaram no desempenho
da minha misso

PREFCIO

Este livro  o esboo introdutrio das minhas
experincias no campo do servio secreto. Na
devida altura acrescentarei mais alguns
episdios. Todavia, j nesta primeira fase,
quero chamar a ateno para um problema que
tiver de enfrentar.

Se eu citasse nomes de agentes ainda ao
servio, cujo trabalho se considera secreto,
no poderia deixar de lhes causar dificuldades
e no  meu intuito causar dificuldades a
antigos camaradas dos servios americanos,
ingleses ou outros, por muitos dos quais sinto
verdadeira afeio e o maior respeito.

Tentei por isso citar unicamente nomes de 
agentes que morreram ou se retiraram do 
servio activo. No entanto, quando comecei a 
escrever este livro vi que era impossvel 
contar uma histria inteligvel sem mencionar 
alguns agentes que ainda se mantm em 
actividade.

A. estes ltimos apresento desculpas por 
quaisquer dificuldades que lhes possa ter 
provocado. Eu prprio tive aborrecimentos 
devido  minha ligao com o servio secreto.

INTRODUO

Comecei a escrever este livro, embora com interrupes, aquando da minha chegada a 
Moscovo, h cerca de cinco anos. De tempos a tempos, enquanto o escrevia, aconselhei-me 
com alguns amigos cuja opinio considerava valiosa. Aceitei e rejeitei, sugestes. Uma com 
que no concordei foi a que devia tornar o livro mais emocionante, acentuando os riscos da 
longa caminhada de Cambridge a Moscovo. No. Preferi que a minha histria fosse sincera 
e simples.

Quando, no Vero passado (1967), o acabei, ainda que com carcter provisrio, meditei 
demoradamente sobre se o devia publicar ou no. E voltei a consultar amigos. A opinio 
geral, com que concordei na altura, baseava-se no facto de que a ideia da publicao 
deveria ser posta de parte durante um perodo de tempo indefinido.

A razo principal era que o aparecimento do livro poderia provocar complicaes 
internacionais, cuja natureza se tornava difcil de prever. Parecia disparatado agir de modo a 
que as consequncias pudessem ultrapassar um prognstico racional. Por isso decidi pr de 
lado o meu trabalho.

A situao foi de todo alterada devido a artigos que apareceram nos jornais The 
Sunday Times e The Observer em Outubro. Estes 
artigos, apesar de vrias irrelevncias factuais e de erros de interpretao (e de um exagero 
das minhas qualidades, segundo me parece), do uma imagem substancialmente verdadeira 
da minha carreira. Os jornais que no me eram favorveis sugeriram imediatamente qye 
The Sunday Times e The Observer tinham sido 
vtimas de uma maquinao gigantesca. The Sunday Times 
demonstrou j o absurdo desta acusao. Por meu lado, s posso acrescentar que me deram 
a oportunidade de proibir a publicao dos artigos em The Sunday 
Times e que eu, depois de reflectir, no o fiz deliberadamente. Pensei que o editor 
devia estar preparado para provar a veracidade das concluses a que o seu pessoal chegara 
e que a objectividade dos artigos seria susceptvel de ataques se eu, sendo a parte mais interessada no 
assunto, interviesse.

Como j disse, esses artigos alteraram completamente a situao. As consequncias de revelar a verdade 
caem irremediavelmente sobre ns para bem ou para mal.

Posso, por isso, oferecer o meu livro ao pblico sem me poderem acusar de pretender estabelecer a 
confuso. Desejo simplesmente corrigir certas inexactides e erros de interpretao e, ao mesmo tempo, 
apresentar uma descrio mais real e mais completa.

A primeira crise sria da minha carreira foi muito longa, arrastando-se, aproximadamente, de meados de 1951 
a fins de 1955. Enquanto durou, fui sempre animado pelo pensamento de que no poderia ser acusado de 
estar ligado a organizaes comunistas pela simples razo de que nunca fora membro de nenhuma. Os 
primeiros trinta anos do meu trabalho pela causa em que acreditava foram, desde o princpio, passados 
ocultamente. Esta longa fase comeou na Europa Central, em Junho de 1933, e acabou no Lbano, em Janeiro 
de 1963. S ento pude mostrar a minha verdadeira face a de um agente secreto sovitico.

At h pouco tempo, quando The Sunday Times e The Observer 
revelaram alguns factos verdicos, os escritores que abordavam o meu caso em artigos de jornais e livros 
atacavam-me ferozmente, sem suspeitarem da verdade. Porm, eles no podem ser acusados pela sua 
ignorncia, porque durante a minha carreira tive sempre o cuidado de no revelar a verdade. Contudo, 
talvez possam ser inculpados por se terem atrevido a escrever e publicar coisas acerca das quais nada sabiam 
e por insistirem em procurar explicaes complexas quando as simples serviriam melhor.  claro que a 
autntica verdade era dolorosa para uma instituio a desmoronar-se e para os seus amigos do outro lado do 
Atlntico, mas uma tentativa de a apagar com palavras, quer fossem ingnuas ou simplesmente disparatadas, 
era ftil e por isso condenada ao fracasso.

Depois de cerca de um ano de actividade ilegal na Europa Central, voltei a Inglaterra. Era altura de comear 
a fazer a minha prpria vida. Ento, como no

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poderia deixar de ser, aconteceu qualquer coisa Dentro de poucas semanas abandonara 
todos os meus amigos polticos e comeara a frequentar as recepes da Embaixada alem. 
Aderi  Liga nglo-Germnica e colaborei activamente numa tentativa falhada, para iniciar 
um jornal, com fundos nazis, destinado a fomentar boas relaes entre a Inglaterra e a 
Alemanha. Apesar  dos meus melhores esforos, esta estranha aventura gorou-se porque 
outro grupo se nos adiantou. Mas enquanto decorriam as negociaes fiz vrias visitas a 
Berlim para falar com o ministro da Propaganda e o Dienststelle 
Ribbentrop. Ningum aventou a hiptese de que eu tivesse trocado o comunismo pelo 
nazismo.

A explicao mais simples e verdadeira  que as ligaes declaradas e encobertas entre a 
Inglaterra e a Alemanha preocupavam nessa altura seriamente o Governo sovitico.

A Guerra de Espanha rebentou durante uma das minhas visitas a Berlim. Os nazis exultaram 
e s quando voltei para Inglaterra  que soube que o general Franco no conseguira 
dominar todo o pas e que se previa uma longa guerra civil. Recebi ento ordem de seguir 
para Espanha, para o territrio ocupado pelos fascistas, a fim de me instalar por largo tempo 
to perto quanto possvel do centro dos acontecimentos. A minha misso foi bem sucedida, 
porque tornei-me, da a poucas semanas, correspondente autorizado de The 
Times junto das foras de Franco, e nessa qualidade servi durante toda a terrvel 
guerra Do mesmo modo, ningum pensou que eu me tivesse tornado falangista. Mais uma 
vez  a explicao mais simples que persiste: estava l ao servio dos Soviticos.

Em Agosto de 1939, quando as nuvens da guerra se adensavam sobre Danzig, The Times 
disse-me que esquecesse a Espanha e estivesse preparado para me juntar a qualquer fora 
britnica que pudesse ser mandada para a frente ocidental. Era o melhor que eu podia 
esperar naquelas circunstncias. Qualquer correspondente de guerra com esprito inquisidor 
poderia reunir enorme quantidade de informaes que a censura no lhe

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permitiria publicar; e a minha experincia em Espanha tinha-me ensinado quais as perguntas 
que deveria fazer. Quando isso aconteceu, o quartel-general britnico foi estabelecido em 
Arras, donde era fcil chegar a Paris. Passei a maior parte dos fins-de-semana no pesado 
anonimato da capital, no apenas, como  bvio, com o fim de me divertir. Mas o posto de 
Arras, apesar de ser bom, no era suficiente. Os meus amigos soviticos comunicaram-me 
em termos insistentes que o meu principal objectivo devia ser o servio secreto britnico. 
(Era a poca pr-Muggeridge, em que o servio ainda tinha boa reputao.) Antes de os 
jornalistas partirem para Frana, em princpios de Outubro, apresentei vrias sugestes, mas 
tudo o que podia fazer nessa altura era sentar-me e esperar. Este livro descreve com alguns 
pormenores, se bem que incompletos, como esta nova aventura foi bem sucedida.

No caso de ainda persistirem dvidas em espritos complicados, talvez seja necessria uma 
descrio completa dos factos. Na minha mocidade, tornei-me de facto membro do servio 
secreto sovitico. Posso, portanto, afirmar que sou agente do servio secreto sovitico h 
trinta anos e continuarei a s-lo at que a morte ou a senilidade me obriguem a abandonar o 
trabalho. Mas a maior parte das minhas misses tm sido exercidas em campos normalmente 
reservados aos agentes, segundo o critrio americano e ingls. Portanto, a partir de agora 
apresentar-me-ei como um agente.

Agente  evidentemente um termo susceptvel de muitas e variadas interpretaes. Pode 
ser um simples correio que leva mensagens entre dois pontos; pode ser o homem que 
escreve essas mensagens; pode implicar funes consultivas ou mesmo executivas. Passei a 
primeira escala rapidamente e em breve estava a escrever, ou antes, a fornecer informaes 
numa escala cada vez mais elevada.  medida que os conhecimentos e experincia 
aumentavam, passei a exercer funes consultivas e executivas, juntamente com a aquisio 
e transmisso de informaes. Este progresso deu-se paralelamente  minha evoluo no 
servio secreto britnico, no qual, a partir de 1944, era consultado

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sobre grande nmero de problemas polticos da maior importncia.

Vrios escritores falaram recentemente de mim como um agente duplo ou mesmo triplo. Se 
isto quer dizer que eu trabalhava com igual zelo para dois ou mais lados ao mesmo tempo, 
no  verdade. Durante toda a minha carreira apenas fui um agente verdadeiramente activo 
ao servio dos Soviticos. O facto de eu ter entrado para o servio secreto britnico no 
quer dizer nada; encarava os meus servios no S.I.S. (Secret Intelligence Service) * 
unicamente como um meio de alcanar uma posio devido  qual o meu trabalho para a 
Unio Sovitica fosse o mais eficiente possvel. A minha ligao com o S.I.S. deve ser mais 
uma vez encarada como uma total entrega  Unio Sovitica, que eu considerava, como 
considero hoje, a maior fortaleza do movimento mundial.

Nos dois primeiros anos pouco consegui subir, apesar de me ter adiantado dez anos a 
Gordon Lonsdale na Escola de Estudos Orientais de Londres. Durante esse perodo fui uma 
espcie de aprendiz de agente secreto. Olho para trs com espanto perante a pacincia 
ilimitada dos meus superiores no servio, uma pacincia s comparada com a sua 
compreenso inteligente. Encontrvamo-nos. semana aps semana, num dos mais isolados 
espaos abertos londrinos; semana aps semana, eu chegava aos encontros de mos 
vazias e partia carregado de conselhos conscienciosos, repreenses e encorajamento. 
Muitas vezes desanimava com os meus fracassos e desesperava de realizar alguma coisa de 
til, mas as lies continuaram a penetrar fundo. Quando chegou a altura de realizar trabalho 
srio, j estava dotado da necessria preparao mental. De muito me serviu porque as 
minhas dificuldades comearam na Alemanha e na Espanha fascista, pases que tinham uma 
maneira muito rpida de se livrarem de agentes secretos inimigos. Fui recompensado, 
durante a guerra

* Rigorosamente M. I. 6 (Military Intelligence 6), departamento do servio secreto britnico responsvel pela 
espionagem e contra-espionagem fora do territrio britnico.

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espanhola, ao saber que acabara este primeiro perodo. Ao deixar a Espanha era j 
considerado um agente competente do servio secreto sovitico.

Como  que tudo comeou? A minha deciso de tomar parte activa na luta contra a Reaco 
no foi resultado de uma reconverso repentina. Os meus primeiros pensamentos polticos 
foram originados pelo movimento trabalhista; e um dos meus primeiros actos quando fui 
para Cambridge, em 1929, foi tornar-me membro da Sociedade Socialista da Universidade 
de Cambridge (C.U.S.S.). Durante os dois primeiros anos frequentei regularmente as 
reunies, mas pouco colaborei nas suas actividades. Atravs de leituras gerais, apercebi-me 
pouco a pouco de que o Partido Trabalhista, em Inglaterra, estava bastante  parte, como 
fora mundial, da corrente principal da esquerda. Mas a verdadeira modificao no meu 
pensamento deu-se aquando da desmoralizao e derrota do Partido Trabalhista em 1931. 
Parecia incrvel que o partido estivesse to desamparado perante as foras de reserva que a 
Reaco conseguira mobilizar na altura da crise. E o facto, ainda mais importante, de que um 
eleitorado supostamente sofisticado tinha sido calcado pela propaganda cnica do momento 
punha as maiores dvidas quanto  validade das ideias relativas  democracia parlamentar 
como um todo.

Este livro no  uma histria, um tratado ou uma obra polmica.  uma crnica pessoal e eu 
tenciono afastar-me o mnimo possvel do tema central. Bastar, portanto, dizer que foi a 
derrota trabalhista de 1931 que me fez pensar seriamente em criar possveis alternativas ao 
Partido Trabalhista. Comecei a agir mais activamente na C.U.S.S. e fui seu tesoureiro em 
1932/33. Isto ps-me em contacto com as correntes de opinio das esquerdas que criticavam 
o Partido Trabalhista, principalmente com os comunistas. Alternava uma leitura intensiva e 
uma apreciao cada vez maior dos clssicos do socialismo europeu com discusses 
vigorosas e por vezes agitadas dentro da sociedade. Era um processo lento e fatigante; a 
minha transio do ponto de vista socialista para o comunista levou dois anos. S no ltimo 
perodo de Cambridge, no Vero de 1933,  que afastei as ltimas

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dvidas. Deixei a Universidade com um diploma e com a convico de que a minha vida devia ser votada ao 
comunismo.

H muito que perdi o diploma (parece que est na posse do M.I. 5 *), mas mantive a minha convico. Aqui 
nascer, talvez, uma dvida no esprito do leitor. Pode no ser muito surpreendente o facto de eu ter 
adoptado o ponto de vista comunista nos anos 30, porquanto muitos dos meus colegas tambm o fizeram. 
Contudo, bastantes daqueles que. na mesma altura, escolheram o comunismo mudaram de opinio quando se 
tornaram evidentes os piores traos de estalinismo. Eu permaneci fiel.  justo perguntar porqu.

 extraordinariamente difcel a um ser humano vulgar que no seja dotado de uma memria privilegiada 
descrever exactamente como conseguiu chegar a esta ou quela concluso h mais de trinta anos. No meu 
caso, uma tentativa para o fazer resultaria num livro, cuja leitura seria terrivelmente aborrecida. Mas como a 
pergunta pode surgir, sou obrigado a dar-lhe resposta, apesar de essa resposta ter de ser muito simplificada.

Quando se tornou evidente que havia muita coisa que estava mal na Unio Sovitica, pareceu-me existirem 
trs possibilidades de aco. Primeiro, desistir completamente da poltica, o que sabia ser-se impossvel, pois 
se  verdade que tenho gostos e entusiasmos fora da poltica  ela que lhes d sentido e coerncia. Segundo, 
podia continuar a minha actividade poltica numa base totalmente diferente; mas para onde deveria ir? A 
poltica da era de Baldwin-Chamberlain parecia-me, como agora, a poltica da loucura  e a loucura era m. Via 
a estrada que me conduzia  posio poltica do proscrito queixoso, do gnero Koestler-Crankshaw-
Muggeridge, protestando contra o movimento que me tinha abandonado, contra Deus que me tinha 
desamparado. Parecia-me um destino terrvel, por muito lucrativo que pudesse ser.

A terceira linha de aco que me estava aberta era

* Departamento do servio secreto responsvel pela contra-espionagem e segurana na Gr-Bretanha e nos territrios ultramarinos britnicos

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manter-me na mesma crena, com a mesma f, confiante em que os princpios da Revoluo 
venceriam as aberraes dos indivduos, por muito grandes que fossem. Foi a linha que 
escolhi, guiado em parte pela razo e em parte pelo instinto. Graham Greene, num livro 
chamado apropriadamente The Confidential Agent, 
imagina uma cena em que a herona pergunta ao heri se os seus chefes so melhores que 
os outros. No. claro que no, responde ele. mas continuo a preferir o povo que eles 
governam, mesmo que o governem mal. Os pobres so bons ou maus, troou ela. No 
interessa, portanto, que o meu pas seja bom ou mau. Escolha o seu lado de uma vez para 
sempre, mas, claro, pode ser o lado errado. S a histria o poder dizer.

Esta passagem esclarece um pouco a minha atitude nos tempos do culto de Estaline. Mas 
no tenho dvidas quanto ao veredicto da histria. A minha f persistente no comunismo 
no quer dizer que os meus pontos de vista e as minhas atitudes se tenham fossilizado 
durante trinta anos. Foram influenciados e modificados pelos acontecimentos da minha vida, 
s vezes at de uma maneira rude. Discuti com os meus amigos polticos decises 
importantes e continuo a faz-lo. Ainda h muito trabalho a fazer; h sempre altos e baixos. 
Progressos que eu h trinta anos julgava j entrever podem ter de esperar uma gerao ou 
duas. Mas. quando olho para Moscovo da janela do meu escritrio, vejo as fundaes 
slidas de um futuro que eu imaginei em Cambridge.

Por fim  uma idia sensata pensar que. se no fosse o poder da Unio Sovitica e do ideal 
comunista, o Velho Mundo, seno todo o mundo, estaria governado por Adolf Hitler e por 
Hirohito. Para mim  um motivo de muito orgulho ter sido convidado, quando ainda era 
muito novo, para representar um papel infinitesimal na construo desse poder. Como, 
quando e onde me tornei membro do servio secreto sovitico  comigo e com os meus 
camaradas. S direi que quando me fizeram a proposta no hesitei. No se pensa duas vezes 
numa oferta para entrar numa fora de escol.

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O LEVANTAR DA CORTINA:

A UM PASSO DO PELOTO DE EXECUO

Mal iniciei a carreira de agente secreto sovitico tive dificuldades srias, escapando quase 
por uma unha negra. Foi em Abril de 1937, quando meu quartel-general estava estabelecido 
em Sevilha, no Sul da Espanha. A minha primeira funo era conseguir informaes, em 
primeira mo, de todos os aspectos de esforo de guerra fascista. Estava combinado que eu 
deveria transmitir as informaes pessoalmente aos contactos soviticos em Frana ou com 
mais freqncia, em Inglaterra. Mas para comunicaes urgentes haviam-me fornecido um 
cdigo e algumas moradas fora de Espanha.

Antes de sair de Inglaterra, reduzi as instrues em cdigo a um minsculo papel, feito de 
substncia semelhante ao papel de arroz, que guardava habitualmente no bolso da cintura 
das minhas calas. Foi este minsculo papel que quase me levou perante o peloto de 
execuo.

Depois de umas semanas bastante ocupadas em Sevilha e nos arredores, os meus olhos 
foram trados por um cartaz anunciando uma tourada que se realizaria no dia seguinte, em 
Crdova. A frente de batalha ficava ento a vinte e cinco milhas a leste de Crdova, entre 
Montoro e Andujar, e a possibilidade de assistir a uma tourada to perto de uma frente que 
eu ainda no tinha visitado pareceu-me boa de mais para a perder. Resolvi passar o fim-de-
semana em Crdova e assistir  corrida de domingo. Fui  Capitania, o quartel-general 
militar de Sevilha, para arranjar o indispensvel passe, mas um major muito simptico 
mandou-me embora. Disse-me que no precisava de um passe para Crdova. A nica coisa 
que tinha de fazer era meter-me no comboio.

Na sexta-feira anterior  corrida embarquei no comboio da manh em Sevilha, 
compartilhando o compartimento com um grupo de oficiais italianos de infantaria. Sempre 
consciente do meu trabalho, convidei-os para jantar comigo em Crdova, mas eles 
recusaram delicadamente, dizendo que no teriam tempo, pois pensavam

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passar a noite nos bordis antes de irem para a frente, no dia seguinte. Arranjei quarto no 
Hotel dei Gran Capitan. jantei sozinho e passeei pelas ruas perfumadas num ofuscamento 
feliz, at cerca da meia-noite; regressei ao hotel e deitei-me.

Fui acordado de um sono profundo por um martelar ensurdecedor na porta. Quando abri, 
dois guardas civis invadiram o quarto. Disseram-me que fizesse a mala e os acompanhasse  
esquadra. Quando perguntei porqu, o mais velho dos dois, um cabo, respondeu 
simplesmente: ordenes.

Nessa altura tinha um sono pesado. Alm disso, estava em desvantagem ao enfrentar em 
pijama dois homens uniformizados, com grandes botas, espingardas e revlveres. O meu 
crebro, meio a dormir, meio atemorizado, reagia mais lentamente que a velocidade da luz. 
Tinha conscincia de que precisava desfazer-me do papel que estava escondido no bolso 
das calas; mas como havia de me livrar dele? O meu esprito pensou vagamente na casa de 
banho, mas o meu quarto no dispunha de nenhuma. Na altura em que j me tinha vestido e 
feito a mala e os guardas civis me haviam revolvido a cama, ainda no conseguira ir mais 
alm que ter tomado a resoluo de me livrar do papel de qualquer maneira no caminho do 
hotel at  esquadra da Guarda Civil.

Quando cheguei  rua, percebi que no ia ser fcil. S tinha uma mo livre, a outra segurava 
a mala, e a minha escolta, que estava evidentemente bem treinada, caminhava atrs de mim, 
vigiando-me como falces. E assim ainda tinha comigo o material incriminante quando me 
mandaram entrar para um escritrio iluminado por uma nica lmpada, sem quebra-luz, que 
brilhava sobre uma mesa grande e bem polida. Na minha frente estava um major da Guarda 
Civil, minsculo, velho, careca e azedo. Ouviu, sem prestar muita ateno, o relatrio do 
cabo que me trouxera, sempre com os olhos fitos na mesa.

O major examinou demoradamente o meu passaporte. Onde est, perguntou-me, a sua 
licena para visitar Crdova? Repeti-lhe o que me tinham dito na Capitania, em Sevilha, 
mas ele recusou-se imediatamente a aceitar

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as minhas palavras. Impossvel, disse redondamente; toda a gente sabia que era preciso 
uma licena para ir a Crdova. Porque viera a Crdova? Para ver a tourada? Onde estava o 
bilhete? Ainda no tinha? Acabara de chegar e ia comprar o bilhete no outro dia de manh? 
Uma linda histria. Perante as freqentes expresses de cepticismo, apercebi-me, com 
crescente mal-estar, de que o meu inquiridor era um anglfobo convicto. Nessa poca havia 
muitos anglfobos em Espanha, em ambos os lados da frente de combate. Mas neste 
momento o meu crebro estava j a comear a trabalhar normalmente e comecei a ver a 
possibilidade naquela enorme extenso de mesa luzidia.

O major e os dois homens que me tinham prendido voltaram-se ento para a minha mala, 
com um ar muito duvidoso. com uma delicadeza inesperada puseram umas luvas e 
esvaziaram-na pea por pea, esquadrinhando cada artigo com os dedos e examinando-o ao 
p da luz. Como no encontraram nada de suspeito na minha muda de roupa interior, 
examinaram depois a mala. batendo cuidadosamente na superfcie e medindo as dimenses 
internas e externas. Suspiraram quando ficou provada a sua completa inocncia. Durante um 
segundo, pensei que estava tudo terminado e que me dissessem simplesmente que sasse da 
cidade no primeiro comboio, mas, de facto, a minha iluso durou s um segundo.

E agora voc, disse o major com um ar asqueroso. Mandou-me esvaziar os bolsos. No 
podia esperar mais tempo sem agir. Peguei primeiro na carteira e atirei-a por cima daquela 
linda mesa. dando-lhe, no ltimo momento, um impulso que a fez deslizar at ao outro lado. 
Como eu pensara, os trs homens atiram-se sobre ela, deitando-se por cima da mesa e 
voltando-me as costas. Tirei das calas o bocado de papel, mastiguei-o e engoli-o 
prontamente. Esvaziei o resto dos meus bolsos de corao leve e. felizmente, o major 
poupou-me  intimidade de uma revista a rigor. Em vez disso, fez-me uma palestra seca 
sobre os comunistas que dominavam o Governo britnico e ordenou-me que partisse de 
Crdova no dia seguinte. De manh estava a pagar a conta do hotel quando os meus dois 
amigos da Guarda Civil surgiram de um vo

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do trio e me perguntaram se podiam compartilhar o meu txi at  estao. Quando entrei 
no comboio para Sevilha, dei-lhes um mao de cigarros ingleses e eles acenaram-me 
amigavelmente  medida que o comboio se afastava. No foi um episdio herico. Mesmo 
que as minhas instrues em cdigo tivessem sido descobertas, o meu passaporte britnico 
talvez me salvasse da pena de morte. Mas, mais tarde, reflectindo, tive ocasio de verificar 
que a operao realmente arriscada no , na verdade, a mais perigosa, porque os grandes 
riscos so previstos anteriormente e tomam-se precaues para os diminuir. Pelo contrrio, 
so quase sempre os incidentes sem interesse, como o que descrevi, que nos fazem muitas 
vezes correr perigos de morte.

Captulo I

Aceite pelo Servio Secreto

Tanto quanto me lembro, foi no Vero de 1940 que ocorreu o meu primeiro contacto com o 
servio secreto britnico. Era um campo de actividade que, desde h muitos anos, me 
interessava. Na Alemanha nazi e depois em Espanha, quando trabalhara como 
correspondente do The Times junto das foras do general Franco, sempre 
supus que entrassem em contacto comigo. Tinha a certeza de que reconheceria o homem no 
momento em que ele fizesse as primeiras tentativas. Seria delgado e bronzeado e, claro, 
teria um bigode aparado, uma maneira de falar caracterstica e, provavelmente, uma 
inteligncia limitada. Pedir-me-ia que arriscasse a vida pelo meu pas e, quando lhe falasse 
em dinheiro, franziria austeramente as sobrancelhas. Mas no, nada aconteceu. Se algum 
tentou uma aproximao durante esse tempo deve-me ter achado incompetente. O nico 
agente secreto que teve algum interesse por mim durante a minha estada em Espanha foi 
um alemo, um certo major Von der Osten, alis Don Jlio, que morreu logo no incio da 
Segunda Guerra Mundial, num acidente de viao em Nova Iorque. Costumava levar-me 
para o quartel-general da Abwehr no Convento de Las Esclavas, em Burgos, e explicar-me 
o significado dos seus grandes mapas de parede, salpicados com os costumados alfinetes 
coloridos. Jantou e bebeu comigo algumas vezes durante cerca de um ano e provou ser um 
contacto til enquanto durou. Acabei por perceber que o verdadeiro interesse que ele tinha 
por mim era para que eu lhe apresentasse uma senhora dos meus conhecimentos. Depois de 
o conseguir fez-lhe propostas de espionagem e de outra espcie. Ela recusou-as indignada, 
e ele passou a tratar-me  distncia.

Quando deflagrou a guerra mundial, The Times mandou-me como seu 
correspondente autorizado para Arras, onde se estabelecera o quartel-general do exrcito 
britnico. Em Junho de 1940 voltei a Inglaterra, depois de ter sido evacuado duas vezes de 
Boulogne-sur-Mer e de Brest.

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Em Londres escrevi dois ou trs artigos para The Times, tirando Concluses sobre a campanha 
e apreguando o seu valor moral. No fao idia do que escrevi e, depois de ter lido os comentrios 
pungentes  campanha nas memrias de Liddell-Hart, estou satisfeito com o meu lapso de memria, pois devo 
ter escrito uma porcaria horrvel. O principal  que em fins de Junho estava inactivo. The Times 
no parecia querer livrar-se de mim ou sobrecarregar-me com trabalho. Tive assim tempo suficiente para 
delinear o meu futuro, mas se pudesse adivinhar em que espcie de ambiente  que ele se passaria, teria 
planeado exactamente o contrrio. Decidi deixar The Times, apesar de eles terem sido sempre 
delicados para comigo. A censura militar em campanha tinha-me feito perder todo o interesse pela 
correspondncia de guerra. Experimentem escrever uma reportagem de guerra sem mencionar um nico 
local ou designar uma s unidade e vero o que eu quero dizer. Alis, a idia de escrever interminavelmente 
sobre o moral do exrcito britnico desanimava-me. Mas, ao decidir deixar The Times, tinha de 
me lembrar de que se aproximara o dia em que seria chamado s fileiras. No era minha inteno perder todo 
o controle do meu destino, o que aconteceria se fosse recrutado para o exrcito. Era, portanto, 
com crescente preocupao que observava os vrios ferros que pusera no fogo, tocando num ou noutro que 
me parecia ter aquecido de mais. Tinha uma entrevista prometedora, arranjada por um amigo comum, com 
Frank Birch, um dos dirigentes da Government Code & Cypher School, uma instituio criptanaltica que 
destrua cdigos inimigos (e amigos), mas ele no me aceitou, alegando irritantemente que no podia pagar-
me uma quantia que compensasse o meu trabalho. Desolado, fui para Holloway, sujeitar-me a um tratamento.

Uns dias mais tarde, Ralph Deakin, ento chefe da seco de estrangeiro do The Times, 
chamou-me ao seu

* A censura no exrcito britnico tornou-se menos rigorosa  medida que o tempo passava Durante o primeiro perodo da guerra, a sua rigidez 
casmurra podia-se comparar desfavoravelmente com a censura, to criticada, posta em prtica pelo general Franco

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escritrio. Esbugalhou os olhos para mim, soprou e enrugou a testa, o que nele denotava 
preocupao. Um certo capito Leslie Sheridan, do Ministrio da Guerra, telefonara a 
perguntar se eu estava disponvel para trabalho de guerra. Sheridan no impressionara 
Deakin. Tinha afirmado ser jornalista e trabalhar na base de uma associao prvia com 
The Daily Mirror. Resumindo, Deakin no queria tomar parte no 
assunto e tentou fazer com que eu o esquecesse. Tive muita pena de o desapontar, mas, 
apesar de nunca ter ouvido falar de Sheridan, tinha fortes suspeitas de que um dos meus 
ferros estava em brasa. Decidi malhar enquanto ele estava quente, e comecei 
imediatamente a investigar.

Pouco tempo depois encontrei-me no trio do St. Ermins Hotel, perto da estao de St. 
Jamess Park, com Miss Marjorie Maxse. Era uma senhora idosa muito simptica (tinha 
ento aproximadamente a minha idade actual). Naquela poca, no fazia a menor idia, 
como no fao hoje ainda, de qual era a sua posio exacta no Governo. Mas falava com 
autoridade e estava evidentemente disposta a recomendar-me, pelo menos, para um 
emprego interessante. Logo no princpio da nossa conversa ela mudou de assunto, 
passando a falar das possibilidades de trabalho poltico contra os alemes na Europa. H dez 
anos que eu me interessava especialmente por poltica internacional; tinha viajado pela 
Europa, de Portugal  Grcia, e j havia formado algumas idias, mal alinhavadas, sobre a 
subverso do regime nazi. Por isso estava razoavelmente apto para falar com Miss Maxse. 
Era ajudado pelo facto de nessa altura ainda poucas pessoas em Inglaterra terem pensado 
seriamente no assunto. As prprias idias de Miss Maxse pouco mais alinhavadas haviam 
sido que as minhas.

Passei este primeiro exame. Quando nos despedimos, Miss Maxse pediu-me que, uns dias 
mais tarde, viesse ter com ela novamente ao mesmo stio. No nosso segundo encontro 
apareceu acompanhada por Guy Burgess, que eu conhecia bastante bem. Fui outra vez 
experimentado. Encorajado pela presena de Guy, comecei a citar exuberantemente 
nomes, como  uso fazer nas entrevistas. De tempos a tempos, os meus interlocutores 
trocavam 

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olhares. Guy acenava grave e aprovadoramente. Na realidade estava a perder tempo, 
porque j tinham tomado uma deciso. Antes de nos separarmos, Miss Maxse informou-me 
de que, se concordasse, deveria acabar com a minha ligao com The Times e 
apresentar-me, para comear a trabalhar, a Guy Burgess numa morada em Caxton Street, no 
mesmo bloco do St. Ermins Hotel. The Times no me levantou grandes 
dificuldades. Deakin bufou e suspirou um pouco, mas no tinha nada de extraordinrio para 
me oferecer. Por isso sa da Printing House Square sem fanfarra, de uma forma apropriada  
nova, secreta e importante carreira que pensava ir abraar. Decidi que era meu dever 
aproveitar a experincia do nico homem do servio secreto que eu conhecia. Por isso 
passei o fim-de-semana a beber com Guy Burgess. Na segunda-feira seguinte apresentei-
me formalmente. Ambos sentamos umas leves dores de cabea.

A organizao a que me tinha ligado agora chamava-se Secret Intelligence Service (S. I. S.). 
Era vulgarmente conhecida por M. I. s, enquanto para o pblico mal informado era 
simplesmente o servio secreto. A facilidade da minha entrada surpreendeu-me. Soube mais 
tarde que a nica investigao feita em relao ao meu passado foi uma referncia de rotina 
do M. I. s, que procurou o meu nome nos arquivos e voltou com a afirmao lacnica: No 
h nada arquivado contra. Actualmente, todos os escndalos com espies em Inglaterra 
provocam uma onda de observaes judiciosas sobre a aprovao. Mas naquele paraso 
nunca se tinha ouvido falar de aprovao. s vezes, nas primeiras semanas, pensava que 
afinal talvez no tivesse entrado de facto para o servio secreto. Parecia-me que em 
qualquer stio, na sombra, devia haver outro servio, realmente secreto e poderoso, capaz 
de maquinaes secretas numa escala que justificasse, por exemplo, a eterna suspeita dos 
Franceses. * Mas em breve me apercebi de que no era assim. Foi a morte de uma iluso e 
no tive pena. Guy levou-me primeiro ao escritrio

* Este pensamento foi provocado pelo meu contacto com os soviticos. Os meus primeiros relatrios factuais sobre o servio secreto levaram-
me a pensar seriamente que tinha entrado numa organizao que no era verdadeira.

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que me tinham destinado. Era uma sala pequena com uma secretria, uma cadeira, um 
telefone e mais nada. com uma exclamao de aborrecimento, Guy desapareceu no 
corredor e voltou com um mao de papel que ps em cima da mesa. Satisfeito por me 
deixar agora completamente equipado para comear a trabalhar, disse-me que o meu salrio 
seria igual ao seu: seiscentas libras por ano, ou seja cinqenta por ms, isentas de impostos. 
Era escusado ter esperana de receber um nico xelim extraordinrio ! Na realidade, o 
segredo das escalas de pagamento escondia grandes desigualdades. Teoricamente, cada 
contrato era particular e estabelecido entre o chefe e o seu subordinado. E se o chefe 
conseguisse A mais barato que B, fossem quais fossem os seus mritos pessoais, seria parvo 
em no o fazer. De qualquer modo, fiquei muito contente com o combinado, e ento 
apresentaram-me aos meus futuros colegas. Como no tm um papel importante na minha 
histria, no lhes provocarei embaraos mencionando os seus nomes.

A seco do S. I. S. para que entrei chamava-se Seco D (de destruio). Nunca vi a sua 
carta de prego, se por acaso a tinha. Conclu, de conversa com os meus colegas, que o 
objectivo da seco era ajudar a derrotar o inimigo, criando uma resistncia activa no seu 
territrio e destruindo, por meios no militares, as fontes do seu poder. O chefe da seco 
era o coronel Laurence Grand, a quem me apresentaram uns dias depois de ter sido 
admitido. Muito alto e magro, parecia-se extraordinariamente com a figura que eu imaginara 
que entraria em contacto comigo na Espanha ou na Alemanha. A diferena  que o seu 
esprito no era limitado. Abria-se livremente sobre o campo das suas espantosas 
responsabilidades, nunca hesitando perante uma idia, por muito absurda ou estranha que 
fosse.

Prestava-se nessa altura muita ateno a um projecto que tinha por fim atacar as Portas de 
Ferro do Danbio, para interromper o fornecimento de petrleo romeno aos Alemes. Eu j 
vira as Portas de Ferro e fiquei muito impressionado pela coragem dos meus colegas, que 
falavam em as fazer explodir como se se tratasse de destruir uma comporta no Regents 
Canal. Uma tentativa

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destas estava nitidamente fora do alcance dos recursos da Seco D em 1940. Quando se 
ps finalmente em prtica foi descoberta e morta  nascena pela polcia jugoslava, 
causando algumas dificuldades ao Governo britnico. A mesma disparidade entre os fins e 
os meios era evidente em sugestes de que se poderia interromper seriamente o 
fornecimento de petrleo de Hitler inutilizando os campos petrolferos de Baku. Depois 
disso vi os referidos campos e diverti-me a imaginar como  que poderia pr em prtica tal 
empresa, admitindo o princpio de que partiria de uma base no Cairo. Mesmo em
1940 teria considerado a hiptese como uma fantasia se no tivesse assistido a uma 
conferncia de imprensa em Arras, dada pelo general Pownall, ento chefe do estado-maior 
de Lord Gort, na qual o general disse que, dada a fora da Linha Siegfried, haveria 
melhores perspectivas atacando pelo Cucaso. Este ataque, se fosse bem sucedido abriria 
as fracas defesas orientais da Alemanha ao ataque anglo-francs.

Grand nunca teve recursos para pr em prtica as suas ideias, apesar de terem sido 
transmitidas livremente aos seus sucessores. O seu pessoal de Londres caberia facilmente 
numa grande sala de visitas. Reunamo-nos regularmente, aos domingos no seu quartel-
general, no campo, onde os tpicos inesgotveis de conversa eram planos, planos, planos. 
Na realidade, pouco mais tinha que papis rabiscados. Os seus esforos para conseguir uma 
fatia maior do bolo secreto eram gorados pela parte mais antiga e com bases mais firmes do 
servio secreto. Partindo da premissa vlida de que sabotagem e subverso so 
inerentemente arriscadas (os sabotadores so facilmente descobertos), a gente do servio 
secreto chegava rapidamente  errada concluso de que as exploses eram uma perda de 
tempo e de dinheiro, que tiravam possibilidades ao espio silencioso. Por isso, os pedidos 
de Grand aos servios do Tesouro e s foras armadas eram muitas vezes bloqueados dentro 
do seu prprio servio. Na melhor das hipteses davam-lhe um apoio quase insignificante.

No respeitante  poltica subversiva as dificuldades eram ainda maiores, porque envolviam 
aspectos fundamentais

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 da poltica britnica. H muito que o Governo britnico se habituara a apoiar os monarcas e 
oligarcas da Europa. E esses homens eram adversrios acrrimos de qualquer forma de 
subverso. Os nicos que conseguiam opor alguma espcie de resistncia a Hitler eram os 
movimentos da ala esquerda, os partidos dos camponeses, os sociais-democratas e os 
comunistas. S eles seriam capazes de continuar a resistncia depois de os Alemes terem 
subjugado os seus pases. Apesar disso, eram completamente incapazes de mexer uma palha 
pelo Governo britnico, que insistira em apoiar o rei Carol e o prncipe Paulo, que os tinham 
perseguido entre as guerras. Assim, as ideias de subverso na Inglaterra comeavam com 
um pesado handicap imposto pelo Foreign Office, que s muito tarde viu que 
fosse qual fosse o resultado da guerra, os seus fantoches favoritos eram causas perdidas. 
No  portanto de espantar que, quando isto se tornou evidente, os movimentos de 
resistncia se inclinassem tanto para a Unio Sovitica e que s se tivesse reencontrado o 
equilbrio em Frana, Itlia e Grcia por intermdio de uma presena militar macia anglo-
americana.

Por motivos de segurana e convenincia so atribudos aos agentes do S. I. S. smbolos 
para serem usados na correspondncia e na conversao. Naturalmente, Grand era D. Os 
subchefes da sua seco eram conhecidos por DA, DB, etc., e os assistentes seriam 
distinguidos pela adio de nmeros, por exemplo, DA/1. Guy era DU. De acordo com a 
prtica normal eu deveria ter sido portanto DU/1. Mas Guy explicou-me, com muita 
delicadeza, que o smbolo DU/1 implicaria a minha subordinao a ele; ele queria que 
fssemos vistos como iguais. Resolveu o dilema atribuindo-me uma terceira letra em vez de 
um nmero final, e escolheu a letra D. Iniciou-me assim na carreira de agente do servio 
secreto com o smbolo DUD.

DUD no era o ponto de partida ideal para aquilo que eu tinha no esprito. Queria arranjar o 
meu prprio lugar no servio; para isso era preciso descobrir como estava organizado e 
quais as suas atribuies. Mas Guy, segundo as suas predileces, tinha transformado DUD 
numa espcie de fbrica de ideias. Via-se como uma roda que lanava ideias, como fascas, 
 medida que girava. No se

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parecia interessar pelo stio onde as fascas caam. Passava muito tempo nos gabinetes de outras pessoas 
espalhando as suas prprias ideias.  medida que se entusiasmava com os seus temas, ouviam-se risos 
abafados vindos do corredor at ao meu gabinete, onde eu estava sentado a pensar ou a ler os jornais. 
Depois de ter levado toda a manh a conversar, voltava ao meu gabinete rindo, ao mesmo tempo que, 
fazendo covinhas na cara, sugeria que sassemos para tomar uma bebida.

Num dia de Julho, Guy entrou no meu gabinete trazendo alguns papis, para variar. Eram pginas de um 
memorando escrito por ele. Grand tinha aprovado o seu contedo e pedira-lhe que continuasse a estudar e a 
elaborar o assunto. Guy precisava da minha ajuda para isso. Eu fiquei radiante. H muito que sabia que 
ajudar Guy era tirar-lhe o trabalho mais difcil das mos. Mas como h duas semanas que no fazia nada, 
ficaria satisfeito com qualquer trabalho. Peguei nos papis e Guy sentou-se  minha secretria, procurando na 
minha cara sinais de aprovao.

Era uma produo caracterstica: muito bom senso, mas to embebido em epigramas floreados e citaes que 
quase no se dava por ele. (Guy tinha citaes para todos os casos, mas nunca se preocupara em as verificar). 
O que ele propunha era a criao de uma escola de treino onde se iniciassem agentes nas tcnicas de 
trabalho secreto. Era uma proposta espantosa, no por ser apresentada, mas pelo contrrio, por nunca o ter 
sido antes. No existia tal escola. Guy argumentava da sua necessidade, bvia agora, mas que nessa poca 
representava uma inovao. Delineava os assuntos que formariam o programa e no fim sugeria que essa 
escola se chamasse Guy Fawkes College para homenagear um conspirador mal sucedido que fora 
descoberto pela vigilncia do S. I. S. elizabethiano. Era um toque elegante. No podia propor que se 
chamasse Guy Burgess College.

Por fim, deitara a mo a qualquer coisa. Dividi o assunto nas suas partes componentes: programa, seleco de 
instrutores, segurana, acomodaes, etc., e fiz um memorando acerca de cada um. Esqueci j a maior parte 
do que escrevi, mas, perante os grandes estabelecimentos

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de treino que se desenvolveram gradualmente, espero que os meus primeiros e modestos escritos sobre o 
assunto j no existam. Guy, depois de ter depositado no meu colo a sua chuva de estrelas, pareceu perder o 
interesse pelas novas idias que pudessem surgir. Mas no foi assim. Viu que Grand leu os meus papis e 
organizou comisses para os discutir. Na altura, eu no gostava do trabalho em comisses e continuo a no 
gostar. Todas as comisses tm um fantasma. O meu fantasma nas comisses acerca das escolas de treino era 
um certo coronel Chidson. Tivera um papel astucioso, conseguindo tirar a Hitler, na Holanda, uma 
quantidade de diamantes industriais, mas a mim bulia-me com os nervos. Tinha vises da anarquia assolando a 
Europa, e resistia ferozmente  idia de largar uma quantidade de homens treinados no continente. Um dia, 
em Lower Regents Street, reconheci-o, caminhando em direco a mim. Da a um momento ele viu-me e 
abrandou o passo. Recompondo-se rapidamente, levantou a gola do casaco e meteu-se por uma transversal. 
Era evidente que a nossa escola de treino se estava a tornar muito necessria.

O refro de Guy, na altura, era: Temos de tornar a idia aliciante; e tornmo-la. Na devida altura, soube 
com grande surpresa que haviam adquirido para treinos Brickendonbury Hall, um edifcio localizado perto 
de Hertford, que fora anteriormente uma escola e que possua grandes terrenos anexos. * Fui apresentado 
ao comandante Peters, R. N., que fora nomeado comandante da escola. Levava-nos muitas vezes, a Guy e a 
mim, a jantar ao Hungaria, a fim de ouvir os nossos pontos de vista sobre o novo projecto. Tinha olhos azuis, 
distantes, e um sorriso extraordinariamente simptico. Contra o que se poderia pensar, interessou-se 
imediatamente por Guy, que se servia descaradamente de todos os cigarros que havia na secretria dele. 
Como veremos, a sua ligao connosco foi breve. Condecoraram-no mais tarde com uma V. C. pstuma pelo 
seu galante, e provavelmente

* O Sr Sweet-Escott, no seu excelente livro Baker Street Irregular, situa erradamente a primeira escola de 
treino em Aston House. Aston era um depsito de explosivos dirigido pelo Comandante Langley, R. N

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intil, comportamento no porto de Oro. Quando tive conhecimento de que fora 
condecorado, senti pena que ele nunca o tivesse sabido. Era o tipo do sentimentalista que 
teria chorado com essa hora. Os nossos alunos adoravam-no.

Depois aumentou o nmero de instrutores. Um deles era George Hill, sempre bem 
disposto, que escrevera livros sobre as suas proezas secretas na Rssia Sovitica. Era um 
dos poucos ingleses vivos que tinha posto areia na engrenagem. Era imensamente barrigudo 
e parecia-se com o rei dos Soglow, com uma careca em vez de uma coroa. Foi mais tarde 
nomeado chefe da misso do S. O. E. em Moscovo, onde os Russos o receberam com 
alegria. Sabiam tudo acerca dele. Uma verificao, a destempo, da segurana da sua sala de 
conferncias em Moscovo revelou um nmero alarmante de fugas de informaes. Outro 
era um perito de explosivos chamado Clark, com um sentido de humor muito especial. 
Pediram-lhe que fizesse uma demonstrao para o checo DMI e o seu pessoal, e ele 
colocou armadilhas numa mata por onde aqueles tinham de passar at aos campos de treino. 
Presumira que eles caminhariam atravs da mata em fila indiana, como patos. Mas, em vez 
disso, marcharam separadamente, e os oficiais que iam nas extremas da linha sofreram 
grandes choques. Foi um milagre ningum ter ficado ferido.

Havia tambm o tipgrafo checoslovaco, que fora recomendado por ter dirigido uma 
tipografia secreta em Praga. Era plido e atarracado; o comandante, depois de o olhar, 
decidiu logo que ele se devia misturar com os alunos. Uma outra figura triste era um 
socialista-democrata austraco que se chamava a si prprio Werner. Fora contratado para 
instruir qualquer aluno austraco que pudesse surgir. Nunca apareceu tal recruta e, como ele 
s falava alemo, eu tinha de passar muito tempo a anim-lo. Por fim demitiu-se e foi 
transferido para uma outra ocupao. Morreu quando o submarino em que ia para o Egipto 
foi afundado por um bombardeiro de mergulho, no Mediterrneo.

Mas a personalidade mais interessante era, sem dvida, Tommy Harris, um negociante 
muito considerado, 

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de objectos de arte. Foi contratado, por sugesto de Guy, como uma espcie de 
encarregado da casa, especialmente porque ele e a mulher eram cozinheiros inspirados.

Foi o nico de ns que contactou pessoalmente, nessas primeiras semanas, com os alunos. 
O trabalho no era prprio do seu esprito, pouco cultivado, mas brilhantemente intuitivo. 
Foi aproveitado dentro de pouco tempo pelo S.I. S para organizar e dirigir uma das 
operaes secretas mais bem concebidas de todos os tempos. Vero como para mim os dias 
Brickendonbury foram uma poca terrivelmente melanclica, iluminados s pelo princpio 
de uma amizade estreita e muito apreciada com Tommy Harris.

Surgiram alguns alunos: dois pequenos grupos de belgas e noruegueses e um grupo mais 
numeroso de espanhis. Eram cerca de vinte e cinco ao todo. Talvez tivessem aprendido 
alguma coisa de til em Brickendonbury, mas duvido. Ignorvamos tudo acerca do trabalho 
para que os devamos preparar e nem Guy nem eu conseguimos saber algo de til do 
quartel-general em Londres. Alm disso, pouco tnhamos que fazer alm de conversar com 
o comandante e de o ajudarmos a preparar notas para o quartel-general, que raramente 
obtinham resposta. Uma coisa era evidente: quase nada havia que ensinar aos espanhis, a 
maior parte dos quais eram dinamiteros das Astrias. Os instrutores so 
todos iguais, observou um dia um rapaz de cerca de dezoito anos. Dizem-nos que 
cortemos certa quantidade de rastilho. Mas cortamos o dobro, para ser mais seguro, e  por 
isso que ainda estamos vivos.

Podamos ter aprendido algo til acerca de processos de segurana se algum soubesse 
qualquer coisa. Mas a verdade s passados anos se fez ouvir. Como nos propnhamos tratar 
com agentes que seriam mandados para territrio inimigo e provavelmente capturados, 
decidimos proteger a identidade dos agentes instrutores por meio de pseudnimos. Peters 
passou a ser Thornley, Hill tornou-se Dale, etc. Guy, pondo em prtica o seu senso de 
humor infantil, convencera o comandante, sem eu saber, a arranjar-me um pseudnimo to 
imprprio que me recuso a divulg-lo. A nica excepo era Tommy Harris,

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a quem permitiram que conservasse o seu nome, por motivos de que j no me recordo. 
Algum tempo depois da guerra, Tommy encontrou o chefe do nosso grupo belga, um 
homem embirrento, de origem aristocrtica, que no se esquecia de o fazer notar, e foi a 
uma casa de ch com ele. Quando recordavam Brickendonbury, o belga observou que os 
nossos alunos tinham descoberto todos os nossos verdadeiros nomes, excepto um. Tommy 
p-lo  prova, viu que ele sabia realmente todos os nossos nomes e perguntou-lhe qual era a 
excepo. Era voc, respondeu o belga.

Guy Burgess desaparecer temporariamente destas pginas e por isso talvez me perdoem 
que conte uma histria que mostra bem o seu gosto em pregar partidas inocentes. Acabara 
de anoitecer depois de um belo dia de Vero. O comandante estava de cama a tratar uma 
crise aguda de eczema. Para o esconder deixara crescer a barba. Junto da cama, bebendo 
um clice de Porto, estava um instrutor que o fora visitar, a quem se dera o 
pseudnimo de Hazlitt. De repente ouviram-se gritos em cinco lnguas vindos do jardim, 
como se estivssemos na Torre de Babel. Os alunos corriam para casa, alegando ter visto 
um, trs, dez, grande nmero de pra-quedas que tinham cado na vizinhana. O 
comandante, ao ouvir as notcias, disse aos belgas que se fardassem e que montassem uma 
metralhadora numa janela. Ordenou que se formasse uma linha de fogo nos campos de 
jogos da escola. No sei o que teria acontecido se o inimigo tivesse entrado pela porta da 
frente. Se os Alemes nos invadiram, disse ele a Hazlitt, levanto-me.

Cometeu ento um erro desastroso. Disse a Guy que averiguasse a veracidade dos factos e 
telefonasse a dizer os resultados para o oficial de servio em Londres. Guy realizou a tarefa 
com uma conscincia perversa. Ouvi parte do seu relatrio pelo telefone: No, no posso 
acrescentar nada ao que disse... com certeza no querem que minta, pois no? Querem que 
repita? Foram avistados pra-quedas, que caram na vizinhana de Hertford, num nmero 
varivel entre oitenta e nenhum... No, no posso diferenciar a credibilidade das vrias 
testemunhas. Oitenta ou nenhum. J tomaram nota? Volto

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a falar se for preciso. Adeus. Foi relatar o acontecido, em triunfo. No sei o que farei se 
me levantar, dizia o comandante, mas com certeza hei-de tomar o comando.

Passou uma hora ou duas e no aconteceu mais nada. Os belgas desmontaram com tristeza a 
sua metralhadora Lewis e fomos todos para a cama. No dia seguinte, Guy passou 
muito tempo ao telefone e espalhava periodicamente notcias alegres. O oficial de servio 
alertara o seu chefe, que se pusera em comunicao com o Ministrio da Guerra. O 
Comando Oriental tinha sido tirado -da cama e tomou posies de madrugada. Guy ps-se a 
adivinhar o custo das operaes, elevando os preos durante o dia. Devo acrescentar que os 
clculos acerca do nmero mnimo e mximo de pra-quedas avistados haviam sido feitos 
por mim (o mnimo: nenhum) e, tenho quase a certeza, por Guy (o mximo: oitenta). No 
entanto, ambos estvamos enganados. Cara, de facto, um pra-quedas, que trazia amarrado 
uma mina, mas enrolara-se inofensivamente numa rvore.

 medida que as semanas do Vero passavam sem recebermos directivas claras de Londres, 
a disposio do comandante piorara. Tornou-se mais taciturno e distante que habitualmente. 
Primeiro, pensei que o eczema o incomodava mais que ele queria admitir. Mas depois 
comecei a ouvir por portas travessas coisas que nunca nos tinham sido ditas oficialmente. A 
Seco D fora desligada do S. I. S. e reformada sob a gide do Dr. Dalton, ministro da 
Economia de Guerra. Grand havia-se ido embora, e o seu substituto era Frank Nelson, um 
homem de negcios sem qualquer sentido de humor, cujas capacidades nunca tive 
oportunidade de pr  prova. Depois de Colin Gubbins ter visitado Brickendonbury e de 
vrios novos agentes haverem tomado posse, virando-se uns contra os outros e contra ns, o 
comandante caiu num estado depressivo. Andava preocupado por no lhe dizerem nada. 
No foi para ns uma surpresa quando uma manh nos chamou, a Guy e a mim, e nos disse 
que tinha passado a noite a redigir o seu pedido de demisso. Falava com um ar triste, como 
se tivesse conscincia de ter falhado. Depois animou-se e voltou-lhe o sorriso simptico que

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no vamos h muitos dias. Era evidente que se sentia feliz por voltar para os seus barcos, 
depois deste breve baptismo de fogo poltico.

A demisso do comandante foi aceite sem dificuldade. Pusemo-nos indiferentemente a 
desmanchar o nosso centro de treino. Os passos que demos j no esto claros na minha 
memria. Devemos ter colocado os alunos em qualquer stio para os utilizarmos no futuro, e 
segundo ouvi mais tarde, alm de Werner, morreram pelo menos mais dois. Um simptico 
telegrafista noruegus, fora apanhado pelos alemes e fuzilado pouco depois de voltar para 
a Noruega. O outro, o melhor do grupo belga, fora lanado de pra-quedas na Blgica. Mas 
o pra-quedas ficara preso  parte inferior do avio e ele fora atirado repetidas vezes, 
felizmente a uma cadncia muito rpida, contra a fuselagem do aparelho at ficar 
inconsciente e morrer.

Tommy Harris deixou-nos com grande desgosto, e em breve encontrou um trabalho  altura 
do seu verdadeiro nvel, como agente do S. I. S. Guy e eu apresentmo-nos no novo 
departamento central de operaes especiais, no nmero 64 de Baker Street, que mais tarde 
se tornou famoso (ou notrio, conforme o ponto de vista) simplesmente como Baker 
Street. Entrava e mudava-se mobilirio de escritrio; de cada vez que visitvamos o local 
havia sempre divisrias a serem colocadas ou retiradas. Por baixo de ns, o pessoal de 
Marks & Spencer olhava espantado. Havia muitas caras novas com novas funes. Grande 
parte dos recrutas vinha de bancos, da finana e do foro. As caras conhecidas eram, 
infelizmente, poucas. Nelson tinha feito uma grande limpeza. Fora alegremente ajudado por 
alguns dos oficiais mais antigos do S. I. S., especialmente Claude Dansey e David Boyle, 
de que voltaremos a falar. Estavam decididos no s a tornarem-se importantes, mas a 
fazer o mesmo dos seus fiis pajens.

Contudo, a limpeza ainda no tinha acabado. Um dia Guy apareceu em minha casa, para 
tomar uma bebida, anormalmente lacnico. Acabou por dizer tudo; fora vtima da intriga 
burocrtica, pelo que percebi que havia sido despedido. Pensei que os meus dias, ou 
horas, 

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estivessem tambm contados, e Guy esperava ansiosamente por mim como seu 
companheiro de infortnio. Mas nos dois meses seguintes o meu sobrescrito com o 
ordenado continuava a conter dez notas de cinco libras. Parecia que as operaes especiais 
precisavam de mim; ou talvez fosse demasiado insignificante para merecer que me 
despedissem. Guy era extraordinariamente adaptvel. Em breve encontrou um lugar ptimo 
no Ministrio da Informao, que lhe proporcionou uma quantidade enorme de contactos 
interessantes. Comeou a referir-se com desprezo  minha prolongada associao com 
Slop and Offal.

Captulo II

Dentro e fora do S. O. E.

Apesar de o malogro da nossa primeira aventura do centro de treino ser deprimente, teve a 
vantagem de me trazer de regresso a Londres, onde, pelo menos, me sentia mais perto dos 
centros importantes, com poder para tomar decises. Em termos prticos, pouco lucrei com 
isso imediatamente. No tinha atribuies especiais e, portanto, no podia pedir um 
gabinete. Vagueava por Baker Street, tentando fixar as novas caras e organiz-las 
coerentemente, o que naquela altura era extraordinariamente difcil para quem quer que 
fosse. Todos pareciam muito ocupados, mesmo que s estivessem a mudar a moblia. 
Perante tanta actividade, a minha ociosidade afligia-me. Era como um cocktail 
em que todos se conhecem e ningum nos conhece.

Apesar de nessa altura me parecer impossvel, estava a assistir ao nascimento daquilo que 
seria uma organizao formidvel. Se descrevi as suas origens, tal como as vi, em termos 
impertinentes,  porque a impertinncia era inevitvel. O Intelligence Service gozara de um 
prestgio lendrio entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial ; mas esse prestgio era 
injustificado. Muitas pessoas podem pr em dvida esta afirmao, sobretudo perante a falta 
de documentos escritos. Mas haver algo demais incrvel que o facto, bastante conhecido, 
da esquadra que foi mandada a Alexandria para afastar Mussolini da Abissnia e que no 
pde entrar em combate por no ter munies? A verdade  que o servio secreto, em 
consequncia de ter sido dirigido de uma forma complacente e indiferente, comeou a 
decair, tal como as foras armadas. Alm da falta de financiamento, no havia uma 
organizao e sistematizao sria dos quadros de pessoal. Assim como tinham permitido 
que o Exrcito fosse dominado por oficiais de mentalidade curta durante mais de vinte anos 
aps a batalha de Cambrai, tambm o servio secreto sofria das mesmas enfermidades da 
Marinha, pelo facto de, no momento, o seu chefe ser um almirante. No

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se pode culpar especialmente o almirante Sinclair por isto; obrigado, como era, a servir-se 
unicamente dos seus magros recursos  natural que escolhesse os seus subordinados nos 
crculos que melhor conhecia.

Quanto a sistema no havia literalmente nenhum. Quando, em virtude da aco da quinta 
coluna em Espanha, os dirigentes militares britnicos foram obrigados a reconhecer a 
importncia potencial de uma aco secreta contra o inimigo, mesmo ento, contrafeitos, 
resolveram improvisar. A seco foi inserida num S. I. S. cptico, para planear actos 
espalhafatosos, de uma coragem desesperada, enquanto o tema da propaganda negra se 
tornava o entretenimento de grande nmero de organizaes ligadas ao Governo, que se 
debatiam, na escurido, umas contra as outras. No  de espantar que os resultados do 
primeiro ano tivessem sido insignificantes. No caso de pensarem que estou a exagerar vou 
transcrever o que afirmou Bickham Sweet-Escott, um dos agentes mais hbeis e inteligentes 
que serviram no S. O. E. durante a guerra: O registo das nossas vitrias (Vero de 1940) 
no era impressionante. Havamos efectuado realmente algumas operaes bem sucedidas, 
mas no muitas, e tnhamos algo a que se poderia chamar uma organizao na rea dos 
Blcs. Mas mesmo a no alcanramos nada de espectacular, e as nossas tentativas de 
subverso nos Blcs somente conseguiram afligir o Foreign Office. Quanto  Europa 
Ocidental, apesar de haver desculpa para isso, os resultados eram ainda mais lamentveis, 
porque no possuamos um nico agente entre os Blcs e o canal da Mancha.  estranho, 
mas  verdade.

Era este o motivo que provocara as mudanas no ltimo captulo, as quais eram apenas uma 
pequena parte de um programa de reformas muito maior. Em Julho de 1940, Churchill 
convidou o Dr. Dalton, ministro da Economia de Guerra, a tomar inteiramente a seu cargo 
toda a aco secreta contra o inimigo. Dalton, para se livrar de responsabilidades, criou uma 
organizao a que chamou Special Operations Executive. De princpio,

* Propaganda subversiva.

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estava dividida em trs partes: S. O. 1, para propaganda negra; S. O. 2, para sabotagem e 
subverso; e S. O. 3, para planeamento. O S. O. 1 passou, mais tarde, a chamar-se Political 
Warfare Executive e o S. O. 2 adoptou o nome que fora dado primitivamente a toda a 
organizao, Special Operations Executive. Para simplificar, chamar-lhes-ei no futuro P. W. 
E. e S. O. E., mesmo que os acontecimentos que esteja a descrever tenham sido anteriores 
 mudana de nome. O S. O. 3 no nos maaria muito tempo, porque em breve se destruiu a 
si prprio, afundando-se em papis, e a sua morte no foi chorada.

Comeava a pensar quanto tempo poderia continuar a receber dinheiro sem trabalhar para o 
merecer, quando fui chamado por Colin Gubbins. Entre outras coisas, ele tinha sido 
encarregado de tratar do nosso programa de treino e deve ter ouvido falar no meu nome em 
relao com a experincia falhada de Brickendonbury. Gubbins conquistaria grande 
prestgio no fim da guerra e d-me prazer pensar que lhe encontrei valor logo na nossa 
primeira entrevista. Todo o seu escritrio mostrava a presena de uma pessoa enrgica, e a 
sua maneira de falar era simultaneamente amvel e lacnica. Um amigo meu alcunhou-o de 
Whirling Willie, uma figura cmica da altura. Diziam que ele s prestava ateno s amigas 
ao pequeno almoo e que, mesmo assim, era bastante homem para as conservar.

Gubbins comeou por me perguntar se eu sabia alguma coisa acerca de propaganda poltica. 
Respondi simplesmente sim, convencido de que ele gostaria de uma resposta curta e 
precisa. Comeou ento a explicar que uma nova escola de treino estava a ser planeada em 
grande escala. Haveria elevado nmero de cursos sobre tcnicas de demolio, 
comunicaes telegrficas e tudo o resto. A acrescentar a esses estava ainda a organizar uma 
escola onde se efectuaria o treino geral nas tcnicas de sabotagem e subverso. Uma das 
tcnicas necessrias era a de propaganda secreta e necessitava de um instrutor capaz. 
Queria que eu preparasse um esquema geral do assunto. Acompanhou-me at  porta com 
as palavras: Seja breve.

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Quando me resolvi a faz-lo, apercebi-me de que o meu conhecimento de propaganda 
deixava muito a desejar, pois no tinha qualquer experincia pessoal dos modernos 
mtodos. Durante os anos em que fora jornalista tinha aprendido a relatar o que se passava, 
o que muitas vezes  um erro fatal num propagandista, cuja tarefa  persuadir as pessoas a 
tomarem determinadas atitudes. Consolei-me com a ideia pouco convincente de que no 
mundo j havia existido propagandistas bem sucedidos que no faziam ideia da tcnica de 
vender sabo. Mas, jogando pelo seguro, decidi-me a consultar alguns amigos meus que 
viviam em meios relacionados com a propaganda, de quem recolhi alguns princpios bsicos 
que poderiam ser desenvolvidos de maneira a que conseguisse dar algumas lies. Descobri 
que podemos contar com a gente que trata de propaganda para duas coisas. Primeiro, 
avisam-nos de que no devemos interessar-nos, de modo algum, por propaganda. Segundo, 
revelam-nos pormenorizadamente os truques sujos da sua profisso.

Da a alguns dias achei que tinha material suficiente para preparar o que Gubbins me pedira, 
desde que lhe conferisse um ar de veracidade, procurando exemplos da poltica europeia e 
do fascismo, em particular. Resumi tudo em pgina e meia de papel e telefonei a Gubbins 
para dizer-lhe que estava pronto. Da a cinco minutos ele voltava a telefonar-me, 
comunicando-me que tinha marcado um encontro no gabinete de Charles Hambro, para 
discutir o trabalho, nessa mesma tarde. Era a primeira vez, desde a queda da Frana, que 
vira alguma aco digna de nota.

Gubbins trouxe  reunio vrios agentes do seu quadro. Hambro cumprimentou-nos com o 
seu ar simptico e amvel, pondo-nos todos  vontade. Pegou no meu papel e leu-o alto, 
devagar e cuidadosamente. No fim, observou que lhe parecia muito bem. Os agentes de 
Gubbins acenavam todos secamente, pois tinham um ar demasiado marcial. Para minha 
surpresa Gubbins sorria com ar feliz.  exactamente o que eu queria, disse ele com 
nfase. Exactamente... Que  que dizes, Charles? Hambro no 
disse nada de especial. Talvez estivesse a pensar na Great Western Railway. Continue e 
faa precisamente

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isso, disse-me Gubbins. A reunio acabara.

Agora j desempenhava funes especficas, que me davam direito a um gabinete no 
departamento de Gubbins. Este no ficava no nmero 64, mas mais para cima, para o lado 
de Regenfs Park. Comecei a desenvolver o meu primeiro esquema numa srie de lies, 
mas estava longe de me sentir satisfeito. A nova escola deveria situar-se em Beaulieu, em 
Hampshire, longe de Londres. Esta distncia dificultaria horrivelmente todos os meus outros 
contactos interessantes. Muitas vezes pensava que faria melhor em deixar tudo, mas era 
levado a reconsiderar por duas razes. Em primeiro lugar, era essencial que me mantivesse 
dentro do mundo do servio secreto a que conseguira acesso. Seria estpido demitir-me 
enquanto no tivesse em perspectiva outro trabalho do mesmo gnero. Em segundo lugar, 
no se devem perder contactos e eu no podia desperdiar a oportunidade de tentar saber o 
que se passava nos distantes estabelecimentos de treino das Special Operations. Decidi ficar 
at que me aparecesse alguma coisa mais prometedora.

No acreditava que os orientadores dos cursos me deixassem agir quando chegasse o 
momento. Sabia que seria um orador horrvel, pois, desde os quatro anos que gaguejo, por 
vezes, consigo controlar-me, outras no. Tinha tambm alguns escrpulos quanto ao tema do 
meu curso. A ideia de falar de subverso poltica no me preocupava. Havia nessa altura 
poucas pessoas em Inglaterra que soubessem qualquer coisa sobre isso, e eu, pelo menos, 
tinha experincia prtica nesse campo. Mas estava preocupado com o conhecimento 
rudimentar que possua de tcnicas de propaganda. J antes rabiscara panfletos, mas nunca 
publicara nenhum.

Algum tempo antes de nos reunirmos em Beaulieu, decidi preencher algumas lacunas nos 
meus conhecimentos. Ia sempre que podia a Woburn Abbey, onde Leeper comandava 
languidamente o pessoal da propaganda negra do P. W. E. (Achei-o pouco mudado quando, 
cerca de quatro anos depois, o tornei a encontrar. Foi no Vero de 1945; matava moscas 
indolentemente na Embaixada britnica em Atenas, enquanto a Grcia fervia.) Mas fiquei 
surpreendido por saber que s vezes era bastante

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rude. Diziam que brigava muitas vezes com Dalton e que dava ao bom doutor muitos 
motivos para se irritar. As memrias de Dalton confirmam esta histria.

Se Baker Street era dominada pelos banqueiros, homens de negcios e do foro, Woburn 
fora invadido pelos propagandistas. Fora do santurio de Leeper, o local parecia uma 
sucursal de J. Walter Thompson. Claro que havia excepes: Dick Crossman, Con ONeill, 
Sefton Delmer e Valentine Williams, para citar alguns. Mas a maioria parecia ter a espcie 
de conhecimentos de que eu mais necessitava.

Ao princpio tratavam-me com alguma reserva. Como todos os departamentos, 
especialmente nos recm-criados, Woburn estava de p atrs contra os intrusos. Mas em. 
breve perceberam que o meu interesse em os conhecer era sincero e que estava 
plenamente disposto a aceitar os conselhos deles. Era evidente que os agentes secretos no 
discutiriam a qualidade da propaganda, quer concordassem com ela, quer no. Sendo assim 
era boa poltica para

Woburn, como organismo responsvel pela propaganda negra, que esta se divulgasse por 
intermdio de um instrutor com vontade de cooperar. Depois de algumas visitas a Woburn, 
fui convidado para um almoo com Leeper. Valentine Williams, que estava presente, 
ofereceu-se para me trazer para Londres no seu Rolls Royce oficial. 
Gostaria de ter falado com ele sobre Clubfoot. Mas tnhamos almoado bem e ele dormiu 
todo o caminho.

Havia, nessa altura, outro campo talvez mais importante para as minhas pesquisas. Estava 
muito certo que se ensinassem aos agentes as formas de propaganda, mas o seu contedo 
era igualmente importante. No havia dvida de que os agentes receberiam ordens no 
prprio dia, mas era preciso prepar-los previamente a fim de poderem cumprir as directivas 
que iriam receber. Assim, era necessria uma certa doutrinao poltica para que quando 
chegassem ao campo de operaes fizessem uma idia, pelo menos geral, de quais os 
futuros projectos do Governo britnico. Woburn no era o stio indicado para procurar as 
respostas a essas perguntas. Leeper e os seus

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homens queixavam-se da falta de directivas polticas de Londres.

com este propsito fui ter com Hugh Gaitskell. Conhecera-o vagamente antes da guerra e 
tnhamos discutido problemas austracos. No me lembro da natureza dos seus interesses 
polticos, e tenho a certeza de que ele no conhecia os meus. Nessa altura, ele era o 
principal secretrio particular de Dalton, imediatamente abaixo deste, e estava intimamente 
ligado com Gladwyn Jebb, que Dalton tinha tornado responsvel pelas operaes de Baker 
Street. Gaitskell era um homem muito ocupado e geralmente sugeria que nos 
encontrssemos  hora do jantar numa cervejaria para os lados de Berkeley Square. 
Discutamos os meus problemas comendo salsichas e massa. Muitas vezes voltvamos para 
o seu escritrio e consultvamos Jebb ou o prprio Dalton. Este estava sempre pronto a 
ouvir-nos, oferecendo-nos, hospitaleiramente, um whisky com soda. (J me gabei 
de ter reconhecido em Gubbins um homem de valor. Por outro lado, tenho de confessar que 
nunca suspeitei que Gaitskell fosse o homem de primeira linha que demonstrou ser mais 
tarde.)

Em geral, o resultado destas reunies era desolador. Dalton tinha dificuldades como Foreign 
Office. Era fcil ento, como  agora, falar do ponto de vista deste ministrio. H muita 
gente no Foreign Office e poucos pontos de vista, mas quando se tratava de coarctar uma 
determinada linha de aco, o que restava no era nada de entusiasmar. Muitas vezes 
parecia que os Ingleses queriam um simples retorno ao status quo de antes 
de Hitler, a uma Europa confortavelmente dominada pela Inglaterra e pela Frana por meio 
de Governos reaccionrios, unicamente com fora para manter a ordem entre o seu povo e 
para manter um cordo sanitrio contra a Unio Sovitica.

Esta viso da Europa era incompatvel com a prpria existncia do S. O. E. O seu fim, nas 
palavras de Churchill, era pr a Europa a arder. Isto no se podia fazer apelando para que o 
povo cooperasse na restaurao de uma ordem antiga, desacreditada e impopular, nem 
sequer utilizando os sentimentos de momento, os quais

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eram influenciados largamente pelas sucessivas vitrias de Hitler. S podamos operar 
eficientemente imaginando o estado de esprito da Europa depois de mais alguns anos de 
guerra e de domnio nazi a terem obrigado a trabalhar o futuro com as suas prprias mos. 
No havia dvida de que seria um estado de esprito revolucionrio, que faria desaparecer a 
Europa dos anos 20 e 30.

Claro que Dalton e Gaitskell viam a contradio entre a sua misso no S. O. E. e o ponto de 
vista do Foreign Office. Mas tinham de caminhar com cuidado porque no havia outra 
alternativa. Ambos, como bons socialistas, estavam certos de que as unies de comrcio 
europias tinham na mo uma das chaves mais importantes da situao. Mas era de duvidar 
que essas unies aceitassem correr o risco de acreditar num Governo britnico, mesmo que 
a ele pertencessem homens como Attlee, Bevin, Dalton e outros socialistas. A muitos 
parecia que a Inglaterra do tempo da guerra era muito diferente da Inglaterra de Baldwin e 
Chamberlain. Mas como  que um estrangeiro podia ter a certeza de que no era apenas um 
disfarce para o traidor da Abissnia, da Espanha e da Checoslovquia? A suspeita manteve-
se, porque os Ingleses no foram capazes de desenvolver uma propaganda verdadeiramente 
revolucionria. A falta de uma directriz poltica adequada perseguiu-nos durante a guerra. 
Todos os grupos da resistncia aceitaram o nosso dinheiro e as provises, mas poucos 
obedeciam  voz de Londres. S apareceram em cena quando eles prprios encararam um 
caminho para o futuro, no o caminho que o Governo britnico lhes tinha traado. Por isso, o 
sucesso relativo do S. O. E. no campo da demolio fsica e da devastao est em 
proporo com o relativo falhano no campo poltico.

No  este o stio indicado para a discusso das limitaes do S. O. E., quer impostas pelo 
exterior, quer inerentes s suas prprias fraquezas. Falo nestes problemas s para ilustrar as 
dvidas que me assaltavam quando entrei para o corpo docente de Beauleu. Explicam 
porque, apesar de ter encontrado bons companheiros nessa escola, a minha estada l no foi 
muito proveitosa. Os meus prprios erros e o descuido forado de outros 

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interesses contriburam substancialmente para que os meus assuntos corressem mal. Ia a 
Londres sempre que podia, geralmente com o pretexto de visitar Woburn para discutir 
assuntos tcnicos, mas isso no era suficiente. No admira, pois, que a minha conta da 
cantina fosse sempre a mais elevada.

O meu descontentamento por estar em Beaulieu no seria, de forma alguma, causado pelos 
meus colegas, que se mostraram bons companheiros. O comandante, John Munn, era um 
coronel jovem, do tipo do militar sensato, oposto ao militar estpido, ao militar mstico e ao 
militar imbecil. No vociferava, nem pregava ioga. Conseguia manter todo o pessoal  
composto por gente das mais diferentes espcies  debaixo da sua autoridade. Tratava-nos 
como adultos e a sua atitude para com os superiores seria crtica, mas leal. O seu chefe de 
estado-maior era um homem idoso, que prestara servio na Primeira Guerra Mundial. 
Gostava de afirmar que era um homem resistente e que os seus ossos tinham pouco tutano. 
Mas s de vez em quando se tornava aborrecido, e era um bom pianista.

O instrutor-chefe era uma figura pitoresca chamada Bill Brooker, que, mais tarde, fez um 
grande sucesso na escola de treino subsidiria instalada no Canad. Era do tipo do vendedor 
dinmico, com um reportrio inesgotvel de histrias e anedotas, incluindo uma srie no 
brilhante calo de Marselha. Mas depois de um pouco de esforo seria capaz de falar aos 
alunos como se nunca tivesse feito outra coisa. Era ajudado por uma plida imitao dele 
prprio, que se descrevia a si mesmo como um negociante de carne salgada. Vim a saber 
que tal ramo de negcio era uma das mais respeitveis ocupaes da City.

Tnhamos um colega semelhante a uma cermica de Wedgwoods, plido e de olhos 
esbugalhados, que quebrava os silncios com sadas inesperadas e devastadoras. Havia 
depois Trevor-Wilson, que, mais tarde, mostrou uma aptido especial para cativar os 
Franceses e os Chineses, prestando inestimveis servios quando foi colocado em Hani. 
Costumava ir regularmente a Southampton tratar de negcios particulares, acerca dos quais 
no

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dizia nada, e ria com ar delicado. Um dia resolveram recusar-lhe transporte oficial para a 
deslocao e ele fez a viagem de ida e volta  cerca de quinze a vinte milhas a p. Foi o acto 
de galanteria mais obstinado que eu alguma vez presenciei. Em flagrante contraste com 
Trevor-Wilson havia tambm um buchmanita que resolveu converter-me. S me largou 
quando me explicou os seus pontos de vista sobre as relaes sexuais e eu observei-lhe que 
tinha pena da sua mulher. Depois disso os nossos contactos limitaram-se ao tnis de mesa, 
que ele jogava com uma tal destreza que fazia pensar que Darwin tinha razo. A estrela da 
equipa era Paul Dehn, que prometera distrair-nos e cumpria maravilhosamente a sua 
promessa. Provou que as guas profundas no eram necessariamente sossegadas. No fundo 
mostrava-se generoso, bastante romntico, mas  superfcie fazia ondas e espuma como um 
riacho onde existem trutas. As suas loucuras ao piano tornavam mais curtas as longas noites 
de Vero e vivem ainda no meu esprito muitas das suas anedotas.

De todos ns o que se distinguiu mais depois da guerra (exceptuando Paul Dehn) foi Hardy 
Amies, o desenhador de modas. Foi o meu primeiro e nico contacto com essa profisso e 
ele desempenhava bem o seu papel, num fato folgado e de bom corte, verde como todos os 
do Intelligence Corps. No frequentava regularmente a nossa messe porque era um agente 
de ligao entre a escola e o departamento central de Baker Street. Uma das suas principais 
tarefas era descobrir, no departamento central, material que pudesse ter interesse potencial 
para o nosso corpo docente. Como nessa altura as nossas necessidades eram quase 
ilimitadas, ele podia ter aproveitado para fazer grandes investigaes. A sua presena 
irritava-me um pouco, embora sem razo, mas sentia que faria melhor o seu trabalho que eu 
o meu.

A primeira diferena entre mim e os meus colegas era

* De Frank Nathan Daniel Buchman. um missionrio e evangelista americano, fundador do movimento Oxford Group, que promoveu, em 1939, 
uma grande campanha para o rearmamento moral na Gr-Bretanha. Os seus adeptos passaram a chamar-se buchmanitas.

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eu ser o nico que tinha experincia pessoal como agente secreto. Nenhum dos outros 
havia sequer sonhado em baixar a voz quando passava por um polcia na rua. Mais tarde 
fiquei convencido de que, naquelas circunstncias, a escolha de instrutores ainda novatos 
fora acertada. Os agentes do servio secreto j com experincia eram pouqussimos. Na 
prtica, s poderiam ter sido retirados do S. I. S.  claro que se tivessem procurado 
instrutores adequados no S. I. S. eles aproveitariam a oportunidade para se libertarem de 
todos os inteis (se fosse possvel dispens-los).  terrvel pensar no que aconteceria aos 
alunos se cassem nas mos de Foley de Berlim, Giffey de Riga ou Steptoe de Xangai. Os 
nossos instrutores tinham todos a sua quota-parte de inteligncia e imaginao; junto deles 
muitos veteranos pareciam imbecis. Foi a experincia que me levou a adoptar este ponto de 
vista. Fizeram-se muitas censuras ao S.O.E., aos seus planos, operaes e segurana. Mas 
as crticas s suas escolas de treino foram relativamente poucas.

A segunda diferena existente entre mim e os meus colegas  que todos eles usavam 
uniforme. Certa ocasio Peters e Gubbins tinham feito observaes acerca da hiptese de 
eu entrar para o Exrcito. Como j disse, eu achava que tal passo limitaria seriamente a 
minha liberdade de movimentos, em contrapartida, no me traria qualquer benefcio. Pensei 
que a melhor maneira de manter o meu excntrico status seria no concordar nem 
discordar; perante a minha indiferena aparente, o assunto foi esquecido. Muito antes do fim 
da guerra apercebi-me da minha sorte. Nunca fora inibido por sonhos de promoo nem 
pela inveja dos meus colegas, nem fora preterido por agentes estranhos ao meu servio.

A grande diferena entre Beaulieu e Brickendonbury  que em Beaulieu treinvamos a 
srio agentes. No era um centro de instruo com demasiados instrutores, mas uma 
verdadeira escola. Estava l um grupo de noruegueses notveis em exerccios de campo. 
Uma noite, depois de poucas semanas de treino, todo o grupo conseguiu chegar a um quarto 
do andar superior da casa depois de ter atravessado um bosque cerrado, cheio de alarmes e 
de armadilhas colocados pelo melhor guarda de caa de San-

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dringham e de passar por um jardim patrulhado por instrutores. Eu fazia parte da patrulha e 
era capaz de jurar que ningum tinha passado. Havia tambm os meus amigos espanhis de 
Brickendonbury, que finalmente iam fazer qualquer coisa. Depois da minha primeira 
conversa com eles alcunhara-me de el comisario poltico. 
Eram talvez os mesmos espanhis que o meu velho amigo Peter Kemp encontrou nas 
margens de Loch Morar, perto de Arisaigo. No seu livro, muito instrutivo, No 
Colours or Crest, Kemp escreve acerca deles: Um horrvel bando 
de assassinos; no fizemos qualquer tentativa para nos juntarmos a eles  um caso notvel 
de telepatia. Penso que, depois de terem sido atirados de um lado para o outro pelo 
Governo britnico, matariam alegremente algum que vestisse o uniforme do nosso 
exrcito. Mas dominavam-se.

 com tristeza que me recordo do grupo de holandeses que participaram no nosso primeiro 
curso. Uma grande parte deles foram mandados da a pouco tempo para uma morte certa 
devido a um desastre operacional. Herr Giskes, um antigo oficial da Abwher, escreveu 
acerca da captura de um operador telegrfico do S.O. E. na Holanda, que comunicou depois 
com a Inglaterra debaixo do controle alemo e que foi o responsvel por 
inmeras patrulhas terem cado consecutivamente nas mos dos alemes. Aps posterior 
investigao averiguou-se que o operador capturado enviara realmente o sinal de 
emergncia para o quartel-general dizendo que fora capturado pelos alemes, mas que 
interpretaram mal a mensagem, ou a ignoraram simplesmente.

Pouco depois de a escola ter comeado a funcionar mandaram-nos um grupo de italianos 
antifascistas que tinham sido recrutados na ndia, entre os prisioneiros de guerra, por Alberto 
Tarchiani e os amigos. Tiveram pouca sorte com o instrutor ingls encarregado de os

* Foi mais tarde nomeado instrutor de exerccios de campo ** Naturalmente a minha viso de Espanha e dos Espanhis  diferente da de Peter 
Kemp, que lutou pelo general Franco durante a guerra civil. Mas gosto da descrio que faz do choque que sentiu ao ver pela primeira vez Hugh 
Quennell, o chefe da seco espanhola do S. O. E

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treinar. Falava italiano perfeitamente, mas era do tipo vociferante. Eu costumava pensar, no 
com muita simpatia, quando  que lhe meteriam um estilete entre as costelas. Havia tambm 
dois franceses, recrutados para uma misso especial que no nos revelaram. Um era das 
direitas, outro das esquerdas, mas ambos odiavam Vichy. Foram os meus melhores alunos, e 
dentro de quinze dias estavam a escrever panfletos de grande nvel. Falo nisto porque foram 
quase os nicos alunos que mostraram algum interesse por poltica ou por propaganda 
poltica. Os outros eram provavelmente o melhor material do S. O. E.; valentes mas 
moldveis, felizes por fazerem o que lhes mandavam sem se preocuparem com o futuro da 
Europa.

Torna-se evidente que eu era um mau agente do S.O.E., pois o futuro da Europa continuava 
a ser a minha principal preocupao. A situao militar agravava-se. O exrcito grego que 
enfrentava os italianos na Albnia fora vencido na Primavera. A revoluo jugoslava de 
Abril, em que o S.O. E. acreditava (a nossa gente estivera l e post hoc 
propter hoc), fora seguida pela invaso imediata da Jugoslvia e 
ocupao da Grcia. O pior de tudo foi a perda de Creta, para a defesa da qual deveriam ter 
sido mandados suficientes reforos britnicos. A manuteno da baa de Suda teria sido uma 
compensao substancial para a perda dos Balcs. Era difcil discutir estes assuntos na nossa 
messe, onde havia uma tendncia para ocultar a realidade com uma grande indiferena. Mas 
ocorreriam ainda acontecimentos importantes.

Numa bela manh o meu impedido acordou-me com uma chvena de ch e as palavras: 
Ele passou-se para o lado da Rssia. Depois de dar duas lies bastante -superficiais 
sobre a tcnica de propaganda, fui ter com os outros instrutores  messe para tomar os 
aperitivos. Os meus colegas estavam nitidamente atacados pela dvida naquela situao 
embaraosa. Para que lado  que a indiferena se deveria inclinar quando Sat lutava com 
Lcifer? Serve-se da Rssia para atingir os seus fins, disse Munn com um ar pensativo, e 
todos concordaram com as suas palavras, ou, antes, aprovaram-nas. O esprito dos

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voluntrios da Finlndia ainda estava muito vivo. De momento abandonou-se o assunto 
quando disseram que o Sr. Churchill ia, nessa noite, falar  nao. Claro que era mais 
sensato esperar pelas palavras do primeiro-ministro.

Como de costume, Churcill arrumou o assunto. Quando acabou o discurso os Russos eram 
nossos aliados. Os meus colegas aprovavam e a indiferena passou. O nico seno era o 
esprito da Finlndia. Mas nos dias que se seguiram, sentimo-nos cada vez mais alarmados 
pelos clculos que Londres nos transmitia acerca da capacidade de resistncia do Exrcito 
Vermelho  agresso alem. A seco russa do Directrio Secreto do Ministrio da Guerra 
calculava a durao da campanha de Hitler na Rssia entre trs a seis semanas. Os peritos 
do S.O.E. e do S.I.S. diziam o mesmo. A previso mais optimista que ouvi nesses dias foi 
atribuda ao brigadeiro Scaife, ento colocado no Political Warfare Executive, segundo me 
parece. Disse que os Russos aguentariam pelo menos trs meses, talvez muito mais. 
Como Evelyn Waugh escreveu uma vez: ...ele tinha toda a razo.

Agora mais que nunca precisava fugir dos rododendros de Beaulieu. Tinha de encontrar 
rapidamente um buraco melhor. Em breve me apareceu uma oportunidade prometedora. 
Durante uma das minhas ocasionais idas a Londres, resolvera visitar Tommy Harris na sua 
casa em Chesterfield Gardens, onde vivia rodeado pelos seus tesouros de arte, numa 
atmosfera de haute cuisine e grand vin. Mantinha que 
uma boa mesa no se podia estragar com manchas de vinho. J expliquei que Harris entrara 
para o S. I. S depois de a escola de treinos de Brickendonbury ter sido dissolvida. Calculo 
que foi em Julho, mais ou menos, que ele me perguntou se eu estaria interessado num 
trabalho em que eram necessrios os meus conhecimentos especiais da Espanha de Franco. 
Explicou-se que no seria com o M. I. 5, mas com o S.I.S.

Para dar sentido  sugesto de Harris  necessrio explicar resumidamente assuntos que 
sero discutidos em pormenor nos captulos seguintes. O S. I. S. era responsvel por todo o 
trabalho secreto, tanto espionagem como contra-espionagem em solo estrangeiro. O M. I. 5 
era responsvel pela contra-espionagem e

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segurana em Inglaterra e em todos os territrios ultramarinos britnicos. A seco de 
contra-espionagem do S. I. S., conhecida como Seco V, e o M. I. 5 eram, na realidade, 
dois lados da mesma moeda. A funo primordial da Seco V seria obter informaes 
prvias de operaes de espionagem contra o territrio britnico vindas de solo estrangeiro. 
Era evidente que avisos prvios vindos da Seco V poderiam ajudar muito o M. I. 5 na sua 
misso de salvaguardar a segurana britnica.

A dar crdito a Harris, a Seco V no estava a agir adequadamente. Os chefes do M. I. 5 
insistiam com o S. I. S. para que este fizesse as modificaes necessrias, indo ao ponto de 
o ameaar de se imiscuirem eles prprios nos assuntos com o estrangeiro, o que no poderia 
concretizar sem uma ordem do Governo. No entanto, havia quem estivesse decidido a levar 
o assunto at ao Governo. O S. I. S. cedeu  presso, aumentando substancialmente o 
oramento da Seco V para possibilitar a admisso de mais pessoal. Como a maior parte 
das operaes secretas alems contra a Inglaterra era preparada na Pennsula Ibrica fora 
planeada uma maior expanso da Seco V, aumentando de dois para seis o nmero de 
agentes que trabalhava na subseco que tratava de Espanha e Portugal. Harris disse-me 
que Flix Henry Cowgill, ento chefe da Seco V, andava  procura de algum que 
conhecesse a Espanha para reorganizar esta subseco. Se me agradasse, Harris pensava 
que poderia propor o meu nome com grandes possibilidades de sucesso.

Decidi aceitar imediatamente a sugesto, mas pedi a Harris alguns dias para pensar. 
Poderiam surgir alguns impedimentos, mas, de qualquer modo, devia tomar uma deciso 
racional. A Seco V estava instalada em St. Albans, o que no era ideal, mas imensamente 
melhor que Beaulieu. No meu novo trabalho teria de ter contactos pessoais com o resto do 
S. I. S. e com o M. I. 5. Havia tambm uma sugesto, que interessava ao Foreign Office, 
para que no fossem mencionados os departamentos do servio. Descobri por acaso que os 
arquivos do S. I. S. ficavam tambm em St. Albans, junto da Seco V. Quando pensei nas 
desvantagens, verifiquei que o

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trabalho no era, de modo algum, aquele que eu teria escolhido, pois no estava interessado 
no que se passava em Espanha e em Portugal. Mas o mesmo se aplicava, ainda agravado, a 
Beaulieu.

Alguns dias mais tarde disse a Harris que agradecia que continuasse a tratar do assunto. 
Comeou por interessar o seu prprio chefe, Dick Brooman-White, que dirigia ento a 
seco ibrica do M. I. 5, e que se tornou mais tarde um grande amigo meu, e penso que a 
trama que ele preparou comeou a funcionar. Calculo que a aproximao formal com a 
Seco V foi feita por Dick White, ento oficial superior do M. I. 5, quase a nica pessoa 
cujas relaes pessoais com Cowgill eram ainda tolerveis. (Dick White, O Grande Dick, 
no deve ser confundido com Dick Brooman-White, O Pequeno Dick. O primeiro seria 
mais tarde chefe do S. I. S., enquanto o ltimo foi eleito deputado conservador pelo crculo 
eleitoral de Rutherglen.) Pouco depois recebi um telefonema de Cowgill, pedindo-me que 
fosse falar com ele.

Eu tentava entretanto libertar-me de Beaulieu. Devido a dois falhanos espectaculares na 
sequncia das lies, arranjei justificao para apresentar o meu pedido de demisso e 
Munn recebeu a minha deciso com o seu ar simptico e sensato. S me pediu que ficasse 
at arranjar um substituto. E mais uma vez tive sorte. Encontrei a certa altura o soi-
disant Hazlitt, que, lado a lado com o comandante Peters, enfrentara os pra-
quedistas alemes em Brickendonbury. Os preparativos finais demoraram mais duas ou 
trs semanas, durante as quais visitei Cowgill em Markyae, naquela faixa detestavelmente 
estreita de Great North Road. O facto de eu no ter ocupado, com carcter definitivo, o 
lugar e de Cowgill no poder, portanto, dar o seu parecer quanto  minha nomeao, mostra 
bem como a espionagem funcionava naquela poca.

Uma noite, porm, depois de uma longa conversa, ele disse-me exactamente quais eram as 
minhas funes dentro da estrutura do S. I. S. Como as suas palavras eram de natureza 
altamente secreta, considerei-as a afirmao formal das suas intenes. Por outras palavras, 
calculei que estava contratado.

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Captulo in

S.I.S.   Uma instituio antiga e mal 
organizada

A minha transferncia, ou antes, a minha mudana de rumo do S.O.E. para o S.I.S. foi completada em 
Setembro de 1941. Uma senhora muito dinmica, que fez a mesma mudana um ano ou dois mais tarde, ficou 
muito satisfeita com a troca, porque, como ela dizia: J que temos de trabalhar para uma instituio mal 
organizada ainda bem que ficamos na mais antiga. Eu poderia ter dito o mesmo mais cedo, se me tivesse 
lembrado. Seria estpido diminuir a competncia dos novos homens que se movimentavam em Baker Street. 
O seu objectivo era realmente digno. Apesar disso, traziam com eles um estilo de improvisao forado ao 
abandonarem os seus elegantes escritrios da City e do Temple para espalharem a desordem e o caos 
financeiro na Europa, como guardas de caa transformados de reprente, em caadores furtivos. Era 
engraado brincar, em teoria, pelos corredores, com ideias. Mas, logo, era preciso requisitar um avio ou um 
pequeno barco  Fora Area ou  Marinha, o S.O.E. tinha de enfrentar o eterno conservantismo dos 
organismos oficiais britnicos.

O S.I.S. estava tambm a modificar-se, e os seus quadros a aumentarem, mas demasiado lentamente, perante a 
crescente necessidade de informaes indispensveis aos seus servios. Mas, na prtica, havia um centro 
nervoso j estabelecido e uma estrutura de pessoal correspondente. Os novos acrscimos pouco 
conseguiram alterar a sua natureza essencial o S.I.S. parecia-se com os Chineses na sua habilidade para 
absorver e digerir influncias estranhas. Sob presso, incluiu nos seus quadros representantes do Foreign 
Office e doutros departamentos oficiais, dos quais s Patrick Reilly deixou alguma influncia. Conseguiu 
mesmo sobreviver a influncias mais corrosivas, como Graham Greene e Malcolm Muggeridge, que s 
serviram para aumentar a comicidade do departamento. Resumindo, gostei de

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encontrar cho firme debaixo dos meus ps e de trababalhar verdadeiramente.

Como se sabe, o quartel-general do S.I.S. era nos Broadway Buildings, do outro lado de St. 
James Park Station. Mas a organizao, durante a guerra, ultrapassou o seu habitat 
original. A Seco V e o Arquivo Central foram deslocados para St. Albans, enquanto outras 
reparties menos importantes foram espalhadas por Londres e pelos Home Counties. 
Quando cheguei a St. Albans fui aboletado em casa de uma gente horrivelmente rica, os 
Barnet, cuja riqueza no era a nica coisa horrvel neles. Ia diariamente da sua casa  
estao num Rolls Royce com motorista, enquanto a dona da casa fechava 
o acar e contava os boies de compota com medo que as criadas os roubassem. 
Felizmente encontrei dentro de pouco tempo uma casa pequena nos arredores da cidade, 
onde estava a salvo de interrupes indesejadas. Da a alguns dias comprei um faiso a um 
homem, numa paragem de autocarro. Disse-me que de vez em quando tinha frangos e, 
por isso, a partir da, comecei a comer bem.

Muito se falar, nas pginas seguintes acerca do S.I.S. e, na devida altura, surgir uma 
imagem geral, mas mais compreensiva, das suas actividades. Nesta altura  unicamente 
necessrio fazer um pequemo resumo da sua estrutura e modo de agir para ajudar o leitor a 
perceber a minha histria desde o princpio. Se o gnio britnico tem uma tendncia para a 
improvisao, ento o S.I.S.  o seu verdadeiro espelho. A organizao  como uma casa 
antiga cujo plano original ainda  visvel apesar do seu crescimento normal ter sido 
impedido por adies subsequentes.

O S. I. S.  o nico servio britnico que  autorizado a recolher informaes secretas de 
pases estrangeiros por meios ilegais. O seu monoplio a este respeito  muitas vezes 
infringido pelos amadores entusisticos. Mas, quando estas infraces so conhecidas, 
originam, na melhor das hipteses, uma correspondncia azeda entre os departamentos em 
causa e, no pior, confrontaes srias em Whitehall. As palavras por meios ilegais 
distinguem o servio secreto de outros departamentos

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que recolhem notcias, tais como o Foreign Office e a imprensa, apesar de algumas naes 
no quererem reconhecer esta distino subtil e por vezes ilusria. Por isso, sei por 
experincia pessoal que, no Mdio Oriente, os jornalistas so confundidos com espies  
muitas vezes com razo. Apesar disso a distino  real, se bem que, na prtica, muitas 
vezes no se d por ela. Apenas o S.I.S. recebe fundos secretos pelos quais no  
responsvel em pormenor, para conseguir informaes de pases estrangeiros que no se 
podem obter por meios vulgares e legais. 

A base de actividade do S.I.S.  a rede de agentes, quase sempre de nacionalidade 
estrangeira. Estes agentes trabalham, directa ou indirectamente, sob o controle 
de uma seco S.I.S. conhecida pelo nome de estao, instalada na Embaixada britnica e 
protegida assim da aco das autoridades locais e pela iseno diplomtica. Os seus motivos 
para trabalharem como espies so vrios, indo desde o herosmo  imundcie. A grande 
maioria dos agentes recebe dinheiro pelo trabalho que executa, apesar de no ser bem 
remunerado. Em geral o S. I. S. prefere ter agentes pagos porque o facto de aceitarem 
dinheiro torna-os dceis e obedientes. O agente no pago sente-se com o direito de agir 
independentemente e pode vir a mostrar-se muito incmodo. Certamente que tem os seus 
prprios interesses polticos e a sua sinceridade  muitas vezes a culpada das dificuldades 
que pode causar. Foi o que os Vermehrens, o casal alemo que desertou para os Ingleses 
em Istambul, durante a guerra, e acerca do qual um oficial do S.I.S. comentou, desgostoso: 
So to conscienciosos que nunca se sabe o que vo fazer a seguir.

As informaes colhidas pelos agentes so encaminhadas, directamente ou atravs de meios 
indirectos, para a estao local do S.I.S. responsvel pela sua recepo. A so examinadas 
preliminarmente, quanto ao seu valor e exactido, pelos agentes do S.I.S. disfarados de 
diplomatas. Se a informao for considerada de interesse  transmitida, com comentrios 
apropriados, ao quartel-

* A ltima quantia de que tive conhecimento para 1966/67, foram dez milhes de libras  o qudruplo do que recebia no fim da guerra.

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-general em Londres. A transmisso  feita, normalmente, por servios de comunicaes 
estrangeiros, rdio ou mala diplomtica, de acordo com o grau de urgncia. Na poca a que 
me estou a referir ainda se usava muito o disfarce, utilizado antes da guerra, de colocar o 
chefe local do S.I.S. como funcionrio do controle de passaportes, apesar de 
ser um truque j bastante conhecido. A vantagem consistia em que quem desempenhasse 
esse cargo estava legalmente autorizado a observar os ficheiros das pessoas que pediam 
vistos, e esta espcie de inqurito era bastante til. A nica desvantagem  que o disfarce j 
se tornara conhecido. Num captulo posterior tratarei de disfarces mais recentes.

A estrutura do quartel-general em Londres estava baseada numa diviso de 
responsabilidades para a obteno e classificao de informaes. Aquele que as conseguia 
tinha de submet-las a um exame minucioso e imparcial antes de elas serem enviadas para 
os departamentos governamentais. De acordo com este princpio, o quartel-general estava 
dividido em dois grupos de seces, conhecidas respectivamente por Seces G e Seces 
de Circulao. As Seces G administravam as estaes ultramarinas e superintendiam as 
suas operaes. Cada uma tinha sob a sua responsabilidade uma regio; uma geria Espanha 
e Portugal, outra o Mdio Oriente, uma terceira o Oriente, etc. As Seces de Circulao 
recebiam as informaes e remetiam-nas para os departamentos governamentais 
interessados; depois enviavam para as Seces G a opinio desses departamentos, 
juntamente com a sua. As Seces de Circulao estavam divididas no regionalmente, mas 
de acordo com os diferentes assuntos, quer se tratasse de informaes polticas, militares, 
navais, econmicas e / ou de outras quaisquer espcies.

A Seco V, a que fiquei ligado, estava numa posio peculiar em mais que um aspecto. 
Nominalmente, era uma Seco de Circulao e o assunto de que tratava era contra-
espionagem. Mas enquanto as outras Seces de Circulao tratavam com departamentos 
autorizados do Governo, tais como o Foreign Office, o Ministrio da Marinha, etc., cujo 
conhecimento de operaes secretas

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era marginal, o principal cliente da Seco V era tambm uma organizao secreta: o M. 
I. 5. Poder-se-ia pensar que isto conduziria a uma maior compreenso mtua e cooperao. 
Na verdade, o oposto  que era verdadeiro e s quase no fim da guerra  que se atingiu 
uma harmonia razovel entre as duas organizaes. Esta situao desagradvel era 
parcialmente devida a factores pessoais, agravados pelo fog, para no falar da histeria 
da guerra. Mas era tambm devida a diferenas bsicas de opinio acerca da linha de 
demarcao jurisdicional entre as duas organizaes. O M. I. 5 argumentava que a contra-
espionagem era indivisvel e que lhe deveriam ser transmitidas todas as informaes sobre o 
assunto que a Seco V possusse. Cowgill, falando pela Seco V, rejeitava este ponto de 
vista, mantendo que o M. I. 5 s tinha direito s informaes que estivessem directamente 
relacionadas com a segurana do territrio britnico, estando implcito que ele era o nico 
juiz da importncia das informaes para a segurana britnica. Objectava, aparentemente 
com toda a sinceridade, que o M. I. 5 planeava instituir a sua prpria organizao de contra-
espionagem em territrio estrangeiro, enquanto o M.I.5, por sua vez, suspeitava de que 
Cowgill lhes escondia informaes essenciais sob o pretexto de salvaguardar a segurana 
das fontes do S.I.S. Estas lutas colocar-me-iam numa srie de situaes difceis porque as 
minhas simpatias, nesta discusso, inclinavam-se para o M. I. 5. A fim de evitar problemas 
inteis, muitas das comunicaes feitas mais tarde ao M. I. 5 tiveram de ser verbais.  parte 
esta situao difcil, surgiu ainda uma segunda peculiaridade da Seco V. No princpio da 
guerra, os pedidos dos departamentos oficiais ao S.I.S. eram urgentes e irrecusveis. Como 
veremos, tambm pessoas com poder dentro do S.I.S. consideravam as informaes de 
carcter militar, e apenas essas, como a nica forma sria de espionagem em tempo de 
guerra. Em resultado destas presses, os antros do S.I.S. no estrangeiro dedicavam-se cada 
vez mais a arranjar exclusivamente informaes necessrias s foras armadas, tais como 
movimentos de tropas, concentraes navais, potencial areo, armamento, etc. A contra-
espionagem morria 

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mngua de recursos, e o M. I. 5 tinha razo em se queixar, no s de que a Seco V lhe 
escondia informaes, como tambm de que o S.I.S. no estava a produzir nada. Isto era 
uma acusao que Cowgill no podia ignorar; sentia o mesmo. Mas no era suficientemente 
forte para obrigar o S.I.S. a fazer divergir os seus recursos, aplicando-os s necessidades da 
contra-espionagem. Preferia enredar a organizao existente, ligando agentes seus s 
estaes ultramarinas. Nominalmente, esses agentes encontravam-se sob a administrao 
geral e o controle das Seces G, mas a maior parte destas estava demasiado 
ocupada para lhes prestar ateno e as instrues do dia-a-dia vinham-lhes assim 
directamente da Seco V. Por exemplo, o agente G encarregado da Espanha e de Portugal 
era um certo Fenwick, que viera para o S.I.S. directamente da indstria de petrleos. 
Concordou, resmungando, na colocao de especialistas de contra-espionagem em Madrid, 
Lisboa, Gibraltar e Tnger, e dentro de algumas semanas tinha-se, praticamente, esquecido 
deles. Por isso, tudo corria pelo melhor, desde que eu lhe fizesse uma visita de cortesia de 
vez em quando e (nas suas prprias palavras) comesse com ele uma costeleta. O 
resultado desta medida foi que a Seco V, apesar de, nominalmente, continuar a ser uma 
Seco de Circulao, adquiriu algumas das funes de uma Seco G. Tornou-se numa 
organizao hbrida, olhada com incompreenso e suspeita pelo resto do S.I.S. A posio 
agradava a Cowgill. Permitia-lhe defender que a contra-espionagem era uma arte esotrica, 
que necessitava de uma prudncia que nem todos os agentes dos servios possuam. 
Conseguiu assim uma certa imunidade crtica dentro do S.I.S. Infelizmente, no podia 
esperar a mesma atitude da parte do M. I. 5.

Apesar de eu ter dito que o S.I.S. era a nica organizao britnica autorizada a colher 
informaes secretas por meios ilegais, no se pode concluir que s ela as obtenha. 
Interceptando sinais telegrficos  possvel colher enormes quantidades de informaes 
confidenciais sem quebrar nenhuma lei nacional ou internacional. Antes de conseguirmos 
l-las, as mensagens telegrficas tm de ser decifradas. Durante o tempo de guerra isto

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costumava ser feito, em Inglaterra, pela chamada Government Code & Cypher School 
(Escola de Cdigo e de Cifra l do Governo), em Bletchley. Muito do trabalho feito por eles 
era brilhantemente bem sucedido. Deixo a opinies mais abalizadas deduzir tudo o que se 
poderia ter feito se as disputas dentro da citada escola tivessem sido reduzidas a propores 
normais. (Pode dizer-se o mesmo da maior parte dos departamentos do Governo, para no 
falar nas universidades, em tempo de paz.)

Resumindo em poucas palavras, a Seco V no mundo das informaes, como parte do 
S.I.S., era responsvel pela recolha de informaes obtidas pela contra-espionagem nos 
pases estrangeiros por meios ilegais. O departamento que estava mais interessado nas suas 
informaes era o M. I. 5, responsvel pela segurana do territrio britnico, e que. 
portanto, necessitava do maior nmero possvel de informaes prvias quanto a tentativas 
do estrangeiro para entrar no conhecimento dos segredos britnicos. Parte do trabalho da 
Seco V tambm interessava a outros departamentos. Por exemplo, o Foreign Office 
pretendia ser informado directamente das facilidades oferecidas pelos Governos neutros ao 
servio secreto alemo. Os esforos da Seco V eram, a princpio, coadjuvados pelo Radio 
Security Service, que interceptava sinais inimigos, e pela Government Code & Cypher 
School, que os interpretava. Pouco depois de a guerra ter comeado, estes papis 
inverteram-se. As investigaes da Seco V no estrangeiro eram destinadas, sobretudo, a 
preencher as falhas do quadro extraordinariamente compreensvel conseguido atravs da 
decifrao dos sinais.

 agora altura de nos voltarmos para as personalidades que lhe estavam ligadas, muitas das 
quais tero um lugar importante na continuao da minha histria. Como j disse, o chefe da 
Seco V era Felix Cowgill. Viera da polcia indiana para o S.I.S. pouco antes da guerra e j 
se tinha distinguido. Os seus dotes intelectuais eram poucos. Como oficial de informaes 
do servio secreto estava diminudo por falta de imaginao, falta de ateno ao pormenor e 
completa ignorncia do mundo em que lutvamos. A sua qualidade mais positiva, alm de 
um encanto pessoal que lhe advinha da sua simplicidade,

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era uma capacidade de trabalho infernal. Todas as noites levava para casa pastas a abarrotar e trabalhava at 
de madrugada. Nas noites de sexta-feira, era um hbito estabelecido: estava a p toda a noite. De manh 
estava cansado, mas era capaz de presidir a uma conferncia dos chefes da sua subseco e de fumar uma 
srie de cachimbadas. Defendia o seu pessoal muito para alm do que a lealdade poderia pedir, e fazia com 
que muitos ficassem, mesmo depois de ter sido comprovada a sua preguia ou incompetncia. Perante o 
mundo exterior, suspeitava e tomava atitudes defensivas perante tudo, sempre pronto a ver tentativas para 
diminuir o seu campo de aco ou a sua autoridade. Quando entrei para a Seco V j ele estava nas piores 
relaes possveis no s com o M. I. 5, como com o Radio Security Service, a Government Code & Cypher 
School e tambm muitas outras seces do S.I.S. Glenalmond, a casa de St. Albans onde a Seco V instalara o 
seu quartel-general, parecia um ourio-cacheiro; Cowgill gostava do seu isolamento. Era uma daquelas almas 
puras que denunciavam todos os que se lhe opunham como polticos. Infelizmente, Cowgill estava sozinho 
contra um grupo formidvel de crebros. Muitas das nossas discusses com a Government Code & Cypher 
School acerca das informaes alems conseguidas atravs da rdio eram com Page e Palmer, duas figuras 
bem conhecidas em Oxford. O Radio Security Service, por seu lado, apresentava uma combinao oxoniana 
mais formidvel ainda constituda por Trevor-Roper, Gilbert Ryle, Stuart Hampshire e Charles Stuart. Tinha 
de enfrentar outro oxoniano, Herbert Hart, no M. I. 5, apesar de aqui Cambridge tambm estar presente com 
Victor Rothschild, o perito de anti-sabotagem do M. I. 5. Todos estes homens ultrapassavam Cowgill em 
inteligncia e alguns deles podiam-se-lhe comparar em combatividade. Trevor-Roper, por exemplo, nunca 
foi um acadmico submisso; e  absolutamente comprovativo de Cowgill viver noutro mundo o facto de uma 
vez ter ameaado Trevor-Roper com o Conselho de Guerra.  um tributo prestado a Cowgill dizer que ele 
lutou contra esta combinao durante cerca de cinco anos sem perceber que a luta era

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desesperada. Muitas vezes, furioso, denunciava este ou aquele colega, e depois murmurava 
suavemente, com um ar de triunfo, e agora vamos continuar a lutar contra os 
Alemes.

O principal ponto de partida destas batalhas era o controle do material 
resultante da intercepo de informaes secretas alems. Quando a questo surgiu pela 
primeira vez, o chefe do S.I.S. dera o controle ao chefe da Seco V. Havia 
muito que dizer da sua administrao, mas que eu saiba, ela nunca foi seriamente disputada. 
O que se discutiu foi a maneira como Cowgill exercia esse controle. 
Percebeu imediatamente que lhe tinham dado um trunfo e desde o princpio guardou-o 
ciosamente, chegando ao ponto de reter informaes que deveriam ser postas a circular. Os 
seus inimigos consideravam-no culpado de prticas restritivas muito srias, enquanto ele os 
inculpava, pelo menos potencialmente, de no se preocuparem com a segurana da fonte 
que dera a informao. O director assistente da Diviso de Informaes do M. I. 5, Dick 
White, depois de um desentendimento com Cowgill, dizia ter tido um pesadelo em que o 
material em referncia estava  venda nas agncias de notcias.

As relaes de Cowgill com o resto do S.I.S. originavam problemas de ordem diferente. 
Aqui no o censuravam pelo demasiado interesse que punha em todas as suas aces, 
apenas no lhe ligavam nenhuma. Durante a guerra as informaes militares absorviam a 
maior parte das energias do S.I.S. A contra-espionagem, que dava mais importncia  
defesa, estava reduzida a uma autntica Cinderela. Isto acontecia devido, sobretudo,  
influncia de Claude Dansey, que era ento assistente-chefe do servio secreto. Era um 
senhor idoso, de viso austeramente limitada, que considerava a contra-espionagem intil 
em tempo de guerra e no perdia nenhuma oportunidade de o dizer. A sua especialidade 
era os seus famosos ataques de clera, que originavam ressentimentos inteis.

A causa da contra-espionagem deveria ter sido defendida nessa altura por Valentine Vivian, 
que era chefe adjunto do servio secreto. Tinha sido anteriormente

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polcia na ndia e fora chefe da Seco V antes da guerra. Mas Vivian h muito tempo que 
passara a sua melhor forma  se alguma vez a tivera. Era uma fraca figura, ondas muito bem 
marcadas no cabelo e olhos hmidos. Escutava servilmente os clebres ataques de clera de 
Dansey e abanava a cabea tristemente perante as suas derrotas, que eram frequentes. 
Pouco antes de eu ter entrado para a Seco V, Cowgill tinha ofendido Vivian, fazendo 
poucos esforos para esconder o seu desprezo por ele. No foi graas a Vivian que Cowgill 
ganhou finalmente a batalha para conseguir atribuies mais latas para a Seco V, o que fez 
irritar ainda mais Vivian. Pode parecer que os sentimentos de um homem to pouco 
eficiente no tm razo de ser mencionados num livro deste gnero. Mas, mais tarde, iriam 
ter uma influncia enorme na minha carreira.

Passou mais de um ano antes que eu fosse afectado por estas rivalidades de alto nvel. A 
minha primeira obrigao era fazer o meu servio e, ao mesmo tempo, familiarizar-me com 
ele. Recebi ajudas preciosas dos meus superiores, e em breve fiquei a dever muito  minha 
secretria-chefe, uma rapariga com experincia que pertencia ao servio j antes da guerra 
e que, apesar de ser uma doente crnica, me impediu de cair nas piores armadilhas. O 
volume de trabalho era monstruoso. Em resultado do aumento do quadro, ramos agora seis 
na Subseco Ibrica a fazer o trabalho que anteriormente era feito por dois e no admira 
que um deles se tivesse suicidado. Ainda andvamos afogados em correio. Claro que se tem 
de dar um desconto  Lei de Parkinson; mesmo assim, como muitos dos meus colegas, s 
conseguia acompanhar o ritmo dos montes que chegavam levando para casa, todas as 
noites, uma pasta bem cheia. Diariamente chegavam telegramas de Madrid, Tnger e 
Lisboa. Recebamos chuvas de minutas de outras seces do S.I.S. e de cartas do M. 1.5 e, 
uma vez por semana, sacos enormes e desanimadores da Pennsula, onde os nossos agentes 
ainda se debatiam nas trevas. Por cada pista que dava alguns resultados, havia uma dezena 
que no conduzia a nada.

Debati-me, logo a princpio, com uma destas falsas

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pistas. Um agente do S.I.S. em Madrid roubou o dirio de um certo Alcazar de Velasco, um 
falangista particularmente asqueroso do Ministrio da Imprensa Espanhola, que visitara a 
Inglaterra h um ou dois meses. O dirio afirmava explicitamente que ele recrutara uma 
rede de agentes para o Abwehr; e dava em pormenor nomes, moradas e funes. S depois 
de perdermos muitas semanas de trabalho chegmos  concluso correcta, isto , que o 
dirio, apesar de ser, sem dvida, produto do trabalho do prprio Alcazar de Velasco, era 
uma fraude do princpio ao fim, e tinha sido redigido unicamente com o fim de arrancar 
dinheiro aos Alemes.

Apesar disso, o roubo no foi totalmente intil. H muito tempo que suspeitvamos que Lus 
Calvo, um jornalista espanhol que trabalhava em Londres, passava para Espanha 
informaes que podiam confortar, e talvez ajudar o inimigo. O facto de o seu nome 
aparecer no dirio entre os recrutados para a rede de Alcazar de Velasco, sugeria um meio 
prometedor de extrair uma confisso, apesar de pensarmos que o ponto de partida era falso. 
Assim, Calvo foi preso e levado para o duro centro de interrogaes de Ham Common. 
No ousaram violncias fsicas para o fazerem quebrar. Unicamente o despiram 
completamente e o levaram  presena do comandante do centro, um homem de monculo, 
com tipo prussiano, chamado Stephens, que sublinhava as perguntas batendo com um basto 
nas suas botas de montar. Tnhamos dado o devido valor  coragem de Calvo. Aterrado pela 
traio do seu compatriota e tambm, com certeza, pela vara, disse o suficiente acerca da 
sua actividade para lhe garantir priso perptua. Outro resultado positivo do famoso dirio 
foi devido ao facto de ele mencionar Bragada, o adido de imprensa espanhol em Londres, 
em termos comprometedores. Brugada era a ltima pessoa a querer um escndalo, e 
mostrou-se satisfatoriamente cooperativo quando o M. I. 5 sugeriu delicadamente que o 
dirio podia fornecer ao Foreign Office um pretexto plausvel para o declarar 
persona non grata. Na realidade, no prestou grandes servios ao 
M. I. 5; mas deu suficientes informaes acerca de espanhis que estavam

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de visita, para lhe merecer um nome no cdigo: hortel-pimenta.

Obtivemos um sucesso mais espectacular pouco depois, apesar de eu ter violado todas as 
regras para o conseguir e de arranjar uma trapalhada horrvel, que s se resolveu depois da 
guerra. Recebemos um telegrama interceptado, revelando que o Abwehr ia mandar dois 
agentes para a Amrica do Sul no barco espanhol Cabo de Hornos. 
com uma falta de cuidado freqente nas suas comunicaes, o Abwehr fornecia os seus 
nomes completos. Um era um certo Leopold Hirsch, que viajava com a mulher e a sogra, e 
o outro Gilinski. Pouco depois de eles terem embarcado interceptmos uma segunda 
mensagem mais misteriosa, vinda da estao alem em Bilbau, confirmando que Hirsch e os 
companheiros ORKI estavam prontos para partir. A palavra ORKI era muito intrigante. 
O que poderia ser seno uma organizao de comunistas revolucionrios internacionais 
algum grupo afastado de trotskistas apadrinhados pelos alemes para confundirem os nossos 
aliados russos? Observmos por isso toda a lista de passageiros nos nossos arquivos e 
encontrmos pelo menos uma dezena cujas carreiras sugeriam possveis ligaes com o 
comunismo dissidente. Destes, talvez metade pareciam ser suficientemente cretinos para se 
meterem nas intrigas do Abwehr.

De acordo com isso, depois de consultar Cowgill, mandei um telegrama para o oficial de 
segurana em Trindade, onde o barco devia fazer escala, dando-lhe instrues para prender 
a famlia Hirsch, Gilinski e algumas outras. No tinha poderes para mandar efectuar esta 
priso ou qualquer outra. O procedimento teria sido comunicar o caso ao M. I. 5; este, por 
sua vez, transmiti-lo-ia ao Colonial Office, que enviaria uma ordem sujeita a objeco ao 
governador de Trindade; este, ento encarregaria o oficial de Segurana de tratar do 
assunto. Felizmente que este oficial era um homem enrgico e cumpriu as minhas ordens 
sem fazer qualquer pergunta. E a sorte continuava a acompanhar-nos; Hirsch confessou 
prontamente, dizendo, com veracidade quase absoluta, que no tivera qualquer inteno de 
cumprir a misso, mas que a aceitara simplesmente para

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sair da Europa. Na euforia criada por este triunfo fomos levados a esquecer que o resto 
dos homens detidos podiam no admitir alguma coisa que se parecesse remotamente com 
espionagem. Mas uma busca nas bagagens deles demonstrou que todos levavam 
contrabando em menor ou maior quantidade, e assim tnhamos motivos legais mnimos para 
os deter, em caso de necessidade.

A soluo do mistrio s surgiu um ano mais tarde. O agente da minha subseco 
responsvel pelo material interceptado teve, de repente, uma ideia. Telefonicamente falou 
com Palmer, da Government Code & Cypher School, e pediu-lhe que analisasse a 
mensagem interceptada de Bilbau. ORKi poderia ser uma interpretao errada de 
drei? Palmer respondeu da a pouco tempo. Sim, era com certeza drei; na 
verdade no podia perceber como  que os criptgrafos tinham escrito ORKI. Assim, em 
vez de Hirsch e dos seus companheiros ORKI, tnhamos Hirsch e os seus trs 
companheiros, isto , a mulher, a sogra e Gilinki. Quando o Governo britnico analisando os 
protestos dos outros por priso sem motivo, eu j estava longe do problema, tentando 
penetrar na Unio Sovitica e nos estados balcnicos, a partir da minha confortvel base de 
Istambul.

At agora s falei da intercepo de comunicaes telegrficas. Mas havia muitas outras 
formas de intercepo que, apesar de serem menos produtivas sob o ponto de vista de 
espionagem, tambm tinham a sua utilidade. Existia a censura postal, que descobriu dois ou 
trs casos de interesse, mas talvez menos do que se esperava. Havia tambm tcnicas 
aperfeioadas de abrir malas diplomticas estrangeiras. Este mtodo no podia ser usado 
directamente contra o inimigo, porque as malas alems e italianas no passavam pelos 
territrios britnicos. Mas as malas dos estados neutros e dos aliados secundrios, como os 
Polacos e os Checos, j eram qualquer coisa. Estas operaes envolviam vrios processos 
complexos.

Primeiro, o correio tinha de ser persuadido, por qualquer meio, a deixar a mala sob custdia 
britnica. Isto no era to difcil como parece, devido aos sistemas de correio inadequados 
empregues por muitos estados

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e  indisciplina dos prprios correios. Durante o perodo em que a Inglaterra esteve isolada 
do continente, todas as malas diplomticas eram transportadas de avio. Todos os dias 
ocorriam atrasos nas partidas dos aparelhos e era fcil arranjar um motivo de atraso mesmo 
quando as condies de vo eram favorveis. Ao chegar ao aeroporto, o correio via-se 
perante um boletim meteorolgico desfavorvel ou ento pretextava-se qualquer defeito 
tcnico no aparelho, o que o obrigava a uma espera indefinida. Assim, tinha de escolher 
entre sentar-se no hall do aeroporto, sobre a sua mala, ou ir at  cidade mais 
prxima e sofrer os rigores de uma cama de um hotel de provncia. Nestas circunstncias, 
era uma cortesia da parte do oficial de segurana do aeroporto oferecer ao correio perplexo 
a hospitalidade do seu cofre. Pode mesmo assistir e ver-me fech-lo, meu velho. Fica bem 
guardado at voc voltar. Um nmero surpreendente de correios caa no logro e ia, sem 
preocupaes, observar os talentos locais  que o oficial de segurana, a seu pedido, lhe 
indicava com agrado.

Logo que o correio deixava o caminho livre, o oficial de segurana informava os peritos, 
que estavam  espera, e punha o saco ou sacos  sua disposio. Estudavam com grande 
cuidado cada saco e o seu contedo antes de o abrir: os ns e os selos eram medidos, 
copiados e fotografados; quando era necessrio faziam-se tambm exames qumicos. Depois 
desatavam-se os ns, quebravam-se os selos, extraa-se e fotografava-se o seu contedo. 
Por fim, o mais difcil de tudo era repor todo o contedo exactamente como tinha sido 
encontrado, com uma reproduo infinitesimalmente exacta dos ns e dos selos originais. 
Aos Russos no se aplicava este tratamento, em parte porque as suas malas vinham 
invariavelmente acompanhadas por dois correios, um dos quais estava sempre de servio, e 
tambm porque se dizia que continham bombas para afastar os curiosos. Mas a 
correspondncia diplomtica dos estados sul-americanos, dos Espanhis e Portugueses, dos 
Checos, Polacos, Gregos, Jugoslavos e muitos outros era regularmente sujeita a exame. 
Apesar de haver um cuidado extremo, aconteciam, por vezes, acidentes. Em certa ocasio

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os selos vermelhos de uma mala polaca ficaram cor de prpura depois de lhes ser aplicado o 
tratamento qumico e no se conseguiu faz-los voltar  sua cor primitiva. Informmos os 
Polacos, com muitas desculpas, de que a mala em questo se tinha perdido. Esta feliz 
concluso s foi possvel devido ao facto de os Polacos, segundo o seu costume, terem 
confiado a mala aos ingleses para que estes a entregassem  possivelmente porque o seu 
contedo era de pouca importncia. O problema seria bem mais difcil de resolver se ela 
fosse transportada por um correio polaco.

Em princpios de 1942 a intercepo de telegramas do Abwehr, rara no princpio da guerra, 
transformara-se numa ptima fonte de informaes. Isto era devido, sobretudo, ao trabalho 
de Dilly Knox, que conseguira penetrar os segredos do cdigo cifrado usado pelo Abwehr. 
Este sistema de escuta fornecera imagens fascinantes da vida ntima dos agentes do servio 
secreto alemo. Havia, por exemplo, o caso de Axel, o co-polcia alemo. Tinha sido 
mandado de Berlim para Algeciras, possivelmente para guardar o posto do Abweher dos 
agentes britnicos, que l se podiam introduzir, vindos de Gibraltar, atravs da baa. Na 
ltima parte da viagem, Madrid mandou um telegrama a avisar Albert Carbe, alis Csar, o 
chefe do posto do Abwehr em Algeciras: Cuidado com Axel. Morde. Dai a uns dias 
Algeciras respondeu com esta informao lacnica: Csar est no hospital Axel mordeu-
o.

Pouco antes tnhamos conseguido informao muito completa acerca da rede do Abwehr na 
Pennsula. Sabamos os nomes, pseudnimos, moradas, disfarces e funes reais da maior 
parte do pessoal do quartel-general de Madrid e de muitos postos como Barcelona, Bilbau, 
Vigo, Algeciras, etc. Quando as nossas informaes eram j muito completas, ocorreu um 
incidente perfeitamente de loucura, que mostra os perigos de existirem duas organizaes 
diferentes a trabalharem na mesma rea e em idntico assunto. J disse que havia 
excepes  regra de que os adidos colocados nas Embaixadas britnicas no estrangeiro no 
trabalhavam para o servio secreto. Uma das excepes era o capito

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Hillgarth, R. N., adido naval em Espanha. Havia uma combinao, facilitada porque 
Hillgarth tinha um entendimento pessoal com Churchill, por meio do qual aquele oficial 
possua fundos secretos para actividades de espionagem. Uma condio imposta para que 
esta combinao vigorasse era que Hillgarth apenas contactaria com o S. I. S. por intermdio 
do chefe deste departamento. A principal razo para isto era a segurana; as fontes de 
Hillgarth deviam ser particularmente sacrossantas. Mas esta condio serviu para aumentar 
as iluses de grandeza do galante oficial. Como pseudnimo para a correspondncia com o 
chefe escolheu  Armada - pronto!

Um dia Cowgill pediu-me que combinasse um encontro com o chefe para discutir uma 
comunicao importante de Armada. Era acerca dos Alemes em Espanha. Nessa altura 
raramente via o chefe, e ficava envergonhado na sua presena, como ele ficava na minha. 
Mas achei-o com muito boa disposio. Tinha entrado nos meus domnios, disse ele; estava 
a fazer contra-espionagem em Espanha. Dera autorizao  Armada para comprar por 
uma grande quantia pormenores sobre os principais agentes do Abwehr em Espanha. 
Haviam recebido agora esses pormenores, e entregou-me um telegrama, infelizmente muito 
curto, contendo cerca de uma dzia de nomes e algumas referncias a cada um. Gustav 
Lenz, chefe da organizao; Nans Gude, encarregado das informaes navais, etc. Eu 
observei, sem muito tacto, que at ali as informaes estavam certas. O chefe levantou as 
sobrancelhas. Como sabia que eram verdadeiras ? Porque estvamos a par de tudo. Que 
sabamos alm disso? Bastante mais. Porque no se informara? Fazamos mensalmente um 
relatrio dos nossos progressos e mandvamos uma cpia ao chefe. Nesta altura ele 
mostrou-se realmente a pessoa simptica que era. Meu caro Philby, disse ele com o seu 
sorriso caracterstico, que desaparecia logo que surgia, no espera, com certeza que leia 
tudo o que me pem em cima da secretria! Concordmos que devamos pedir mais 
informaes  Armada, mas claro que no veio mais nada. O que me exasperou foi que 
descobri da a

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pouco tempo quem era essa fonte preciosa  um oficial de alta patente da Direccin General 
de Seguridad e soube que o seu preo devia ser realmente muito alto. Em contrapartida, eu 
tinha de lutar para arranjar umas cinco libras extras por ms para agentes que forneciam 
informaes regulares, apesar de serem talvez menos espectaculares!

 certo que obter informaes constitui um problema, mas export-las  igualmente 
importante, e talvez mais difcil. Deter agentes inimigos quando chegam a territrio britnico 
est muito certo e  muito til. Mas como se havia de fazer uma anlise conscienciosa do 
servio secreto alemo na Pennsula Ibrica, como um todo, e da organizao de que 
emanava? Gradualmente, comeou a nascer em mim a ideia de que para conseguirmos 
analisar claramente a situao precisvamos de agir com mais imaginao. No chegava 
avisar simplesmente o M. I. 5 da prxima chegada a Inglaterra de agentes do Abwehr ou 
capturar ocasionalmente agentes inimigos em Trindade. Deveria ser possvel usarmos 
realmente as nossas informaes para destruir, ou pelo menos dificultar seriamente, a 
actividade do inimigo no campo escolhido, em Espanha.

Estes pensamentos foram tomando forma devido  gradual acumulao de informaes que 
nos faziam crer que os Alemes estavam a pensar numa operao em Espanha, a qual 
envolvia o uso de inventos tcnicos avanados. O nome do cdigo dado  operao pelo 
Abwehr era Bodden. Bodden  o nome de uma estreita faixa de gua que separa a ilha 
de Ruegen do continente alemo, no longe do centro de pesquisas cientficas militares de 
Peenemnde. Isto junto a outras provas de que os peritos de Bodden, com os seus 
instrumentos, pareciam concentrar-se em Algeciras surgiu-nos como uma indicao 
suficientemente clara de que preparavam alguma coisa que afectaria o estreito de Gibraltar. 
Consultmos por isso o competente Dr. Jones, chefe da Seco Cientfica do S.I.S., que 
estudou as provas e disse muito confidencialmente que tudo indicava que os Alemes iam 
instalar um aparelho para detectar a passagem de barcos atravs do estreito durante a noite.

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Como isto criaria dificuldades  nossa rota de abastecimentos do Mediterrneo Ocidental, 
achei que era a altura de fazer uma sugesto destinada a assustar o Abwehr em Espanha.

J considerara e pusera de parte a possibilidade de colocar o S.O.E. contra os Alemes em 
Espanha. Mesmo que eles tivessem recursos para uma total operao duvidava que algum 
do nosso lado visse com bons olhos uma espcie de James Bond em Espanha, onde as 
autoridades eram contra ns. Reflectindo, parecia que uma tentativa diplomtica seria o 
melhor. Tnhamos um pretexto legtimo contra o Governo espanhol por permitir plena 
liberdade aos servios alemes no pas e parecia-nos natural um protesto baseado em provas 
pormenorizadas e comprovadas. Estava pouco esperanado de que o general Franco fizesse 
qualquer coisa contra o seus amigos Alemes, mas no tinha qualquer dvida de que os 
avisaria amigavelmente que haviam sido descobertos. Veio-me ao pensamento o general 
Westmacott, director de Extraordinary Intelligence em Water on the 
Brain, de Compton Mackenzie, e das suas palavras: No fundo, o essencial para o 
servio secreto  que seja secreto. Era uma boa suposio pensar que Gustav Lenz, chefe 
do Abwehr em Espanha, ficaria severamente abalado se mostrssemos que os seus segredos 
eram conhecidos.

O primeiro passo era convencer Cowgill de que a operao valia a pena e era vivel. A 
nossa actuao escrita tinha de basear-se sobretudo em informaes conseguidas atravs de 
comunicaes de rdio, que ele gostava de guardar ciosamente, mesmo perante outras 
organizaes secretas britnicas. Apesar disso, o fim de toda a minha proposta era que o 
documento devia ser apresentado a um Governo espanhol que nos era hostil na esperana 
de que o mostrassem aos Alemes. Para meu grande alvio, Cowgill reagiu favoravelmente. 
Levou o meu esboo, no qual me esforara por esconder a origem das informaes, ao 
chefe, que tambm o aprovou. Nessa altura, felizmente, o agente de ligao do Foreign 
Office com o S.I.S. era Peter Loxley, que era to decidido quanto simptico, e que deu ao 
projecto o seu entusistico

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  mas era muito mais cauteloso que o seu colega de Espnha e seguia uma linha mais 
neutra. com medo dfi rturba a frma de aco equilibrada de Salazar, o RjPj.gjgn Qffi06 
nao <ueria agif de uma forma demasiado  ca ciue  levasse a quebrar a barreira, pois 
podia Perfeitmente inclinar-se para o lado que no nos convinha Tambm tnhamos 
preocupaes, embora mais reduzidas, & respeito do servio secreto. Sabamos
1.e muitos funcionrios portugueses recebiam dinheiro dos Alemess e nosso. Era-lhes 
naturalmente impossvel av^riguar q^ue lado dava mais vantagens, se algum Cimente s 
dava, no meio de toda esta confuso. A ltima cosa que queramos era que esses 
funcionrios viessem ter connosco e nos pedissem essas verbas extraordinrias que podiam 
perder se os seus amigos alemes fossem expulsos.

Em consequncia de tudo isto, o contedo do nosso protesto e a maneira de o apresentar 
foram menos espectaculares que no caso anterior em Espanha. A Embaixada no se 
apresentou uniformizada e em massa a Salazar. Em vez disso, o embaixador britnico, Sir 
Rcmald Cainpbell, tratou do assunto durante uma reunio com o ministro dos Negcios 
Estrangeiros portugus, Sampaio, que mostrou grande diplomacia nas suas respostas. Disse 
que no tinha a certeza de que os Alemes abusassem da neutralidade de Portugal da 
maneira que descrevamos no nosso protesto. Estaramos certos da segurana das nossas 
fronteiras ? Ele prprio encontrava as maiores dificuldades para apreciar os relatrios de 
wmaess secretas- O assunto levantava grandes problemas. por exemplo, fora informado 
de que outras naes se dedicavam tambm a actividades de espionagem ei^  Portugus, 
nada ficando a dever aos Alemes neaf camP- Se o Governo portugus empreendesse 
qu,.cUer ac;:co contra os Alemes, o Governo alemo P^ac m.sist ir Para que se agisse 
do mesmo modo em relao as outras naes. Uma insistncia deste gnero P^resent ^ 
rtugueses num terrvel dilema. Ele, Sampaio, apjaz ari^ sem demora o protesto de Sir 
Ronald a Sav)fess ma*s, falando francamente, duvidava de que o pi T Agisse da forma 
que ns pedamos sem

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examinar cuidadosamente todos os dados do problema. Depois de ter feito este aviso 
inteligente, terminou com uma jia da lgica diplomtica. Porque se imiscuam os 
departamentos militares na espionagem ?, suspirou ele. Se concentrassem todos os seus 
esforos na contra-espionagem, ningum levantaria objeces!

Apesar de o chefe da organizao de contra-espionagem britnica em Lisboa ser um homem 
extraordinariamente hbil e prudente, muitos dos nossos casos portugueses terminavam da 
mesma forma confusa. Citemos, por exemplo, o que se passou com Stilwell, um homem de 
negcios britnico que residia em Portugal h muitos anos. Ouvimos falar no nome dele 
numa altura em que ainda pouco sabamos acerca do servio secreto alemo em Portugal. 
Estvamos por isso predispostos a atribuir aos agentes secretos alemes que identificvamos 
uma importncia muito maior que na realidade tinham. Entre estes havia um certo Weltzien, 
um negociante alemo que ocupava um lugar destacado nas nossas preocupaes. Depois 
de muitas tentativas, conseguimos roubar uma ficha do escritrio de Weltzien.

Parecia que acertramos no alvo. Os lanamentos na ficha demonstravam em termos 
inegveis que Stilwell recebera recentemente e regularmente dinheiro de Weltzien. 
Contudo, o nosso problema no estava de modo algum resolvido. A ficha em si no 
constitua prova; podia ser uma falsificao. Muitos de ns estranhvamos o facto de termos 
acertado imediatamente. Um ano ou dois mais tarde, com mais experincia, teramos 
hesitado durante mais tempo. Mas tnhamos poucos espies e estvamos ansiosos por 
arranjar mais. E, a acrescentar a tudo isto, andvamos to intrigados com o misterioso 
Weltzien que resolvemos correr riscos para sabermos mais qualquer coisa acerca dele. 
Stilwell foi assim convidado a voltar a Inglaterra. Foi preso logo que chegou e interrogado 
na manh seguinte. A sua atitude durante o interrogatrio foi digna e mostrou-se ressentido 
com a nossa atitude. Ao ver a famosa ficha ficou to abalado como qualquer pessoa 
inocente. Soltaram-no, com inmeras desculpas, sem encontrar uma nica prova de 
culpabilidade. Nunca conseguimos esclarecer o assunto

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da ficha, apesar de termos efectuado uma busca ao escritrio de Weltzien com o fim de 
roubar o ficheiro completo. Nunca conseguimos, porm, apanhar Weltzien desprevenido, e 
a busca foi um fiasco to grande como a priso do inocente Stilwell. Recupermos o 
equilbrio dentro de pouco tempo, quando soubemos, depois de conseguirmos informaes 
realmente dignas de crdito, que Weltzien no era uma figura-chave, mas, pelo contrrio, 
desempenhava um papel secundrio.

Antes de deixar de falar de Portugal quero recordar uma obra-prima da arte de interrogar. 
Chegara a Inglaterra uma senhora vinda de Portugal, de quem se sabia que tivera ligaes 
com alguns alemes, incluindo agentes do servio secreto. Como base das nossas suspeitas, 
apenas encontrmos um pequeno dirio cheio de abreviaturas e sinais criptogrficos. O 
inquiridor f-la explicar o dirio, sinal por sinal, mas ela mostrou-se muito sagaz, negando 
energicamente, que qualquer das notas se referisse aos seus conhecimentos alemes. O 
inquiridor, sem se deixar vencer, fez uma ltima e desesperada tentativa. Chamo a sua 
ateno, minha senhora, para a nota que diz: Passei todo o dia s voltas com a minha 
fanny  Depois de uma pausa intencional, perguntou: Ento quem era 
Fanny? At que ponto era sua? E que esteve a fazer com ela? Sob o choque causado por 
esta embaraosa futilidade, a senhora perdeu o controle e confessou tudo. A 
sua histria mostrou que. na verdade, as suas relaes com alemes no Estoril tinham sido 
ntimas, mas no contrrias ao esforo de guerra britnico.

Foi por esta altura que me vi envolvido em srias dificuldades. J disse atrs que o Arquivo 
Central, onde estavam guardados os ficheiros do S.I.S., ficava junto de Glenalmond. Bill 
Woodfield, que era o encarregado desses arquivos, tornara-se meu amigo. Tinham-me dito 
que a cor magenta era a nica que no existia no arco-ris. Se  assim, a cara de Bill estaria 
deslocada no arco-ris. Gostava de gins rosados, predileco de que eu 
compartilhava, e de histrias sujas,

 Em gria inglesa: rgo sexual feminino.

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apesar de disfarar. Costumvamos juntar-nos muitas vezes para discutir a poltica do 
departamento, da qual possua uma longa experincia. Esta amizade dava-me 
compensaes, e eu geralmente conseguia os ficheiros mais rpida e facilmente que a maior 
parte dos meus colegas. Bill dispunha de pouco pessoal e o que tinha estava mal preparado.

No Arquivo Central existia uma srie de ficheiros, aos quais chamvamos os livros-fontes. 
Continham informaes e relatrios dos agentes do S.I.S. que actuavam no estrangeiro. Era 
natural que eu quisesse informaes dos agentes em actividade na Pennsula Ibrica e a 
leitura dos livros-fontes de Espanha e Portugal abriu-me o apetite para mais. Li-os 
atentamente, alargando assim o meu conhecimento da actividade do S.I.S. como um todo. 
Quando chegou a vez do livro-fonte da Unio Sovitica, vi que consistiam em dois 
volumes. Depois de me ter servido deles conforme achei necessrio, devolvi-os ao Arquivo 
da forma usual.

Cerca de uma semana mais tarde Bill telefonou-me a pedir o segundo volume do livro-fonte 
russo. Depois de consultar a minha secretria, voltei a telefonar-lhe dizendo, que, de acordo 
com os nossos arquivos tinha sido devolvido ao Arquivo na data que lhe indiquei. Depois de 
ter feito em vo uma busca no Arquivo, Bill disse-me que eu devia estar enganado e pediu-
me que o procurasse. Eu voltei o escritrio de pernas para o ar sem resultados. Bill e eu 
encontrmo-nos uma ou, duas vezes  noite para discutir o mistrio acompanhando a 
discusso de alguns gins rosados. Ele disse-me que o procedimento normal quando 
se perdia um livro-fonte era comunicar imediatamente ao chefe. Tentei, durante uns dias, 
impedir que ele o fizesse, e a minha apreenso aumentava. Duvidava de que o chefe 
apreciasse o zelo excessivo que me levara ao estudo exaustivo dos livros-fonte, 
especialmente porque disso resultara a perca de um que dizia respeito a um pas muito fora 
do mbito normal das minhas obrigaes.

Pouco tempo depois, tudo se esclareceu. Bill telefonou-me e pediu-me desculpas 
completas e pessoais. Parecia que uma das suas secretrias que tratava dos

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livros-fonte, procurando arranjar espao nas prateleiras, tinha juntado os dois volumes num. 
Depois adoecera com um ataque de gripe e ficara em casa. Logo que voltou ao servio, e 
quando Woodfeld lhe falou no assunto, lembrou-se imediatamente do que fizera. Eu aceitei 
com muito agrado as desculpas e sugeri que nos encontrssemos nessa noite. Assim 
fizemos, e afogmos as recordaes tristes num dilvio de gins rosados. Lembro-me 
de ter pensado durante um momento, do qual me arrependi na manh seguinte, que a 
magenta era a minha cor favorita.

Captulo IV

As complexidades

do servio secreto ingls e aliado

Devido ao gosto de Cowgill por uma atmosfera familiar, havia uma comodidade quase excessiva na vida e no 
trabalho da Seco V. Agentes e secretrias eram tratados pelos nomes prprios logo que chegavam. Parecia 
que, de repente, todo o pessoal ia comear a jogar aos cinco cantinhos. Embora isto, por vezes, se tornasse 
embaraoso, profissionalmente apresentava as suas vantagens. Nunca era difcil saber o que os colegas 
estavam a fazer; o que um sabia tornava-se assim do conhecimento geral. Dava-me tambm grande liberdade 
de movimentos. Cowgill no se preocupava quando ou como o trabalho era feito desde que fosse executado, 
o que j no era pedir pouco, considerando o volume de papis que nos rodeavam por todos os lados. Isto 
significava que eu podia ir a Londres praticamente quando queria, o que me era til para desenvolver 
contactos com outras seces do S.I.S. nos Broadway Buildings, com o M. I. 5 e com outros departamentos do 
Governo interessados no nosso trabalho. Eu habituei-me a ir uma vez por semana a Londres, 
invariavelmente carregado com uma pasta a abarrotar e com uma longa lista de visitas para fazer. Ofereci-me 
tambm para o servio nocturno nos Broadway, que me cabia uma ou duas vezes por ms. Era uma ocupao 
instrutiva, porque, durante apenas uma noite, chegavam telegramas de todas as partes do mundo, dando uma 
nova orientao s operaes do servio.

A Broadway era um edifcio escuro, uma coelheira com divises de madeira e janelas de vidro foscado por 
onde entrava o frio. Tinha oito andares e um elevador

*  Um dos ficheiros que estavam  disposio dos agentes que prestavam   servio   nocturno  era-me  especialmente   til.   Continha telegramas 
do Ministrio da Guerra para a Misso Militar britnica em Moscovo, mandados atravs dos canais do S. I. S. J

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antiquado. Numa das minhas primeiras visitas entrei no elevador ao mesmo tempo que um 
colega a quem o ascensorista tratava com uma deferncia evidente. O desconhecido deitou-
me um olhar de relance e desviou os olhos. Era bem constitudo e estava bem vestido, mas 
o que me impressionou foi a sua palidez: uma cara plida, olhos mortios, cabelo louro-
prateado a escassear no alto da cabea, dando, no todo, uma impresso de contrastes. 
Quando saiu no quarto andar, perguntei ao ascensorista quem ele era. O qu,  o chefe!, 
disse muito surpreendido.

Nessa altura pouco sabia acerca do chefe. Chamava-se Stewart Menzies e tinha a patente 
de coronel. O seu gabinete ficava num quarto andar e os seus artigos de escritrio eram dum 
azul-vivo. Tinha uma letra horrvel e escrevia a tinta verde. Antes de ser chefe, dirigira a 
Seco IV, que tratava de informaes do Exrcito. O seu smbolo oficial era C S S, mas na 
correspondncia entre os Broadway e as estaes ultramarinas podia ser designado por 
quaisquer trs letras sucessivas do alfabeto, ABC, XYZ, etc. Nos crculos do Governo, fora 
do S.I.S., era conhecido por C. A inicial vinha do tempo do capito Cumming, R. N., o 
primeiro chefe do servio secreto na sua forma moderna. Era apenas isto o que eu sabia 
acerca do chefe na altura do nosso primeiro encontro. Como se ver, vim a conhec-lo 
melhor e devo dizer que penso nele com afeio, apesar de, necessariamente, no respeitar 
aquelas qualidades das quais ele se sentia orgulhoso.

Alm de Fenwick, o negociante de leos, agradvel mas pouco eficiente, que superintendia 
nas estaes de Madrid, Lisboa, Tnger e Gibraltar, o seu primeiro contacto nos Broadway 
foi com um dos amigos mais ntimos do chefe, David Boyle. Estava encarregado da 
distribuio de informaes conseguidas atravs das malas diplomticas e de assegurar a sua 
boa transmisso e recepo. Mas, porque era muito amigo do chefe, dizia-se que tinha 
bastante influncia no decorrer das aces. Eu estava j mentalizado para o detestar, porque 
ouvira coisas terrveis a seu respeito; chamavam-lhe o Jesus Adulador. As minhas 
primeiras impresses

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pareciam confirmar tudo o que me fora dito acerca dele. Possua a maioria dos defeitos que 
eu mais detesto; no ser injustia descrev-lo como um snob egosta e pretencioso. 
Apesar disso, tinha uma habilidade especial para cair nas boas graas de membros 
importantes do Foreign Office, o que me surpreendeu bastante, e acabei por admir-lo. Ele 
tambm me interessava devido  sua falta de habilidade para usar as informaes que lhe 
passavam pelas mos e, embora tivesse odobro da minha idade, em breve confiava na 
minha opinio. Por meu lado, eu tratava-o respeitosamente e as nossas relaes, apesar do 
absurdo que lhes estava inerente, tornaram-se bastante cordiais. Atendendo a que, no meio 
de muita coisa sem interesse que enche a maior parte das malas diplomticas, se encontra s 
vezes uma prola rara, era de grande importncia para mim estar nas suas boas graas. Claro 
que Boyle nunca reclamou a prerrogativa de escrever com tinta verde; usava tinta 
encarnada.

Por intermdio de Boyle conheci o famoso coronel Claude Dansey. Antes da guerra 
ocupara-me em montar a chamada Organizao Z, destinada a penetrar na Alemanha atravs 
das bases na Sua. O mais interessante acerca da Organizao Z  que o seu sistema de 
comunicaes foi tremendamente afectado pela queda da Frana. Dansey deixara na Sua, 
a continuar o seu trabalho, um operador afvel chamado Van der Heuvel (pronuncia-se 
Hoyffl) que dizia ser conde do Sacro Imprio Romano. Ele perdoar-me- se pronunciei mal 
o seu nome, literal ou foneticamente, mas posso dizer que isso no me aconteceu s a mim. 
Quando um dia combinmos jantar os dois no Garrick e ele chegou primeiro, o porteiro teve 
dificuldade em perceber o nome da pessoa que eu procurava. Ah, disse ele por fim, 
quer dizer o senhor Vannoovl, e indicou-mo.

J expliquei que Dansey tinha a pior das opinies quanto ao valor da contra-espionagem 
assim como uma reputao de ser um homem muito combativo. Fiquei por isso 
surpreendido pela afabilidade com que me tratou. Foi sempre assim. Dansey era um homem 
que preferia espalhar o seu veneno a distncia, pelo telefone ou por escrito. A nica 
maneira de tratar com ele era ir

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procur-lo ao seu gabinete. Um encontro pessoal baixava a temperatura e tornava possvel 
falar sensatamente. Logo que percebi isto, no tive dificuldades com ele, excepto manter 
uma cara sria quando comeava a contar piadas sobre Vivian, o patro do meu patro. 
Felizmente os nossos caminhos no se cruzaram muitas vezes, porque era muito capaz de 
me riscar da sua lista fantasma de preferidos.

Resolvi ver Vivian sempre que me fosse possvel. Para fins prticos imediatos, ele no me 
era til, porque tinha um medo mortal de Dansey e mesmo do seu subordinado Cowgill. 
Mas era provavelmente, mais inteligente que ambos, e possua um temperamento 
reflectido, e que lhe permitia raciocinar demoradamente acerca da histria, da poltica e das 
personalidades do S.I.S. e das relaes entre o S.I.S. e o M. I. 5. Era um adepto obstinado 
do procedimento correcto, e os seus sermes sobre o assunto no me diziam mais a respeito 
dos enredos governamentais do que poderia ter aprendido com os mais irreflectidos, que s 
procuram solues, como Dansey ou Cowgill. No fazia idia alguma, nos primeiros meses 
em que comecei a procurar o convvio de Vivian, da importncia que isso poderia ter para 
eu atingir, no S.I.S., a posio que, acima de tudo, desejava. Cowgill lamentar-se-ia 
amargamente do facto de, prematuramente, ter classificado Vivian como um zero  
esquerda.

Dos Broadway Buildings at ao departamento central do M. 1.5, instalado, durante a guerra, 
em St. James Street, era um pequeno passeio atravs do St. James Park. Logo da entrada 
podia-se compar-lo favoravelmente ao hall escuro dos Broadway e a primeira e 
favorvel impresso era confirmada l em cima. Os escritrios pareciam realmente 
escritrios; que eu saiba no existiam aquelas coelheiras provisrias que tanto desfiguravam 
os Broadway. Os agentes estavam sentados atrs de secretrias onde no se amontoam em 
desordem papis de pontas amarrotadas. Meia dzia de ficheiros no mximo, bem 
ordenados, todos com indicadores, esperavam quem se ocupasse deles. Isto tinha as suas 
desvantagens. Na Seco V costumvamos queixar-nos dos pormenores

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desnecessrios que os agentes do M. I. 5 incluam nas suas longas cartas. Alguns deles, pelo 
menos, no tinham relao com o assunto principal. Apesar disso, o M. I. 5 aparentava um ar 
de competncia profissional que os Broadway nunca conseguiram imitar. Podia talvez ter 
pessoal a mais, como dizia muitas vezes Cowgill, mas da resultava que a maior parte dos 
agentes sabia o que tinha a fazer e como o fazer. O mesmo no se podia dizer dos muitos 
que existiam nos Broadway.

No fora sempre assim. Depois da queda de Frana o M. I. 5 teve de enfrentar uma situao 
para que no estava preparado. O povo ingls foi vtima da sua prpria propaganda, 
sobretudo no que se refere  quinta coluna alem. Durante meses, depois de Dunquerque, a 
polcia e o M. I. 5 estavam ainda afogados em relatrios de luzes brilhantes, homens 
estranhos e misteriosos, pronncias estrangeiras ouvidas na taberna, etc. A organizao 
quase se foi abaixo. Visitei pela primeira vez o M. I. 5, com o comandante Peters, no 
Outono de 1940, quando estava temporariamente instalado em Wormwood Scrubs. At 
parecia que o M. I. 5 estava alojado numa priso, pois a confuso era terrvel. O cho 
encontrava-se juncado de correspondncia por ler e os agentes diziam que s um dcimo 
valia a pena ser lido, sem sequer se pensar em responder. Felizmente, de qualquer modo, 
era tudo papel, apenas papel. Nunca existiu uma quinta coluna alem na Inglaterra.

O trabalho de conseguir ordenar aquele caos foi confiado a um certo Horrocks, que foi 
admitido (importado da City, penso eu) especialmente para esse fim. Da a um ano, podia 
vangloriar-se de o ter conseguido. Parece-me que tinha autoridade sobre a administrao em 
geral, mas o meu interesse especial era os arquivos. Fez a um belo trabalho. Na sua nova 
sede, ocupando parte de Blenheim Palace, o arquivo do M. I. 5 era um local de prazer 
depois do labirinto sujo de Woodfield, em St. Albans. Era fcil o acesso s informaes 
atravs de ficheiros bem ordenados e de ndices de cartes, e havia empregados suficientes 
no ficheiro, que asseguravam a execuo metdica do trabalho a um andamento razovel. 
Fiquei surpreendido e invejoso ao saber que a maior parte das raparigas conhecia

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to bem o contedo dos arquivos de que eram responsveis como os agentes que tratavam 
dos casos em St. James Street. Quando, delicadamente, falei no assunto com Woodfield, 
queixou-se de que tinha pouqussimo pessoal e afirmou que, de qualquer modo, no valia a 
pena prestar ateno a tais pormenores.

A maior parte do meu trabalho com o M. I. 5 estava em ligao com a chamada Diviso B 
daquela organizao, seco onde as informaes eram recebidas e avaliadas e onde se 
estabelecia o modo de agir. Por aco, neste contexto, quero dizer apenas o modo de 
desenvolver e explorar as informaes recebidas e no efectuar prises, por exemplo, 
porque o M. I. 5, tal como o S. I. S., no tinha poder executivo. No podia prender os 
suspeitos, mas s recomendar a sua priso s autoridades. Contudo, na prtica, pouca 
diferena havia, visto que as recomendaes do M I. 5 eram aceites quase invariavelmente. 
Apesar de tudo, em teoria, esta distino formal era mantida com firmeza.

Penso que  esta uma das razes, e das mais importantes, por que o M. I. 5, 
profissionalmente, era superior ao S. I. S. O M. I. 5 opera em territrio britnico e, por isso, 
est sujeito s leis britnicas. s vezes, o que acontece freqentemente, pode cair sob a 
alada de ramos especficos da lei, mas, nesse caso, necessita de uma sano explcita do 
Governo, geralmente sob a forma de uma autorizao do Ministrio do Interior. O M. I. 5 
pode, por exemplo, devidamente autorizado, vigiar o telefone de quaisquer cidados ou 
instituies, como embaixadas estrangeiras e o quartel-general do Partido Comunista. Mas 
tem de ter cuidado. Se comete um erro, fazem-se perguntas no Parlamento, a imprensa 
empreende campanhas e sucedem-se toda a espcie de complicaes, detestveis para uma 
organizao que deve trabalhar na sombra. No h inibies destas quanto s operaes 
efectuadas pelo S. I. S. Se violar as leis dos pases estrangeiros, quem sofre com isso so os 
servios diplomticos, que tm de dar explicaes aos Governos desses pases. Na 
generalidade resolvem o problema negando pura e simplesmente qualquer participao no 
caso.

A eficincia do M.I. 5 durante a guerra devia-se em

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grande parte aos seus recrutas temporrios. Houve uma boa pliade vinda das 
universidades, Hart. Blunt, Rothschild, Masterman e outros, e a Faculdade de Direito deu 
tambm uma contribuio substancial. A maior parte destes crebros, realmente bons, voltou 
s suas ocupaes normais depois da guerra; como este livro no  uma histria, no vale a 
pena continuar a expor as suas qualidades. Mas na chefia da Diviso B havia dois agentes 
profissionais do servio secreto, que souberam manter o respeito dos seus brilhantes 
subordinados durante a guerra. Como ambos tm um papel importante na minha narrativa, 
vale a pena fazer-lhes uma meno especial.

O chefe da Diviso B era Guy Liddell. Nasci no meio do nevoeiro irlands, disse-me ele 
uma vez, e muitas vezes penso que nunca consegui sair dele. Nenhuma autodepreciao 
seria mais ridcula.  verdade que tinha uma forma de pensar que enganava muito. Reflectia 
em voz alta, como se estivesse a rever os pormenores de um caso, e a sua face resplandecia 
num sorriso tranquilo e inocente. Mas por trs desta fachada de indolncia, o seu esprito 
subtil e ponderado jogava com uma srie de recordaes fotogrficas. Era o superior ideal, 
com quem um jovem podia aprender, sempre pronto a pr de lado o seu trabalho para ouvir 
e se preocupar com um novo problema.

Apesar disso, a carreira de Liddell terminou desapontadoramente. O chefe do M. I. 5 
durante a guerra foi Sir Charles Petrie, que servira na polcia indiana, homem autoritrio mas 
de grande encanto pessoal. Quando ele se retirou, a Diviso B teria votado num homem 
como Liddell para lhe suceder  e ele tinha tambm muitos adeptos noutros departamentos. 
Mas, afinal, o Governo nomeou Sir Percy Sillitoe, tambm oficial da polcia, inglesa neste 
caso, com menos autoridade e menos encanto que Petrie. O desapontamento de Liddell era 
evidente, mas foi mais do que pessoal. Ele, como a maior parte dos profissionais do M. I. 5, 
defendia que este departamento era secreto e no um organismo policial. As tcnicas para 
combater espionagem eram diferentes das utilizadas na luta contra o crime. Como os 
espies so apoiados pelas grandes possibilidades tcnicas dos

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Governos, ao contrrio dos criminosos, h evidentemente muito que dizer neste aspecto. O 
Governo, porm, era de opinio que a nomeao de um oficial superior da polcia, treinado 
segundo os processos de Whitehall, seria mais seguro. Concederam a Liddell o lugar 
duvidoso de director adjunto, e seria desumano se ele no sentisse ressentimento. Tenho a 
certeza de que os espies, se tivessem sabido, alegrar-se-iam com a derrota de Liddell. Um 
alegrou-se.

O assistente-chefe de Liddell na Diviso B era Dick White. Fora anteriormente professor e 
entrara no M. I. 5 no perodo entre as duas guerras. Era uma figura simptica e modesta, que 
seria o primeiro a admitir que no tinha qualidades de chefia. O seu defeito mais evidente 
era uma tendncia para concordar com a ltima pessoa com quem falava. com o seu habitual 
bom senso, gostava de delegar bastante trabalho nos seus subordinados e de exercer a sua 
autoridade procurando manter a harmonia na diviso. Era um dos poucos dirigentes do M. I. 
5 que, at ao fim, foi capaz de manter relaes pessoais razoveis com Cowgill. 
Recompensaram a sua capacidade para evitar lutas dentro do departamento, e. quando 
Liddell foi nomeado director adjunto, promoveram White a chefe da Diviso B. Mas algo 
sucedeu mais. Na devida altura, White foi chamado do outro lado do parque para se tornar 
chefe do S. I. S. Felizmente Dansey morreu antes de ver um perito de contra-espionagem a 
comandar nos Broadway, e note-se que este o fazia muito delicadamente. Caso contrrio 
teria morrido ao assistir a isto.

Frequentei assiduamente o M. I. 5, e antes do fim da guerra tinha muitos amigos pessoais 
em St. James Street. Era necessrio que algum suavizasse a coliso entre Cowgill e os 
nossos vizinhos, e como poucos queriam tomar a iniciativa, tomei-a eu.  parte de 
consideraes imediatas, formavam-se no meu esprito vrios projectos a longo prazo para a 
realizao dos quais seria til a ajuda do M. I. 5. Criei o hbito de fornecer informaes 
extra-relatrios aos meus amigos  isto , sem conhecimento de Cowgill  e muitas vezes fui 
recompensado por assumir esta atitude heterodoxa.

Houve, em 1943, grandes divergncias entre os dois

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departamentos durante a qual apoei discretamente o M. I. 5 contra Cowgill. O motivo era a 
localizao da Seco V. Estvamos instalados em St. Albans, em parte por causa de haver 
gente de mais nos Broadway e em parte pelo desejo de manter os arquivos fora do alcance 
dos bombardeiros alemes. Quando Woodfield mudou os arquivos para St. Albans, Cowgill 
mudou tambm. O motivo que alegou para o fazer  que uma organizao de contra-
espionagem deve estar junto dos seus arquivos. No entanto, o motivo real  que isso lhe 
permitia construir o seu pequeno imprio sem ser incomodado, livre da corrupo da 
poltica. Mas a diminuio progressiva dos bombardeamentos tirara a estes argumentos toda 
a coerncia. Os escritrios de Londres tinham muito espao livre, e no havia nenhuma 
razo bvia para no o usar.

Entretanto, o M. I 5 continuara a insistir numa maior cooperao connosco. Exaltavam as 
virtudes da propinquidade, uma palavra que aparecia frequentemente na correspondncia 
entre Petrie e Menzies sobre o assunto. Era evidente que, apesar do telefone, a colaborao 
seria mais eficaz se houvesse menor distncia entre ns. Isto era precisamente o que 
Cowgill no pretendia pelas mesmas razes que o M. I. 5 o queria. Antevia-se a si e ao seu 
pessoal de novo em Londres, dissipando os seus esforos em poltica,  merc das 
manobras de Liddell e C.a. Acima de tudo via o controle a fugir-lhe por entre 
os dedos. Pela minha parte, era inteiramente a favor do regresso a Londres. Segundo o meu 
ponto de vista, um maior contacto com o M.I. 5, os Broadway e outros departamentos do 
Governo poderia promover um conhecimento geral do trabalho do servio secreto. Quanto 
a mim, isso era tudo o que interessava.

Cowgill, como lhe era caracterstico, pensou que ainda dominava a situao. Anunciou em 
St. Albans que efectuaria um escrutnio acerca do assunto, dando a todo o pessoal uma 
possibilidade de se pronunciar a favor ou contra o regresso a Londres. Fui suficientemente 
insensato para dar a conhecer a estranhos o que iria fazer de maneira que o resultado da 
votao no podia ser anulado. Achei que uma votao livre me dava direito a tratar do caso 
cuidadosamente, como me convinha, no

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esquecendo que o pessoal da seco j comeara a ficar cansado de viver enclausurado, 
como num quartel. O resultado da votao emudeceu Cowgill, pois mais de dois teros do 
pessoal escolheu Londres, contribuindo para enfraquecer a determinao de Cowgill, 
apesar de este no ser obrigado a aceit-lo. Da a poucas semanas estvamos instalados na 
Ryder Street, a dois minutos do M. I. 5 e a quinze dos Broadway.

Tenho de voltar agora alguns meses atrs para descrever um acontecimento que foi de um 
efeito profundo em todo o posterior desenvolvimento do trabalho do servio secreto ingls. 
Refiro-me  chegada dos Americanos. Antes da guerra, os Estados Unidos no tinham um 
servio secreto de informaes no estrangeiro. O Federal Bureau of Investigation era 
unicamente responsvel pela segurana interna. As informaes secretas de outros pases 
obtinham-nas numa quantidade muito limitada a partir da actividade extra de adidos ou 
diplomatas colocados nas Embaixadas dos Estados Unidos, que estavam mais  vontade que 
os representantes dos pases possuidores de servios secretos, montados para fazerem o 
trabalho sujo. Sabe-se hoje, atravs de material publicado, como, em 1940, a British 
Security Coordenation, sob a direco de William Stephenson, se estabeleceu em Nova 
Iorque. A sua funo ostensiva e principal era garantir a segurana da rota dos 
abastecimentos americanos destinados  Inglaterra; pensava-se que o grande nmero de 
Americanos de origem alem existente nos Estados Unidos procuraria sabotar os navios. 
Esta suposio no foi confirmada. Mas Stephenson, que era amigo de Churchill e tinha 
mais poder poltico que qualquer outro agente do servio secreto britnico, em breve 
encontrou maneira de aplicar utilmente a sua grande energia. Passou a ocupar-se dos 
abastecimentos destinados ao Eixo e dos navios neutros em que estes eram transportados.  
provvel que o B.S.C, cometesse mais actos de sabotagem que toda a colnia alem dos 
Estados Unidos. Mas houve um outro problema a que Stephenson dedicou os seus 
melhores esforos: persuadir os Americanos de que era mais que tempo de organizarem o 
seu prprio servio secreto de informaes.

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Stephenson, como muitos outros, viu, a longo prazo, que a criao de um tal servio era 
inevitvel. Consideraes imediatas sugeriam que seria melhor para os Ingleses, logo de 
princpio, prestarem todo o auxlio possvel, nesse campo, aos Americanos. Mais tarde, 
quando as informaes obtidas pelos Estados Unidos se revestissem da importncia que as 
suas vastas possibilidades pressupunham, seria fcil para os Britnicos reivindicarem igual 
tratamento. Havia tambm a oportunidade de conseguir imediatamente informaes atravs 
das Embaixadas dos Estados Unidos nos pases onde a Inglaterra j no estava representada, 
tal como Vichy (Frana), os Blcs e mesmo a Alemanha. Stephenson, que era realmente 
um agente de categoria, no estava habituado a trabalhar em nveis mais baixos. Assim, 
procurou estimular o interesse do prprio Roosevelt e assegurar-se de que o presidente 
sabia que ele e os que estavam por detrs dele, entre os quais o S. O. E. e no M.I. 5, tal 
como o S.I. S., tinham muito para oferecer. Assim, quando nasceu o Office of Strategic 
Services, chefiado pelo general Donovan, j se falava em colaborar com os Ingleses no 
mais alto nvel. Se a troca da experincia dos Britnicos pelos recursos americanos foi 
realmente compensadora  um assunto discutvel. O que est fora de dvida  que a deciso 
favorvel  cooperao condenou os servios britnicos, durante muito tempo, a um papel 
secundrio, o que, muitos anos depois, ainda era motivo de lamentaes. Tudo o que o 
S.I.S. podia fazer quando a C.I.A. levou a Administrao dos Estados Unidos a cometer 
loucuras com Nhu Dinh Diem ou a ridicularizar-se na baa dos Porcos era apenas cruzar os 
braos.

A actividade de Stephenson nos Estados Unidos era vista com maus olhos por J. Edgar 
Hoover. A deduo de que os Estados Unidos no eram capazes de evitar a sabotagem no 
solo americano feria-o na sua vaidade. Ficou exasperado quando os homens de Stephenson 
bateram nas tripulaes dos barcos que levavam provises para o Eixo ou intoxicaram-nas. 
Mas a verdadeira razo do seu ressentimento era por Stephenson estar a fazer poltica no 
seu prprio campo e a faz-la bem. Hoover previu que a criao do O. S. S. o envolveria 
em disputas

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jurisdicionais interminveis. O novo departamento competiria com o F.B.I. na atribuio de 
fundos federais e destruiria o seu monoplio no campo da investigao. A criao e 
sobrevivncia da nova organizao foi a nica derrota sria que Hoover sofreu na sua 
carreira poltica e a sua carreira foi sempre poltica. Nunca perdoou a Stephenson o papel 
que ele desempenhou como parteira e ama do O. S. S.

Estas importantes decises foram-se pouco a pouco propagando a nveis mais baixos e em 
breve atingiram St. Albans. O nosso primeiro visitante americano foi um certo Kimball, do 
F. B.L, que chegou pouco depois do desastre de Pearl Harbor. Falava com a velocidade de 
uma metralhadora, acusando a Marinha, o Exrcito, o Departamento de Estado e a Casa 
Branca por terem ignorado os avisos do F.B.I. quanto  iminncia do ataque japons. O fim 
verdadeiro da sua visita, alm de querer fazer propaganda, foi anunciar que Hoover decidira 
nomear um agente de ligao em Londres, sob o disfarce de adido da Embaixada dos 
Estados Unidos, para cooperar com o M. 1.5 e com o S.I.S. Depois da partida de Kimball, 
Cowgill referiu-se-lhe em termos depreciativos, dizendo que Hoover tencionava com toda 
a certeza ultrapassar Stephenson, e, com mais razo que era costume, via Hoover como 
outro homem mau, que usava o servio secreto como uma escada para avanar 
politicamente e cujas iniciativas deviam ser encaradas com suspeita, se no contrariadas 
realmente. A minha lealdade por Cowgill foi abalada quando apareceu o primeiro adido. Era 
Arthur Thurston, um agente extraordinariamente competente, com quem era um prazer 
trabalhar. Convinha-me imenso estabelecer relaes com ele e Thurston, felizmente, 
retribuiu as informaes que eu lhe dei s escondidas. Era demasiado esperto para ficar 
muito tempo com Hoover, preferindo a selva poltica do estado de Indiana.

O O.S.S. no estava muito atrs. Depois de conversaes preliminares com Donovan, 
Bruce e outros, tnhamos designado um pequeno grupo de ligao. O chefe era Normal 
Pearson, um poeta de Yale. Era do gnero desprendido e no perdia uma nica 
oportunidade de

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ironizar com a sua prpria organizao. Era um grupo muito desnorteado, que nunca perdia 
a oportunidade de dizer que vinha aprender. Eu no devia estar bem a par, nessa altura, da 
vida interdepartamental, porque fiquei inocentemente surpreendido com a confiana 
depositada neles por Cowgill, pois deu-lhes livre acesso aos nossos ficheiros, incluindo as 
comunicaes de rdio interceptadas que ainda eram distribudas ao F.B.I. de m vontade e 
de forma bastante disfarada. Eu no percebia porque se negavam informaes a uma 
organizao de profissionais como o F.B.I., para as fornecer em profuso a um servio que 
foi uma vez descrito pelo prprio Pearson como um bando de preguiosos amadores, 
mas, na devida altura, tudo se esclareceu. Era verdade que Hoover queria ultrapassar 
Stephenson. No gostava do B.S.C. e queria cortar-lhe as asas. Uma maneira de conseguir 
isso era transferir a responsabilidade da ligao para Londres, e tambm aproximar-se do M. 
I. 5 , tal como o F.B.I., era uma organizao puramente de contra-espionagem. Tinha as 
suas questes com o S. I. S., tal como Hoover com o O. S. S. Acima de tudo, aos olhos de 
Hoover, a sua autoridade reduzia-se ao territrio britnico e por isso os seus interesses no 
entrariam em choque com os do F. B. L, cuja jurisdio se limitava ao hemisfrio ocidental. 
Resumindo, Hoover pretendia duas coisas: mudar o centro de cooperao dos Estados 
Unidos para a Inglaterra e aproximar-se o mais possvel do M. I. 5.

Tudo isto era muito desagradvel para Cowgill. Gostaria de poder reunir nas suas mos 
todas as informaes de contra-espionagem, transmitidas aos Americanos. No o tendo 
conseguido, queria reduzir as relaes entre o F.B.I. e o M.I. 5 ao mnimo. A razo 
evidente desta atitude era o seu receio de que o M. I. 5 fornecesse ao F.B.I. informaes 
recebidas do S.I.S. sem se importar com a segurana das fontes deste. Nunca tive provas de 
que se realizassem tais transaces, mas a linha de raciocnio tinha uma certa lgica e, na 
tenso do ambiente de guerra, um argumento plausvel j  muitas vezes suficiente. 
Plausvel ou no, o argumento mostrou-se muito fraco  medida que era evidente a 
liberalidade

de Cowgill para com o O. S. S. Informaes demasiado delicadas para o M. L 5 ou o F. B. 
I. deveriam igualmente ser recusadas ao bando de preguiosos de Pearson. Mas no o 
eram. A verdade  que Cowgill via no O.S. S. um instrumento potencialmente manejvel, 
que podia ser usado para apoiar a sua posio contra o M. I. 5 e o F. B. I. A atitude baseava-
se em que, por muito que Hoover se enfurecesse, ningum podia, em boa razo, discutir a 
legitimidade das suas ligaes com o O. S. S. Um desafio desses significaria, por exemplo, 
que o M.I. 5 vinha associar-se com o aforismo de Pearson acerca do O. S. S. Mas as boas 
maneiras interdepartamentais impediam uma tal dureza.

Em relao ao meu trabalho na Pennsula Ibrica, a entrada em cena do O. S. S. s levantou 
problemas. Alm do tempo perdido a pr as nossas informaes  disposio dos recm-
chegados, surgiu uma srie de problemas relativamente  nomeao dos agentes deles em 
Lisboa. O primeiro foi um certo Ray Olivera, que demonstrou bem depressa o que era. A 
sua aco inicial foi chamar o nosso agente sem o avisar, e pedir-lhe cooperao. Aquele, 
naturalmente, exigiu-lhe as credenciais, em resposta ao que Olivera abriu a mala e mostrou-
lhe o seu contedo: uma quantidade enorme de pacotes de notas de dlar. Alm da sua 
primeira demonstrao de impetuosidade, a chegada de Olivera provocou grande confuso 
na Embaixada dos Estados Unidos. Imediatamente aps a entrada da Amrica na guerra, o 
adido militar em Lisboa, coronel Solborg, comeou a mandar agentes atravs da Espanha 
para a Europa ocupada. O adido naval concentrara-se naturalmente nos assuntos relativos a 
navios e algum comeou a interessar-se por informaes econmicas. Quando Olivera 
chegou, todos estes campos tinham sido explorados e ningum queria abdicar em seu favor. 
Foi GeorgeKennan, ento conselheiro da Embaixada dos Estados Unidos em Lisboa, quem 
conseguiu resolver esta situao confusa que se prolongara por algum tempo. Decidiu que a 
melhor maneira seria cada um continuar a actuar no seu prprio campo, e no se preocupar 
com disputas jurisdicionais em Washington. Assim foram confirmadas as actividades no 
diplomticas

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a Solborg e aos outros, enquanto a contra-espionagem, em que ningum tinha ainda 
pensado, foi dada de presente a Olivera.

Apesar disso o infeliz Olivera pouco tempo teve para se dedicar ao seu restrito campo. 
Conseguiu imediatamente tornar-se to impopular em Lisboa que teve de ser substitudo. O 
novo agente era um certo Di Lcia, que tambm nos causou imensas preocupaes. Dentro 
de pouco tempo dizia ter descoberto um ndice de um ficheiro com muitos milhares de 
suspeitos, um feito que parece nunca ter dado resultados positivos. Foi mais importante a 
descoberta de que um dos seus informadores principais era um homem obscuro e suspeito, 
que estava em Portugal sob o nome de Alexander. Sabamos, atravs de comunicaes 
interceptadas, que Alexander transmitia informaes para o Abwehr. Soubramos tambm, 
abrindo uma mala diplomtica checa, que ele trabalhava para o coronel Pan, ento 
representante do servio secreto checo em Lisboa, e passmos muitos meses a inventar 
maneiras de avisar Pan, sem lhe dizermos como conseguramos a informao. Resistiu a 
todas as nossas tentativas com uma indiferena notvel; marfim do pescoo para cima, 
observou Dick White depois de um encontro frustrado. Mas Di Lcia ultrapassou os limites 
do admissvel quando resolveu tambm pagar a Alexander e, depois de muitas tentativas da 
nossa parte, o O. S. S. decidiu que ele devia seguir o mesmo caminho de Olivera. Pediram-
nos ento que escrevssemos para o nosso homem em Lisboa perguntando-lhe quais as 
qualidades desejveis para um representante do O. S. S. naquele lugar difcil. Ele telegrafou 
imediatamente: Por amor de Deus, mandem-me um homem chamado Smith. Contra a 
vontade de Cowgill, mostrei o telegrama a Pearson, que pretendeu mostrar-se divertido.

Na segunda metade de 1942, fomos informados de que tinha sido decidido, em princpio, 
invadir a frica do Norte. A nossa obrigao em St. Albans era concentrarmo-nos em 
fornecer provisoriamente informaes aos estados-maiores dos exrcitos invasores. As 
informaes que mais nos interessavam eram, evidentemente, as relacionadas com a 
actividade do Abwehr e com o servio

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secreto militar italiano no Norte de frica, e ainda com os seus simpatizantes dos servios 
especiais do regime de Vichy. Cowgill descortinou nesta questo uma boa oportunidade 
para si. Como era difcil assegurar que as informaes do S. I. S. fossem transmitidas aos 
estados-maiores do exrcito de forma a salvaguardar a segurana das nossas fontes, 
incluindo a intercepo de mensagens pela rdio, Cowgill defendeu com xito o ponto de 
vista de que isto s podia ser feito juntando a esses estados-maiores unidades especiais 
constitudas por agentes da Seco V, ou por agentes treinados na Seco V. Depois de 
conseguir que os seus argumentos fossem aceites, estava em boa situao para mostrar que 
os recursos que tinha eram insuficientes e que s podia cumprir a contento as novas 
obrigaes se os fundos de que dispunha fossem substancialmente aumentados. Tambm 
saiu vitorioso desta batalha e, assim, pde recrutar mais pessoal e aumentar-nos bastante os 
honorrios.

De passagem, devo mencionar que este aumento de pessoal levou a duas associaes 
maravilhosas. Graham Greene voltou a Freetown, onde, supostamente, estivera a vigiar as 
intrigas de Vicfry, para reforar a Seco V. Ele perdoar-me- se no me recordo de 
nenhum feito notvel na frica Ocidental, mas talvez os Franceses no fossem intriguistas... 
Contudo, recordo-me de termos uma reunio a fim de discutir uma proposta dele para 
usarmos um bordel itinerante para frustrar os Franceses e dois alemes solitrios, suspeitos 
de espiar as embarcaes britnicas na Guin Portuguesa. A proposta foi discutida com toda 
a seriedade e s foi recusada por no parecer que dela resultassem informaes srias. 
Felizmente, Graham Greene foi colocado na minha seco, onde o encarreguei dos 
assuntos relativos a Portugal. Passava muito tempo a cortar no O. S. S. e os seus comentrios 
acerados sobre a correspondncia que chegava animavam o nosso trabalho. Mais ou menos 
na mesma altura apareceu tambm Malcolm Muggeridge com o seu perptuo ar de espanto 
indignado. Foi mandado para Loureno Marques, longe de mais na minha opinio, onde o 
seu principal adversrio era o cnsul italiano, Campini, que assinalava cuidadosamente os 
movimentos dos barcos

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britnicos. Fiquei satisfeito quando o nosso interesse por Campini desapareceu e 
Muggeridge voltou para tratar de vrios aspectos da questo francesa. A sua oposio 
obstinada  poltica praticada na altura (fosse qual fosse) divertia e amenizava a nossa vida 
de trabalho.

Umas semanas antes da invaso do Norte de frica, Cowgill perguntou-me se podia tomar a 
responsabilidade da rea. Fora includa anteriormente na seco que tratava dos assuntos 
franceses, mas, por motivos que no eram muito claros para mim, decidira-se que a 
transferncia seria melhor. No hesitei em aceitar. Tnhamos conseguido saber bastantes 
coisas acerca da organizao do Abwehr em Espanha e Portugal e capturvamos regutar 
responsabilidades adicionais. Pessoalmente, satisfazia-me esta aproximao do centro activo 
da guerra, e o alargamento do meu campo de aco neste momento crucial sugeria a 
esperana de que ele aumentaria  medida que os exrcitos aliados avanavam. Esta 
esperana tornou-se realidade na devida altura.

As minhas novas obrigaes estavam mais relacionadas com poltica que com informaes 
secretas. As unidades especiais mencionadas atrs foram formadas e colocadas nos estados-
maiores dos exrcitos sob o nome de Special Counter-Intelligence Units (ou unidades 
S.C.I.). O termo era um americanismo  uma concesso ao facto de ser um americano o 
comandante-chefe. Forneceram-nos tambm novos carimbos dizendo Top 
Secret em vez de Most Secret. Era s uma pequena 
amostra de tudo o que se seguiria, mas nessa altura ramos suficientemente inocentes para 
nos sentirmos entusiasmados com o querido Eisenhower. Como o fulcro daquilo a que 
chamo, por falta de melhor termo, o nosso trabalho, dizia respeito s relaes com franceses, 
estivera durante muito tempo ligado  Seco V um elemento da contra-espionagem de De 
Gaulle, com funes mal definidas. Alm de lhe termos dado a nossa secretria mais 
atraente, porque falava francs, mantivemo-lo afastado. No sei que razes obscuras 
provocavam a reserva de Cowgill em relao ao Bureau Central de Renseignments et 
dAction, o servio de informaes de De Gaulle, mas quando a situao poltica se tornou 
clara, quando Darlan e Giraud se 

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tornaram amigos, e no inimigos, Cowgill tomou apaixonadamente o partido de um certo 
comandante Paillole, um oficial da contra-espionagem de Vichy. Na verdade, Paillole 
mostrou-se uma pessoa simpatiqussima, e os seus sentimentos anti-Eixo estavam acima de 
qualquer censura. Apesar disso, nunca pude perceber qual o motivo secreto por que 
Cowgill se envolveu em trabalhos, provocados pela sua atitude de defender Paillole de 
todos os recm-chegados. Provavelmente era s por ele no poder adoptar nenhuma atitude 
que no envolvesse uma entrega total. O que finalmente resultou de tudo isso, no sei. 
Antes de o problema estar resolvido, se alguma vez se resolveu, fui submergido pelos 
problemas da campanha italiana, e o caso Paillole reduziu-se ao seu nivel normal.

O facto de, no ano de 1942/43, Cowgill ter alargado o meu campo de responsabilidade, 
incluindo nele primeiro a frica do Norte e depois a Itlia, sugeriu-me que eu estava a 
comear a fazer carreira no servio secreto. Isto confirmou-se pouco tempo depois da nossa 
mudana para Londres. At ento, Cowgill delegara as suas funes, durante as suas raras 
ausncias, no seu adjunto Ferguson. Este tambm estivera, antes de vir trabalhar connosco, 
na polcia indiana, e impressionava sobretudo pelo seu terror em tomar decises. J era 
altura de Cowgill fazer uma visita oficial aos Estados Unidos, onde se propunha passar duas 
ou trs semanas. Na vspera da sua partida fez circular uma minuta entre todos os oficiais da 
Seco V informando-os de que, durante a sua ausncia, Ferguson agiria como seu 
substituto nos assuntos administrativos e eu, do mesmo modo, em todos os assuntos do 
servio secreto. Foi o primeiro sinal formal que eu tive de que estava na escala de 
promoo. Pobre Cowgill!

Captulo V

Sempre a subir

Um astuto agente do M. I. 5 anotou uma vez num documento: Este caso  da maior 
importncia e deve, por isso, ser tratado ao mais baixo nvel possvel. Durante as duas ou 
trs semanas em que Cowgill esteve ausente nos Estados Unidos, quando ocupei o seu 
lugar, tinha boas razes para reflectir nestas palavras, pois no era uma introduo auspiciosa 
nos nveis mais altos. A maior parte do trabalho de rotina era relativamente simples. Os 
outros chefes das subseces estavam bastante a par dos seus problemas e pouco 
precisavam dos meus conselhos. Mas quando me voltei para o trabalho do prprio Cowgill, 
mergulhei imediatamente numa confuso terrvel, o que provava, sem dvida, a m 
influncia das questes, entre departamentos no servio secreto. Era um prenncio das 
dores de cabea que ainda havia de ter, e, por isso, vale a pena falar nele com alguns 
pormenores.

Cowgill, umas semanas antes de partir, promovera uma reunio especial dos chefes das 
subseces. Informou-nos de que estava a trabalhar num caso, em conjunto com Claude 
Dansey, que era de uma grande importncia potencial, com tais implicaes polticas que se 
propunha tratar dele pessoalmente. Mas pensava que devamos conhecer o esboo geral, 
pois podia surgir qualquer coisa no nosso trabalho que se relacionasse com o citado caso. O 
esboo que Cowgill nos deu foi extraordinariamente confuso. Era evidente que estava 
cansado e as suas divagaes no faziam muito sentido. Parecia que um servio secreto 
inimigo estava a preparar, ou tinha preparado, uma fraude gigantesca.  natureza e 
finalidade dessa fraude era obscura. O meu ponto de vista, concluiu Cowgill com um 
assomo repentino de vivacidade,  que est relacionada, de algum modo, com os rabes! 
Sempre que olho para este caso vejo rabes! Richard Hannay * estava outra vez connosco.

* Personagem criada por John Buchan nas suas novelas policiais.
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Da a uma hora ou duas tinha esquecido tudo acerca do caso, mas Cowgill lembrou-mo 
quando mo resumiu antes de partir. Tirou do seu cofre particular um volumoso 
dossier e entregou-mo. Disse-me que o lesse durante a ausncia e visse o que 
fazia dele. Recomendou-me que seria aconselhvel manter-me em contacto com Dansey, 
porque este estava pessoalmente interessado no assunto. Pensei que era melhor no 
perguntar porque  que Cowgill estava unha e carne com Dansey, em relao a este caso, 
apesar de esta ligao ser muito estranha, dado o desprezo de Dansey pela contra-
espionagem e todos os assuntos com ela relacionados. Pensei que Cowgill estava cansado 
da batalha e se sentia s, e que mesmo Dansey se podia mostrar um aliado aceitvel. 
Talvez se estivessem a unir contra Vivian e o M. I. 5, uma aliana que fazia sentido nos 
termos da poltica interdepartamental praticada. Quando abri o dossier o interesse 
de Dansey pelo assunto tornou-se-me imediatamente claro e continuei a ler com um agrado 
sempre crescente. Ser mais simples para o leitor se eu contar a histria numa ordem 
cronolgica e no naquela em que estava no dossier, pois levei muito tempo 
para conseguir compreender os pontos principais.

Em fins de 1943, era evidente que o Eixo estava a caminhar para a derrota e muitos alemes 
comearam a mostrar segundas intenes no que respeita  sua lealdade para com Hitler. 
Como resultado comeou um desfilar constante de desertores junto dos portes das 
embaixadas aliadas, com oferecimentos de colaborao e pedidos de asilo. Estes 
oferecimentos e pedidos tinham, por muitas razes, de ser tratados com cuidado, pois 
Himmler podia enviar-nos espies disfarados de desertores. Por outro lado, no era 
conveniente que os Russos pensassem que estvamos a negociar com os Alemes devido s 
suspeitas mtuas de paz separada. No podamos encorajar uma torrente de arrependidos da 
ltima hora, que esperava fugir aos tribunais de guerra. As misses diplomticas inglesas 
tinham recebido instrues rigorosas de que no lhes deveriam dar quaisquer garantias sem, 
primeiramente, receberem referncias de Londres.

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Certo dia um alemo apresentou-se na Legao inglesa em Berna e solicitou uma entrevista 
ao adido militar britnico. Explicou que era um funcionrio do Ministrio dos Negcios 
Estrangeiros alemo e que tinha trazido consigo, de Berlim, uma pasta com documentos 
secretos. Ao ouvir esta declarao, dita a gaguejar, o adido expulsou-o imediatamente e as 
subsequentes tentativas do alemo para ver o chefe da Chancelaria foram, do mesmo modo, 
frustradas. A atitude dos funcionrios ingleses no pode ser condenada de nimo leve. Era 
difcil acreditar que algum tivesse coragem de atravessar o controle da 
fronteira alem com uma pasta contendo documentos oficiais.

Mas o alemo estava decidido a conseguir resultados. Depois de falhar na Legao 
britnica, experimentou os Americanos. Parece que os regulamentos deles eram mais 
flexveis que os dos Ingleses. Um secretrio da Legao decidiu que o caso era de vida ou 
de morte, e disse ; ao visitante que se devia dirigir ao Sr. Allen Dulles quatro portas 
adiante,  esquerda. Dulles, que era,; na altura, o chefe do O. S. S. na Sua, ouviu a 
histria do desconhecido e, sensatamente, pediu-lhe que mostrasse o contedo da pasta. Ao 
analis-lo verificou, sem hesitar, um momento, que os documentos eram autnticos e ficou 
num tal estado de euforia que o relatrio que enviou; para Washington ainda o deixava 
transparecer. Se ao menos pudessem apreciar estes documentos na sua frescura original, 
escreveu ele nesse relatrio.

O contedo da mala foi remetido para a capital americana e o O. S.S., lealmente, 
tramsmitiu-o ao S.I.S. O chefe deste ltimo departamento encarregou Dansey, devido  sua 
experincia em assuntos relacionados com a Sua, de estudar os documentos. J disse atrs 
que Dansey, ainda antes de a guerra comear, se interessara pessoalmente pela Sua, e 
esse interesse transformara-se numa obsesso: a de que aquele campo de aco lhe 
pertencia exclusivamente. Por isso, ficou furioso quando o O. S. S. se instalou em Berna e 
no perdia nenhuma oportunidade de menosprezar o trabalho dos Americanos. Ao ver os 
documentos alemes deve ter ficado em estado de choque, mas, no sendo homem para se 
deixar abater,

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pensou logo em resolver o assunto. Como Dulles no deixaria certamente fugir esta 
esplndida oportunidade de se evidenciar, Dansey pretendeu fazer crer que era tudo um 
ardil do inimigo e que Dulles cara nele infantilmente. Estes ardis envolviam operaes dos 
servios secretos inimigos e pertenciam ao mbito da seco de contra-espionagem. De 
acordo com isto, Dansey pediu a Cowgill que discutisse o assunto com ele. O que se passou 
na reunio no foi relatado em pormenor, mas  evidente que Cowgill partiu com a 
impresso de que lhe interessava provar a falsidade dos documentos de Dulles.  tambm 
evidente que ele nunca os estudou antes ou depois da reunio. Estava demasiadamente 
ocupado e cansado. Foi a poltica interdepartamental que o levou a entrar prontamente no 
jogo de Dansey. A sua indiferena por Vivian era quase completa e as suas relaes com o 
chefe, apesar de ainda serem razoavelmente boas, no eram to ntimas quanto ele 
desejaria, ao contrrio do que se passava com Dansey. Fazendo um bom trabalho para 
Dansey, provando que Dulles tinha comprado documentos falsos, podia melhorar bastante a 
sua situao.

Era esta a ideia que a confusa correspondncia trocada entre Dansey e Cowgill deixava 
transparecer e fez-me pensar bastante. Por esta altura, comeava a formar-se no meu 
esprito um projecto que requeria uma preparao cuidadosa. Estava ansioso por conseguir 
que me fosse confiado um determinado trabalho que, em breve, teria de ser executado e 
no me podia indispor com nenhuma das pessoas que mo podiam facilitar. Cowgill, Vivian, 
Dansey, o M. I. 5, o Foreign Office, eram peas do mesmo maquinismo e tornava-se 
extraordinariamente difcil prever, da minha posio ainda relativamente modesta, como  
que eles agiriam a meu respeito quando chegasse a altura prpria. Mas h muito tempo j 
que eu chegara  concluso de que, se as manobras polticas do resultados rpidos, esses 
resultados s so duradouros se baseados num trabalho slido e consciencioso. Decidi por 
isso estudar cuidadosamente o material de Dulles e declarar lealmente se era genuno ou 
falso. Se os resultados do meu estudo no fossem decisivos, reconsideraria ento os 
aspectos polticos do assunto antes de decidir para que

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lado me inclinaria.

A grande maioria dos documentos eram telegramas recebidos no Ministrio dos Negcios 
Estrangeiros alemo vindos das misses diplomticas no estrangeiro. Era evidente que o 
primeiro passo seria investigar junto dos nossos peritos criptogrficos se j tinham recebido 
mensagens interceptadas que condissessem com o material de Dulles. No dossier 
no havia qualquer prova de que se tivesse dado este passo elementar. Dansey e Cowgill 
tinham-se contentado em folhear precipitadamente os documentos  procura de 
implausibilidades e contradies que fortalecessem a sua teoria de que se tratava de uma 
fraude. Lembrei-me das instrues de Cowgill: manter-me em contacto com Dansey, e 
considerei se o deveria consultar acerca da minha idia de entrar em contacto com os 
criptgrafos. Pensei que no era conveniente faz-lo, porque ele se oporia certamente  
sugesto. Quando, ao voltar a folhear o dossier, encontrei estas palavras de 
Dansey para Cowgill: Entrego-lho para que aja como lhe parecer necessrio, decidi que 
estava bem protegido para continuar a actuar por minha conta.

Por essa altura, a Government Code & Cypher School, a nossa organizao criptogrfica, 
fora dividida em dois departamentos. Um, dirigido pelo comandante Travis, tratava de todo 
o movimento do servio; o outro, dirigido pelo comandante Denniston, estava encarregado 
das mensagens diplomticas. Como o material de Dulles era correspondncia do Ministrio 
dos Negcios Estrangeiros alemo, era com Denniston que devia tratar do caso. Escolhi 
uma srie importante de telegramas do adido militar em Tquio para o estado-maior alemo, 
que tinham sido transmitidos atravs de canais diplomticos. Continham declaraes 
pormenorizadas da ordem de batalha japonesa e desvendavam as intenes dos Nipnicos. 
Eram cerca de uma dzia e, se fossem verdadeiros, revestiam-se da maior importncia.

Dois dias mais tarde, Denniston, muito excitado, telefonou-me. Disse-me que trs dos 
telegramas condiziam exactamente com mensagens interceptadas, que eles j haviam 
decifrado, e que os outros tinham a maior utilidade para os seus criptgrafos, pois davam-
lhes possibilidade

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de penetrarem mais profundamente nos segredos do cdigo diplomtico alemo. Podia 
arranjar-lhe mais? Como isso estava na minha mo comecei a fornecer material a Denniston, 
to depressa quanto ele o podia absorver. Logo que cerca de um tero da totalidade dos 
documentos passou pelas suas mos, mostrando-se cada vez mais elucidativos e sem darem 
azo a qualquer dvida acerca da sua atitude, achei que tudo o que devia fazer era p-los em 
circulao, como autnticos. Transmiti-os tambm s nossas seces que tratavam com os 
departamentos do servio secreto e ao Foreign Office, diminuindo propositadamente a sua 
importncia, porque no queria que Dansey soubesse prematuramente que havia qualquer 
coisa fora do comum.

A reaco dos departamentos do servio secreto foi imediata. O Exrcito, a Marinha, a 
Fora Area  todos reclamavam mais elementos. O Foreign Office foi mais calmo, mas 
tambm muito delicado. Oficiei s seces interessadas, no sentido de requererem aos 
departamentos uma apreciao escrita do material. Tambm pedi a Denniston que fizesse 
uma minuta explicando as razes criptogrficas que levavam a crer na autenticidade dos 
documentos. Precisava de todas as provas que pudesse reunir para o confronto inevitvel e 
iminente com Dansey. Felizmente, consegui juntar material suficiente para agir antes que 
Dansey ouvisse falar do assunto atravs de outra fonte. Pensei mandar-lhe os papis para o 
preparar para o choque, mas afastei a idia, pensando que ele no os leria. Assim, um pouco 
enervado, perguntei-lhe quando  que lhe podia fazer uma visita.

A entrevista durou uma meia hora muito desagradvel. Como eu esperara, Dansey estava 
furioso. Contudo, sentia-se mais sossegado pelo facto de eu ter estudado o material e ele 
no. A minuta de Denniston acalmou-o um pouco. No percebia o raciocnio, mas a 
concluso era clara. Voltou a irritar-se quando leu os comentrios elogiosos dos 
departamentos e, dominando-se com bastante dificuldade, fez-me um sermo. Mesmo que 
todos os documentos fossem autnticos, que interessava isso? Eu estava a encorajar o O. S. 
S. a estabelecer confuso em toda a Sua. S Deus sabia os prejuzos que eles nos

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podiam causar. Assuntos destes s deveriam ser tratados por agentes com experincia das 
armadilhas que ameaam os incautos. Pelo que ele sabia, o O.S.S., se fosse encorajado 
nesse sentido, podia destruir em dias toda a nossa rede de agentes.

Quando Dansey esgotou tudo o que improvisara precipitadamente, perguntei-lhe, com uma 
deferncia mesclada de espanto, como  que o O. S. S. tinha entrado no assunto. Eu no 
revelara a provenincia dos documentos. Nem mesmo as nossas seces, j no falando dos 
departamentos, sabiam que o . S. S. estava metido no caso Julgavam que era material 
nosso, e pediam-nos mais. Parecia que o xito seria nosso. Quando cheguei ao 
fim, Dansey olhou fixamente para mim durante muito tempo, Continue, disse ele por fim, 
no  to estpido como eu pensava. Quando Cowgill voltou levei-lhe o 
dossier, e relatei-lhe o que fizera. Quando ele me perguntou ansiosamente qual 
fora a atitude de Dansey, expliquei-lhe que o tinha consultado e que ele aprovara. Cowgill, 
visivelmente aliviado, entregou-me o dossier e disse-me que tratasse de mais 
alguma coisa que pudesse surgir. com grande espanto meu o caso no ficou encerrado. O 
nosso amigo alemo provou ser um agente intrpido e fez mais visitas a Berlim 
acompanhado da sua j famosa pasta.

Entretanto, o trabalho das minhas subseces que tratavam da actividade alem na Pennsula 
Ibrica. Norte de frica e Itlia progredia bastante devido a uma familiaridade crescente 
com o assunto. Apanhavam-se agentes alemes com uma regularidade montona e, que eu 
saiba, no escapou nada de importante  nossa rede. Apesar de os servios alemes terem as 
maiores facilidades do Governo espanhol e de o Prof. Salazar lhes oferecer uma 
hospitalidade amvel, poucos espanhis e portugueses mostravam desejo de arriscar a vida 
pelo fascismo. Muitos dos que aceitavam misses faziam-no simplesmente para sair da 
Europa ou ir para Inglaterra, ou por ambos os motivos. Alm disso, possuamos a chave-
mestra para conhecer as intenes alems, pois decifrvamos regularmente as suas 
mensagens.

O caso de Ernesto Simes pode ser tomado como um

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exemplo flagrante. Soubemos, atravs de telegramas cifrados alemes, que eles tinham 
recrutado Simes em Lisboa para trabalhar em Inglaterra. Haviam-lhe dado instrues 
reduzindo-as  forma de minsculos pontos espalhados pela sua roupa e deveria comunicar 
as suas descobertas pelo correio. Depois de consultar o M. I. 5 decidimos deix-lo andar  
solta por Inglaterra durante algum tempo, na esperana de que nos conduzisse a outros 
agentes alemes. Quando chegou no lhe fizeram mal e, discretamente, ajudaram-no 
mesmo a encontrar um emprego na fbrica Luton, que produzia peas de avies. As 
informaes que ele podia obter a eram suficientemente importantes para tentar um espio, 
sem acarretar muito perigo no caso de conseguir transmitir algumas informaes aos 
Alemes. Ficou hospedado com um casal, e o dono da casa trabalhava na mesma fbrica. 
Preparou-se tudo para que os seus movimentos fossem seguidos e o correio vigiado.

Dentro de alguns dias, Simes estabeleceu um ritmo de comportamento que nunca mais 
modificou. Saa com o seu senhorio da fbrica quando o apito tocava, e levava-o at  
taberna mais prxima. Depois corria para casa, tanto quanto as pernas o permitiam, e apenas 
voltava a sair na manh seguinte, para ir trabalhar. Persistia uma nica dvida: a razo da sua 
pressa em chegar a casa. Depois de uma investigao mais apurada, surgiu uma explicao 
perfeitamente satisfatria. Todas as noites, quando chegava a casa, deitava-se com a sua 
hospedeira debaixo da mesa da cozinha (assim diziam os observadores clandestinos, apesar 
de parecer-muito improvvel). A seguir, comia uma boa refeio e ia para a cama.

Passadas algumas semanas, decidiu-se que a comdia tinha de acabar. Prenderam Simes e, 
para no se deixar nada  sorte, levaram-no para o duro centro de investigao de Ham 
Common, onde o entregaram a Tommy Harris. Harris no conseguia ser duro para ningum, 
mas fez o melhor que pde. Disse a Simes que estava numa priso do servio secreto 
ingls, fora do alcance da Lei; o seu Consulado no conhecia o seu paradeiro e nunca o 
saberia; poderia ficar ali toda a vida, se o deixassem viver; ou morrer de fome, ou 
espancado. A sua

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nica esperana era fazer uma confisso completa das suas actividades a favor dos Alemes. 
E Harris disse muita coisa deste gnero, fazendo apelo a todos os recursos da sua 
imaginao. Na verdade confessou-me mais tarde que pintara um quadro to negro que ele 
prprio se assustara.

Simes ouviu tudo isto com uma impacincia cada vez maior, dizendo unicamente que tinha 
fome e queria comer qualquer coisa. Depois de cerca de uma hora acabou por se decidir. 
Pediu papel e lpis e rabiscou perto de duas pginas narrando os seus contactos com os 
Alemes em Lisboa, incluindo as instrues, os micropontos e tudo o resto. Explicou que 
no tinha a mnima inteno de fazer algo que o pudesse pr em perigo; o seu nico fim era 
ganhar um bom ordenado durante a guerra em Inglaterra, o que no teria conseguido se no 
fosse ajudado. Harris viu que a confisso de Simes condizia em todos os pormenores com 
o que previamente tnhamos sabido. Antes de ele poder dizer alguma coisa, Simes pousou 
a caneta e perguntou com um ar irritado: E agora, posso comer?

Um outro caso passado com um portugus  bastante elucidativo, porque ilustra a nossa 
dificuldade de actuar baseados em informaes conseguidas por meios delicados. Rogrio 
Peixoto de Meneses, que trabalhava no Ministrio dos Negcios Estrangeiros, em Lisboa, 
foi colocado na Embaixada portuguesa em Londres. Antes de ele sair da capital portuguesa 
soubemos, interceptando uma mensagem alem, que o Abwehr o tinha recrutado. Haviam-
lhe atribudo vrias misses de carcter secreto e disseram-lhe que enviasse as suas 
informaes por meio de cartas escritas com tinta simptica, que seriam expedidas para 
Lisboa na mala diplomtica portuguesa. O caso apresentava poucas dificuldades, porque a 
referida mala era aberta regularmente antes de sair de Inglaterra. Da a algumas semanas 
encontrou-se na mala uma carta assinada por Rogrio Meneses e, ao observ-la, verificou-
se ser uma mensagem escrita com tinta simptica. Continha comentrios insensatos sobre a 
moral pblica, assinalava a existncia de baterias antiareas em Hyde Park e outras 
trivialidades. Pensou-se, porm, que mesmo um pobre pateta como Meneses poderia

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descobrir alguma coisa importante, e que por isso era melhor acabar com a sua actividade.

Mas, como Meneses podia invocar a sua imunidade diplomtica, era necessrio convencer 
o Sr. Armindo Monteiro, embaixador portugus, a desistir de uma tal reclamao, apesar de 
a nica prova da traio do Meneses ter sido obtida por meios no diplomticos. Decidiu-se 
finalmente que se deveria mostrar a carta ao embaixador, explicando que tinha sido enviada 
por um agente nosso em Lisboa. Perante a carta, Monteiro no podia requerer imunidade 
para Meneses, e este foi, assim, levado a julgamento. Era um caso pattico e muitos de ns 
j sentamos remorsos antes de o veredicto ter sido pronunciado, pois, juridicamente, o 
acusado podia ser condenado  morte. Felizmente, o juiz foi benevolente; no tnhamos 
razes para aborrecer os Portugueses. Mas o caso encerrou-se com um acontecimento 
desagradvel. Num telegrama em cdigo comentando o caso (que ns tambm lemos), 
Monteiro enviou para Lisboa a explicao (dada por ns) das circunstncias em que a carta 
nos cara nas mos. Ao fazer isto sugeria a possibilidade de a mala diplomtica ter sido 
indiscreta.

A presena de diplomatas neutros era uma eterna dificuldade para as autoridades de 
segurana britnicas e quem despertou a ateno destas para o assunto foi o duque de Alba, 
embaixador de Espanha. Abramos regularmente a mala diplomtica espanhola e assim 
soubemos que Alba mandava periodicamente para Madrid relatrios, de excepcional 
qualidade, acerca da cena poltica britnica. Como no tnhamos dvidas de que o ministro 
dos Negcios Estrangeiros espanhol os mostrava aos seus aliados alemes, estes 
comunicados representavam realmente uma fuga importante de informaes. Mas no se 
podia fazer nada. No havia provas de que o duque tivesse obtido essas informaes por 
meios imprprios. Estava, simplesmente, relacionado com pessoas conhecedoras do que se 
passava e apenas transmitia o que elas diziam, com comentrios inteligentes da sua autoria. 
Durante muito tempo o M. I. 5 pensou em servir-se dele para enganar os Alemes,

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mas os seus informadores eram pessoas importantes. Contavam-se entre eles Brendan 
Bracken, Beaverbrook e mesmo Churchill, que no se podiam permitir enganar um Grande 
de Espanha. Tivemos por isso de abandonar a idia, mantendo uma nica esperana. Os 
relatrios de Alba denotavam a sua amizade para com a Inglaterra. Era possvel que Hitler o 
despedisse como um anglfilo incurvel, pois, apesar de tudo, Alba era tambm duque de 
Berwick.

Captulo VI

A realizao

No fim do captulo IV contei como a minha posio no S.I.S. estava em vias de melhorar 
bastante. Isto obriga-me a relatar um episdio que ser de leitura desagradvel, assim como 
foi desagradvel de escrever. Os primeiros indcios de que a minha carreira nos servios 
secretos estava a obter sucesso coincidiram com o estabelecimento de uma directriz 
especfica dos mesmos que eu no podia ignorar.

Muito antes do fim da guerra mundial, vrios dos agentes superiores do S.I.S. comearam a 
dirigir a sua ateno para o futuro inimigo. No perodo entre as guerras, a maior parte das 
disponibilidades do servio tinha sido devotada  penetrao na Unio Sovitica e  defesa 
da Inglaterra contra o que genericamente se conhecia como bolchevismo. isto . o 
Governo sovitico e todo o movimento comunista mundial. Quando a derrota do Eixo 
estava j  vista, as atenes do S. I. S. concentraram-se nos antigos aliados e a primeira 
arrancada, embora modesta, foi a criao de uma pequena seco conhecida como Seco 
IX, encarregada de estudar os arquivos da actividade sovitica e comunista. Mandaram vir 
do M. I. 5 um agente chamado Currie, j perto da idade de aposentao, para organizar a 
seco. Ele lutava com grandes dificuldades devido  surdez e  ignorncia dos processos 
do S.I.S.; e o sigilo excepcional que lhe haviam imposto impediam-no de ter acesso aos 
documentos realmente importantes para o seu trabalho. Sabia-se, porm, que a sua 
nomeao fora para preencher temporariamente uma lacuna e que logo que a diminuio do 
trabalho relativo  Alemanha o permitisse, seria substitudo por um agente do S.I.S.

Durante as semanas seguintes, todas as minhas discusses com o meu contacto sovitico se 
relacionavam com o futuro da Seco IX. Escrevi vrias notas sobre o assunto, que 
analismos em pormenor. A situao, como

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eu expliquei ento, tinha duas solues possveis: Currie, quando se aposentasse, podia ser 
substitudo por outro agente, ou a seco seria fundida com a Seco V. Cowgill no 
duvidava de que a ltima soluo seria a preferida. Falava claramente dos dias em que nos 
livraramos do velho Currie e entraramos realmente a fundo no comunismo. Eu tinha 
poucas dvidas de que, com o decorrer dos acontecimentos, no se confirmassem os seus 
projectos. Depois da derrota do Eixo seriam tomadas medidas econmicas, e a fora do 
S.I.S. ficaria consideravelmente diminuda. Parecia pouco provvel que houvesse lugar para 
duas seces de contra-espionagem, uma ocupando-se do importante problema sovitico e a 
outra com fins mais ou menos variveis, o neofascismo, etc. Era de todo o interesse juntar as 
seces e, neste caso, a idoneidade de Cowgill no servio faria com que o escolhessem, 
com toda a certeza, para chefe da seco combinada.

O meu contacto sovitico perguntou-se se me dariam um lugar importante na seco. Eu 
pensava que era provvel que o fizessem. Mas no podia ter a certeza?, insistiu ele. No 
podia dar uma resposta categrica a essa pergunta. Os corredores dos Broadway estavam 
cheios de projectos de reorganizao para depois da guerra, mais ou menos drsticos, e era 
impossvel saber quais as modificaes que surgiriam, quando fosse estabelecida a paz, em 
relao ao pessoal. Tambm me podiam mandar para o estrangeiro a fim de adquirir 
experincia prtica. Falmos no assunto em vrios encontros antes de ele me fazer uma 
pergunta que seria fatal: Que aconteceria se me oferecessem o lugar de Cowgill ? 
Respondi que isso significava uma promoo importante e melhoraria as possibilidades de 
determinar o curso dos acontecimentos, incluindo as minhas ligaes pessoais. Ele pareceu 
satisfeito e disse que esperava ter instrues definidas para mim na altura da nossa prxima 
reunio.

E tinha. O departamento central havia-o informado que eu devia fazer tudo, mas 
tudo, para me assegurar de que ficaria chefe da Seco IX, quer ela se fundisse ou 
no com a V. Eu ainda levantei objeces, demonstrando 

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que o meu acesso a muitos lugares obscuros do servio tinha sido conquistado devido  
minha recusa de me meter nas intrigas dos departamentos. Mas o argumento no o 
convenceu. A importncia do lugar valia bem uma perda temporria de reputao. Alm 
disso, o meu amigo apontou, com muita razo, que dentro de alguns meses Cowgill e a sua 
maneira de agir estariam esquecidos. Havia muita verdade nisto, mas no era sem remorsos 
que eu encarava a questo, pois respeitava Cowgill e devia-lhe muitos favores. No entanto, 
era um obstculo incmodo no caminho que me traaram e, por isso, era preciso elimin-lo. 
No podia negar que, assim como ele no tinha nenhum competidor srio na Seco IX, se 
ficasse, o mesmo sucedia em relao a mim, se ele se fosse embora.

Apesar de a minha relutncia em me imiscuir em intrigas de bastidores no ter sido 
considerada como um factor decisivo pelos meus amigos soviticos, o departamento central 
no pusera simplesmente a ideia de lado. Fui incitado a conduzir a minha campanha contra 
Cowgill com o maior cuidado. Embora deixassem a maior parte dos pormenores ao meu 
cuidado e iniciativa, traaram-me as seguintes linhas mestras: no era conveniente tomar 
medidas demasiado evidentes para atingir o meu fim, para, se as coisas mais tarde corressem 
mal, poder comprovar que fora obrigado a aceitar o lugar; todos os movimentos da 
campanha deveriam provir, sempre que possvel, de outra pessoa, ou seja, precisava de 
encontrar aliados para lutarem pela minha causa, e o melhor local para os procurar era, 
evidentemente, entre os inimigos de Cowgill. Como eu disse atrs, estes no eram poucos e 
o decorrer do tempo no contribura nada para enfraquecer a sua atitude. Assim, julguei-me 
no direito de manter as minhas esperanas especialmente porque Cowgill era um homem 
orgulhoso que voava alto. Se alguma vez casse, seria para no mais se levantar.

A minha primeira escolha foi o coronel Vivian, apesar de ser um homem fraco. Era chefe 
adjunto do servio secreto, era o superior directo de Cowgill no servio e, nominalmente, 
era responsvel por toda a actividade de

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contra-espionagem do S.I.S. J mostrei como Cowgill, desprezando a sua fraqueza, o pusera 
de lado, preferindo tratar directamente com o chefe e Vivian no se esquecera disso. Em 
vrias ocasies chorara no meu ombro a sua influncia perdida, o que me deixara bastante 
embaraado. Mas agora bendizia estas pequenas cenas sentimentais, e da a pouco tempo 
Vivian perguntava-me o que fazer de Cowgill, questo a que era difcil responder. Era 
evidente que eu no me convinha ser inconveniente dizendo-lhe as coisas com clareza. 
Mas podia desviar as suas queixas para outros, com influncia junto dos centros de deciso. 
Era intil sugerir-lhe que fizesse uma exposio ao chefe. Tinha quase tanto medo do chefe 
como de Cowgill. Mas havia outras pessoas que o chefe ouvia, ou era obrigado a ouvir.

Entre elas eu estava inclinado para Christopher Arnold-Forster. Quando entrara para o S. I. 
S. ele trabalhava na Seco Naval, tratando de informaes navais para o Almirantado. O 
chefe instalara-o num gabinete do outro lado do corredor, defronte do seu, e dera-lhe as 
atribuies de chefe do pessoal. Pode ter-se arrependido mais tarde desta nomeao, mas, 
na realidade foi uma das mais acertadas que alguma vez fez. Arnold-Forster tinha um 
crebro privilegiado e uma capacidade fora do comum para ver ordem no caos burocrtico, 
aliado a um estilo admirvel, tanto a escrever como a falar. Era tambm um dos homens 
mais corajosos que conheci. Passava a maior parte do dia  secretria, por detrs de uma fila 
de frascos cheios de ps estranhos para o estmago. Sabia que se ele se interessasse pelo 
problema veria imediatamente a impossibilidade de manter uma situao em que o chefe da 
seco de contra-espionagem do S.I.S. estava permanentemente em luta com o M. I. 5. 
Podia-se toler-la durante um curto perodo de tempo, na tenso de guerra, quando se 
usavam todos os recursos, mas prolong-la indefinidamente em tempo de paz era um caso 
diferente. Se Arnold-Forster pensasse no assunto, eu tinha a certeza de que ele agiria.

Mas como provocar a sua aco? A melhor maneira era Arnold-Forster ouvir uma opinio 
autorizada de

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algum do M. I. 5 sobre Cowgill. Ento, quem? Afastei a ideia de Dick White, baseado no 
facto de que estava sempre pronto a dizer tudo a toda a gente. Podia cair facilmente no 
exagero. Guy Liddell era muito melhor. Era superior de White; estivera tanto tempo no M. 
I. 5 que at parecia ser do M. I. 5; falava sempre claramente e era capaz de ser implacvel. 
De acordo com isto, quando Vivian levantou o assunto, afirmei que no tinha nada a sugerir, 
mas pensava que ele faria bem em consultar Arnold-Forster. Talvez fosse melhor se 
combinasse um encontro com Arnold-Forster e Guy Giddell. Vivian engoliu a ideia devagar 
mas com crescente entusiasmo. Depois disse com um ar resoluto: Sabe uma coisa, Kim, 
vou fazer isso mesmo !

Como combinaram o encontro no sei. O clube de Vivian era o East ndia and Sports, mas 
no deviam ter almoado l. O seu caril com batatas do tempo de guerra teria morto Arnold-
Forster. Mas quando voltei a ver Vivian as coisas pareciam correr bem. Deitou-me um 
sorriso cmplice e vitorioso. Parece-me, disse ele, que abri realmente os olhos a Chris! 
Foi ainda mais significativo um convite que Arnold-Forster me fez pelo telefone para 
aparecer quando estivesse livre. Foi demasiado correcto para levantar o que Wodehouse 
chamaria a caa mas tivemos uma grande conversa sobre o S.I.S. em geral e o seu futuro, 
que possibilidades havia de o melhorar e que modificaes seriam necessrias, de acordo 
com as novas condies impostas pela paz. Estava, evidentemente, a avaliar-me e eu tentei 
ser o mais sensato e directo possvel. O nome de Cowgill no foi mencionado.

A prxima etapa era solicitar a opinio do Foreign Office, com o qual tivramos vrios 
contactos, especialmente em relao com os protestos diplomticos feitos a Franco e a 
Salazar contra as actividades secretas dos alemes na Pennsula Ibrica. Durante o tempo de 
guerra fora montado um sistema segundo o qual o Foreign Office nomeava um dos seus 
funcionrios para trabalhar nos Broadway, de forma a melhorar, por assim dizer, os dois 
servios e aumentar o conhecimento dos fins a atingir e processos de trabalho um do outro. 
O primeiro membro

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do Foreign Office a ser nomeado foi Patrick Reilly, que ainda desempenhava o seu lugar 
nos Broadway na altura em que ocorreram os acontecimentos que estou a relatar. Contactara 
com ele frequentemente por causa das intrigas alems nos pases neutros e no tinha razes 
para pensar que ele tivesse m opinio a meu respeito, mas no sabia de nenhum 
desentendimento suficientemente grave entre ele e Cowgill que justificasse a sua incluso 
entre os meus aliados. Contudo a sorte continuava a proteger-me. Cowgill, que muitas 
vezes parecia inclinado para a autodestruio, escolheu este momento crtico para tentar o 
chefe a uma luta completamente desnecessria em Edgar Hoover. Um conflito destes 
afectaria as relaes anglo-americanas em geral. Por isso Reilly meteu-se no assunto e 
manifestou fortes reservas quanto ao bom senso poltico de Cowgill.

A primeira vez que teve conhecimento deste novo aspecto da questo foi por intermdio de 
Vivian. Mostrou-me uma carta de duas pginas que Cowgill escrevera para o chefe assinar. 
No me lembro rigorosamente do que se tratava. Devo-me ter esquecido devido 
precisamente,  intemperana da linguagem de Cowgill. A carta era uma diatribe contra 
Hoover acusando-o de sacrificar as necessidades da contra-espionagem s vantagens 
polticas de Washington. Havia muita verdade no que Cowgill dizia, mas coisas destas no 
podem ser postas no papel, sobretudo na correspondncia entre os chefes de dois servios. 
No fundo da carta havia uma nota sucinta de Reilly: Acho que a carta da Seco V  
totalmente inconveniente e, se for enviada, ridiculizar o O.S.S. Reilly pedira a Vivian que 
voltasse a escrever a carta e este, por sua vez, vinha dizer-me que fizesse um novo 
rascunho. Eu escrevinhei cerca de meia pgina, focando o ponto debatido, mas com pouco 
vigor e em termos corteses, e levmo-la juntos a Reilly. Ele entregou-a sem qualquer 
alterao s secretrias do chefe e vim-me embora. Vivian disse-me no dia seguinte que 
tivera uma conversa muito interessante com Patrick.

O cenrio encontrava-se preparado. Vivian estava agora nitidamente pronto a tirar o sangue 
a Cowgill. Arnold-Foster ficara impressionado com a hospitalidade

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do M. I. 5 para com Cowgill, e tinha-se assegurado de que o chefe no lhe daria somenos 
importncia. O prprio M. I. 5 mantinha-se firme.  parte Dick White, que continuava 
afvel, o resto do pessoal do M. I. 5 via Cowgill como um antagonista na luta entre os 
departamentos. Mesmo White descrevia-o, amavelmente, como um sodomita desastrado. 
Havia tambm nuvens ameaadoras para Cowgil no horizonte de Bletchley. Ele sempre 
pensara que os funcionrios da Government Code & Cypher School estavam prontos a 
disputar-lhe o controle das informaes conseguidas pela intercepo das 
comunicaes de rdio alems. Pouco depois de termos voltado de St. Albans para Londres 
tinha tido uma pega com dois funcionrios superiores da Government Code & Cypher 
School, Jones e Hastings. Numa ocasio embaraosa, rodeado pelos chefes das suas 
subseces, foi vencido, para no dizer maltratado, por Jones. Ambos tomaram posies 
irredutveis e autnomas. Mas Jones sabia o que estava por trs, Cowgill no. No quero 
sugerir que a Government Code & Cypher School tomasse parte activa no afastamento de 
Cowgill, pois estavam demasiado longe, mas durante toda a operao o chefe sabia bem 
que os criptgrafos tomariam uma posio indiferente em relao  parte de Cowgill.

Tudo terminou virtualmente no dia em que Vivian me mandou chamar e me pediu que lesse 
uma minuta que ele tinha escrito para o chefe. Era extraordinariamente comprida e estava 
intercalada de citaes de Hamlet. Contava a triste histria das lutas de Cowgill e 
argumentava que deveria ser feita uma mudana radical antes da transio para o perodo de 
paz. Citava o meu nome como sucessor de Currie e a candidatura de Cowgill para o lugar 
era especificamente excluda. A forma de como eu estava especialmente indicado para o 
lugar era explicada em pormenores lisonjeiros. No entanto, era bastante estranho que todo o 
estendal das minhas virtudes omitisse a minha mais sria aptido para o lugar  o facto de eu 
saber alguma coisa sobre o comunismo.

Para mim, foi o fim da luta. Vivian no ousaria fazer

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tal proposta ao chefe sem a bno de Arnold-Forster; e Arnold-Forster no a teria dado 
sem ter primeiro preparado o campo para uma recepo favorvel. O facto de a minuta estar 
passada  mquina e pronta a seguir, fez-me crer que o chefe estava preparado a arriscar-se 
a uma grande cena com Cowgill, at ao ponto de aceitar a sua demisso. Estava certo de 
que da a alguns dias receberia uma convocao do chefe. Contudo, devia tomar ainda uma 
ltima precauo, e passei muito tempo a pensar como deveria agir.

O problema  que fazer carreira num servio clandestino  imprevisvel, e muito arriscado. 
 sempre possvel que alguma coisa corra mal. As desgraas menores podia eu com elas, 
mas se sucedesse algo de grave no queria depender unicamente da lealdade dos meus 
colegas do S.I.S. O maior perigo que os agentes secretos tm de enfrentar  a acusao de 
deixarem escapar informaes, a qual est a cargo do M. I. 5. No caso de me acontecer 
alguma coisa no meu novo lugar, seria bom, pensei eu, que este departamento estivesse 
oficialmente implicado na minha nomeao. O que eu queria era uma declarao escrita do 
M. I. 5, dizendo que aprovava a minha escolha para o lugar. Mas no podia dizer isto ao 
chefe por estas palavras. Resumindo, estava  procura de uma frmula. Depois de reflectir 
ansiosamente, pensei que era melhor aproveitar-me do gosto obsessivo do chefe pelas 
manobras interdepartamentais.

A convocao chegou. No era a primeira vez que eu visitava o chefe, mas nesta ocasio, 
Miss Pettigrew e Miss Jones, as secretrias, pareceram-me especialmente afveis, enquanto 
esperava na sala delas que se acendesse a luz verde. Pela primeira vez o chefe chamou-me 
Kim e percebi que por isso no tinha sucedido nenhum contratempo da ltima hora. 
Mostrou-me a minuta de Vivian e eu, delicadamente, fingi l-la. Disse-me que decidira agir 
de acordo com a proposta de Vivian e oferecia-me imediatamente o lugar de Currie. Tinha 
alguma coisa a dizer? Certamente. Falando de maneira a dar a entender que esperava no 
estar a ser despropositado, disse que, presumivelmente, o lugar me tinha sido oferecido 
devido  conhecida incompatibilidade existente entre Cowgill e

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os dirigentes do M. I. 5. Esperava, no futuro, poder evitar esses desentendimentos. Mas 
quem poderia prever alguma coisa? Aceitaria o lugar com muito mais -vontade se soubesse 
que o M. I. 5, o departamento com que tinha de contactar diariamente, no poria objeces 
 minha nomeao. Ficaria muito mais confiante. Alm disso, a aprovao oficial do M. I. 5 
protegeria efectivamente a minha seco contra futuras crticas vindas daquele 
departamento.

Antes de eu ter acabado a minha breve exposio o chefe atingira com evidente agrado o 
seu significado. Era extraordinariamente rpido em descobrir proteces na selva 
burocrtica. Os seus crticos costumavam dizer que s a sua habilidade e tctica lhe 
asseguravam a sobrevivncia no controle, muito disputado, dos fundos 
secretos. Dentro de pouco tempo estava a empregar os meus prprios argumentos com fora 
e convico. Despediu-se de mim calorosamente, dizendo que ia, sem demora, escrever a 
Sir David Petrie (ento chefe do M. I. 5). Deixei-o na esperana de que ele apresentaria a 
idia como sua e, no fundo, talvez quase acreditasse nisso. A seu devido tempo, Petrie 
mandou uma resposta muito amvel. O chefe ficou deliciado e eu tambm.

Ao preparar esta intriga esperava que Cowgill conseguisse libertar-se dela. E conseguiu. 
Logo que soube da minha nomeao, solicitou uma entrevista ao chefe. No tive 
conhecimento do que se passou na reunio, mas nunca mais voltei a ver Cowgill. Em dada 
altura ele propusera vezes de mais a sua demisso, o que foi um erro intil e fatal. Dentro 
de pouco tempo as SecesV e IX estavam reunidas sob a minha direco, pois no havia 
nenhum Cowgill a embaraar-me o caminho. Se ele se tivesse contentado com um pequeno 
perodo de eclipse, encontraria com certeza outro lugar interessante no servio. Mas ele 
apenas estava habituado a posies de comando e, como espero ter demonstrado, era 
orgulhoso e impulsivo. Em suma, um homem grande de mais para os seus talentos.

Dentro de poucos dias. um pouco impacientemente, tenho a impresso, estava a substituir 
Currie. Sugeri ao chefe que, para regularizar a posio da nova Seco IX,

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eu elaboraria um documento, que seria assinado por ele, onde estivessem consignadas as 
atribuies da seco. No me lembro exactamente como estava redigido, mas dava-me 
liberdade, subordinado ao chefe, para colectar e interpretar informaes relativas  
espionagem sovitica e comunista e  subverso em todas as partes do mundo, excepto em 
territrio britnico. Tambm me incitava a manter a mais estreita ligao para troca recproca 
de informaes sobre o assunto com o M. I. 5. O chefe acrescentara uma clusula final: eu 
no deveria, de forma alguma, ter ligaes com o servio secreto dos Estados Unidos. A 
guerra ainda no acabara, a Unio Sovitica era nossa aliada e no havia necessidade de nos 
arriscarmos a uma fuga de informaes confidenciais. E o chefe admitia que o servio 
secreto dos Estados Unidos possibilitasse, em relao aos Russos, uma fuga dessa natureza. 
Era uma situao divertida.

Captulo VII

Da guerra para a paz

Tomar a direco da Seco IX significava mudar-me da Ryder Street para os Broadway. A 
mudana era agradvel por vrias razes. J desde o Vero anterior, em
1943, quando nos mudmos de St. Albans para Londres, eu gozava de fcil acesso ao centro 
do S.I.S. Agora estava instalado mesmo nesse centro, na melhor posio possvel para 
penetrar nos meandros da poltica interdepartamental e bem colocado para descobrir, por 
trs das caras que passavam por mim no corredor, as suas verdadeiras personalidades. 
Tambm, apenas o St. James Park me separava do pessoal da contra-espionagem do O.S.S. 
Quando a Seco V mudou para Ryder Street, Pearson e os seus colegas tinham, com a 
proteco de Cowgill, estabelecido os seus escritrios no mesmo edifcio. Aborreciam-nos 
com as suas politiquices. apesar de, por vezes, nos divertirem. Graham Greene recordou, 
num artigo de jornal, que a sala de arquivos do O.S.S. nunca estava fechada. Para benefcio 
dos agentes conscienciosos de servio durante a noite, Pearson, ainda com a aprovao de 
Cowgill, adornara-a com o seguinte e esclarecedor letreiro: Esta sala de arquivos  
considerada segura. Como eu j expliquei, tinha ordens para no me imiscuir nos assuntos 
americanos e Pearson sabia-o perfeitamente. Contudo, isso no o impedia de me fazer 
ofertas repetidas e embaraosas de hospitalidade. Era melhor para mim estar completamente 
fora do seu caminho, no alto do stimo andar dos Broadway Buildings.

De princpio estava absorvido com problemas corriqueiros: pessoal, espao para o escritrio, 
equipamento, etc. O leitor pode pensar que isto significava encarar o problema ao contrrio; 
eu devia considerar primeiro o trabalho a efectuar e procurar depois o pessoal para se 
encarregar dele. Mas essa linha de pensamento no tem em conta a Lei de Parkinson. No 
tinha dvida de que, por muito pessoal que eu contratasse, poderia sempre

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aumentar a amplitude do problema, de modo a dar que fazer a todos. O importante era 
recrutar os agentes de valor que estavam disponveis. Tendo j em vista as economias do 
tempo de paz, seria muito mais fcil despedir pessoal a mais que encontrar gente para 
preencher as vagas que pudessem aparecer.

A Seco IX de Currie era formada por quatro funcionrios: ele prprio, duas raparigas e um 
caso patolgico (homem). Uma das raparigas, Wren, era muito simptica e conservei-a. A 
outra era uma excntrica, que tinha vindo dos servios de censura. Fiquei aliviado quando, 
pouco depois da minha chegada, queimou a pupila a observar um eclipse do Sol e teve de 
se ir embora.  caso quase patolgico era Steptoe, de Xangai, que tinha percorrido todo o 
Oriente ao servio do S.I.S. entre as duas guerras. Como isso aconteceu ainda hoje  para 
mim um mistrio: era difcil acreditar que ele se podia conservar no mesmo servio mais de 
uma semana. Steptoe fora impingido a Currie por Vivian, possivelmente em virtude dos 
velhos tempos. Mas eu no me importava de contrariar Vivian nesse campo; no fundo este 
tratara apenas dos seus interesses. Felizmente Steptoe j encaminhara a sua vida. Por 
sugesto de Vivian fora mandado de visita s nossas bases no Mediterrneo para espalhar a 
notcia da criao da Seco IX. A viagem foi um terrvel desastre porque Steptoe, um 
veterano, comportara-se de uma maneira esquisita, revelando uma tendncia to ostensiva 
para falar por meias palavras que muitos dos nossos agentes tiveram dificuldade em 
acreditar que ele pertencia realmente ao servio secreto. Chegaram aos Broadway uma 
srie de telegramas e de cartas, pondo em dvida a validade das suas credenciais. com estas 
provas a confirmar as minhas ideias, tive pouca dificuldade em convencer o chefe de que a 
seco pouco perderia se se dispensasse Steptoe, que foi mandado embora com um prmio 
de consolao, sob a forma de uma das imponentes cartas de Vivian, louvando os seus 
servios e lamentando a maneira desagradvel como fora despedido.

No senti a mnima apreenso por perder dois membros da equipa j exgua de Currie. O 
recrutamento de pessoal

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tornava-se mais fcil  medida que os exrcitos aliados avanavam na Europa. Os agentes 
que trabalhavam nas seces de ataque do Intelligence Service viam os objectivos da sua 
ofensiva a recuarem rapidamente. Os especialistas da contra-espionagem que lutavam 
contra o servio secreto do Eixo percebiam que dentro de algum tempo pouco teriam que 
fazer. Encontrei-me numa posio invejvel e fora do comum. Em vez de ter de lutar para 
arranjar pessoal era adulado por possveis recrutas da minha seco, alguns dos quais no 
tinha a mnima inteno de contratar. Resumindo, era um mercado bem fcil em relao ao 
trabalho a efectuar.

O campo de recrutamento estava dividido em quatro categorias: primeiro os inteis, com 
quem no perdi tempo; depois, e entre eles alguns dos melhores, os que queriam apenas 
voltar para os seus empregos de antes da guerra, quanto mais depressa melhor, e apesar de 
eu tentar convenc-los a mudarem de ideias e a ficarem, que me lembre, s num caso fui 
bem sucedido; a seguir havia uma quantidade de agentes experientes, j mais velhos, que 
estavam ansiosos por se sentarem s suas secretrias, ganhando o seu salrio durante mais 
algum tempo e pensando na reforma; por fim, existiam cerca de vinte homens da minha 
idade, com cinco anos a mais ou a menos, que tomaram gosto pelo trabalho efectuado 
durante a guerra e estavam dispostos a fazerem dele uma carreira.

Era a quarta categoria a que mais me atraa e  qual prestei a maior ateno. Quando a 
seco finalmente tomou forma, a maior parte dos agentes tinha menos de quarenta anos. 
Mas era m idia, evidentemente, encher uma seco inteira com pessoal da mesma idade, 
tendo em vista os problemas de promoo e antigidade que se levantariam. Por isso 
contratei tambm uma quantidade de homens mais velhos, que se reformariam da a pouco 
tempo e deixariam lugares livres para serem preenchidos pelos mais novos. O mais 
conhecido dos mais velhos da primeira Seco IX era Bob Carew-Hunt, a quem confiei a 
elaborao de artigos de fundo sobre o comunismo. Ele tinha por seu lado a grande 
vantagem de ser erudito,

117

embora no fosse articulista. Em devido tempo, Bob tornou-se uma autoridade reconhecida 
no assunto, e procuravam-no muito, como conselheiro e conferencista, em Inglaterra e nos 
Estados Unidos. Mais tarde, disse-me que tencionara dedicar-me o seu primeiro livro sobre 
o assunto: The Theory and Practice of 
Communism, mas que pensara que uma tal homenagem me embaraaria.  
verdade que ela me criaria realmente dificuldades por umas quantas razes.

Estava no meio da minha campanha de recrutamento quando Vivian me disse que Jane 
Archer estava livre, sugerindo que seria uma excelente conquista para a Seco IX. A 
sugesto chocou-me bastante, especialmente porque no conseguia encontrar nenhuma 
razo plausvel para lhe resistir. Depois de Guy Liddell, Jane era talvez o melhor agente do 
servio secreto que alguma vez trabalhara no M. I. 5. Tinha passado grande parte da sua 
vida, que sempre empregara inteligentemente, a estudar a actividade comunista em todos os 
seus aspectos e fora ela quem interrogara o general Krivitsky, um oficial do servio secreto 
do Exrcito Vermelho, que fugira para o Ocidente em 1937, para, desiludido, se suicidar 
alguns anos mais tarde nos Estados Unidos. Soubera por intermdio dele informaes 
esclarecedoras acerca de um jovem jornalista ingls que o servio secreto sovitico mandara 
para Espanha durante a guerra civil. E assim, estava envolvida no mistrio da minha vida. 
Felizmente, Jane era uma mulher como eu gosto, com um corao duro e uma lngua afiada. 
Tinha sido posta fora do M. I. 5 por ter aproveitado a oportunidade, numa reunio de alto 
nvel, para insultar gravemente o brigadeiro Harker, que, durante muitos anos, preenchera o 
lugar de director adjunto do M. I. 5 com uma graa requintada e pouco mais. Quase a seguir 
a ela estar connosco houve uma crise na Grcia, envolvendo o general Plastiras. Jane 
deliciou-me com um trocadilho a respeito do nome do general e eu tive a noo, naquele 
momento, de que fora uma ptima ideia ter recrutado Jane para a minha seco, pois ela, 
sem dvida, seria uma pssima inimiga.

Para manter Jane ocupada, encarreguei-a do trabalho

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mais importante sobre a actividade comunista que tnhamos nessa altura na seco. Consistia 
num considervel volume de comunicaes pela rdio relativo aos movimentos de 
libertao nacional na Europa Oriental. Oferecia uma imagem compreensiva e absorvente 
da eficincia conscienciosa e da devoo dos comunistas e dos seus aliados na luta contra o 
Eixo. O apoio sistemtico e macio que era oferecido a esses movimentos pela Unio 
Sovitica dava matria para pensar. Apesar dos esforos do O.S.S. e do S.O.E. para comprar 
apoio poltico nos Blcs, entregando armas, dinheiro e material, os movimentos de 
libertao nacional recusavam-se a comprometer-se. Teriam sem dvida aceite ajuda do 
prprio Diabo  mas sem se ligarem a ele.

Alm de Bob Carew-Hunt e Jane Archer, com as suas tarefas especializadas, a seco 
estava dividida nas subseces regionais convencionais. Apesar de, nessa poca, haver 
pouco trabalho para o servio secreto, essa escassez apresentava at as suas vantagens. 
Poucos agentes do servio sabiam nessa altura, alguma coisa sobre o comunismo, e o que 
tinham a fazer era voltar para a escola a fim de aprender os elementos bsicos acerca da 
questo, enquanto ns nos mantnhamos em dia com os acontecimentos correntes atravs do 
estudo de material que pertencia ao domnio pblico, tal como a imprensa comunista e as 
emisses censuradas dos pases comunistas.

As poucas informaes secretas que conseguamos eram quase sempre falsas. Obtivemos 
quantidades enormes de notcias a respeito da Frana, que nos foram transmitidas por uma 
senhora chamada Poz, que se comportara valorosamente durante a ocupao alem. Tive a 
honra de me encontrar com ela uma vez, e revelou-se uma frustrada, com uns olhos que se 
dilatavam prodigiosamente quando falava no assunto. Dizia ter um agente no Comit 
Central do Partido Comunista Francs, de quem lhe vinham as suas informaes. Estas 
davam a entender que os comunistas franceses nunca agiam sem receberem instrues 
directas da Embaixada sovitica em Paris. Essa idia era sem dvida aceitvel para uma 
reaccionria elegante como Poz;

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mas a linguagem dos relatrios era a da Action Franaise, no a do 
Humanit ou de qualquer rgo semelhante. Levou muito tempo antes de que 
nos apercebssemos de que era uma fraude e, entretanto, o S.I.S. ia pagando essas 
informaes. Os principais beneficirios da operao foram os agentes do S.I.S., que, por 
motivos polticos, queriam que os relatrios circulassem e se acreditasse neles, quer fossem 
falsos ou no.

J descrevi como as relaes periclitantes entre o S.I.S. e o M. I. 5 contriburam para a 
minha nomeao para chefe da Seco IX. Precisava agora de continuar o meu trabalho e 
colocar as nossas relaes numa base nova e amigvel. O homem que desempenhava 
funes anlogas s minhas no M. I. 5 era Roger Hollis, que dirigia a seco encarregada de 
investigar os assuntos soviticos e comunistas. Era uma pessoa amvel, cautelosa, que 
entrara para o M. I. 5 vindo da British-American Tobacco Company, que representara na 
China. Apesar de lhe faltar a dose de irresponsabilidade que eu acho essencial (com 
moderao) em todos os seres humanos, dvamo-nos bem. e dentro de pouco tempo 
trocvamos informaes sem reservas. Ambos trabalhmos no Joint Intelligence Sub-
Committee, que tratava de assuntos relacionados com os comunistas, e nunca deixvamos 
de redigir juntos resumos para apresentar aos representantes menos bem informados dos 
departamentos do servio e do Foreign Office.

Apesar de Hollis pouco ter conseguido em relao  actividade sovitica, lograra obter uma 
idia do que se passava no Partido Comunista britnico com o simples expediente de 
instalar microfones no quartel-general deste, em King Street. O resultado foi um paradoxo 
delicioso. As provas conseguidas atravs dos microfones mostravam claramente que o 
Partido empregava todo o seu esforo na guerra, de tal maneira que mesmo Herbert 
Morrison, que estava ansioso por sangue comunista, no conseguia encontrar meios legais 
de o suprimir.

Nos princpios de 1945, quando a seco j estava adequadamente instalada e com o quadro 
de pessoal completo, chegou a altura de ir visitar algumas pessoas das nossas bases. O meu 
objectivo era reparar, em parte, o

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mal causado por Steptoe e discutir com os chefes a maneira de obter as informaes 
necessrias  Seco IX. Realizei com facilidade a primeira parte da minha misso, dizendo 
simplesmente a todos que a primeira coisa que fizera quando tomara conta da seco fora 
afastar Steptoe  uma notcia que mereceu aprovao geral. Mas a segunda parte tornava-se 
mais difcil. O nosso alvo era invisvel e inaudvel; tanto quanto nos dizia respeito, o servio 
secreto sovitico podia nunca ter existido. Como resultado das nossas discusses tomou-se 
apenas a deciso, um tanto ou quanto vaga, de continuar a vigiar o pessoal diplomtico 
sovitico em servio na Europa Oriental e os membros dos partidos comunistas locais. 
Enquanto chefiei a seco nem uma s operao concebida conscienciosamente contra os 
servios soviticos resultou. S progredimos devido a informaes que, por acaso, caam em 
nosso poder. com uma ou duas excepes, que referiremos mais tarde, estes acasos 
tomavam a forma de desertores do servio secreto sovitico. Eram aqueles que escolhiam 
a liberdade, como Kravchenko, que, seguindo o exemplo de Krivitsky, acabou por se 
suicidar. Mas era a liberdade que eles procuravam ou a fortuna?  notvel que nenhum 
deles quisesse marcar a sua posio e arriscar a vida pela liberdade. Todos procuraram a 
segurana.

Estas viagens, que abrangeram a Frana, a Alemanha, a Itlia e a Grcia, foram, em certa 
medida, instrutivas, porque me deram uma viso dos vrios tipos da organizao do S.I.S. 
Mas, depois de cada viagem, conclua, sem emoo, que seriam precisos anos para 
estabelecer uma base real de trabalho contra a Unio Sovitica. Como conseqncia 
daquelas viagens, retive mais facilmente na minha memria os acidentes triviais ocorridos 
que as decises tomadas e os resultados prticos obtidos.. Recordo, por exemplo, o copo de 
Flit gelado que eu bebi em Berlim (o meu hospedeiro tinha-mo oferecido 
convencido de que era Niersteiner) e a minha visita a Roma, que no 
resultou devido a uma confuso interminvel estabelecida pelo funcionrio do 
controle de passaportes; tinha direito ou no a um carro oficial? Em Bari, 
colaborei na procura de um espantalho que se atirasse de

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pra-quedas na Jugoslvia; mas ele, em vez de partir o pescoo, cobriu-se de glria. Em 
Larissa. vi uma das maravilhas atmosfricas em que a Grcia  to prdiga: duas trovoadas 
separadas e distintas, uma sobre Cissa. a outra sobre Olimpos, enquanto  nossa volta a 
plancie da Tesslia ondulava calmamente debaixo do cu muito azul. Entretanto, quando 
voltei aos Broadway, os acontecimentos seguiam um caminho que deviam absorver grande 
parte da minha ateno.

A guerra tinha afastado definitivamente do servio secreto os amadores que nele 
trabalhavam apesar de restarem alguns sobreviventes, que demoravam a morrer. com a 
vitria na Europa, os efectivos utilizados durante a guerra foram logo reduzidos e todo o 
servio teve de ser reorganizado. Como chefe de uma seco, era agora olhado como um 
agente importante  especialmente porque a minha seco tinha mais possibilidades de 
aumentar que qualquer outra. O inconveniente  que fiquei afogado em burocracia e planos 
de aco. Havia sem dvida maneira de administrar organizaes e de criar planos de aco, 
mas ainda no a tnhamos encontrado. Assim, passei uma grande parte das manhs e das 
tardes em reunies, embora prestasse pouca ateno ao que se discutia.

Como este livro  principalmente uma reportagem das minhas experincias, s 
ocasionalmente me referirei aos escales mais altos do servio, quando as suas 
intervenes, por vezes incontveis, afectavam o meu trabalho. Antes de descrever a 
reorganizao do S.I.S., que se realizou depois da guerra,  necessrio deitar um olhar mais 
de perto aos meus superiores, a comear pelo chefe, agora o major-general Sir Stewart 
Menzies.

Parece-me que tornei claro que penso no chefe com uma afeio que perdurou. No era, 
em qualquer sentido da palavra, um grande agente secreto. O seu equipamento intelectual 
no era impressionante, a sua viso do mundo e o seu conhecimento dele era o que se 
poderia esperar de um homem enclausurado nos escales superiores da organizao 
britnica. No meu prprio campo, a contra-espionagem, as suas atitudes eram de menino de 
escola  bares, lutas e louras. Mas era este trao 

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persistentemente infantil  brilhando atravs das enormes responsabilidades que a guerra 
mundial colocava nos seus ombros e da ameaa sempre presente de ser chamado por 
Churchill durante uma das terrveis ms disposies nocturnas deste  que era o seu encanto. 
A sua fora real residia numa percepo sensitiva das correntes polticas de Whitehall, numa 
habilidade para percorrer o seu caminho atravs dos corredores complicados do Poder. 
Agentes assaz eficientes, que o conheciam muito melhor, falavam da sua intuio quase 
feminina  e com isto apenas quero dizer que ele era um homem completo.

A habilidade do chefe neste aspecto tornou-se conhecida do S.I.S. quando ele repeliu um 
assalto preparado por trs dirigentes do departamento de informaes, colegas seus no Joint 
Intelligence Committee. O fulcro da sua queixa era que as informaes secretas obtidas do 
S.I.S. eram insuficientes e tinha de se fazer qualquer coisa. Havia, na realidade, algo de 
verdadeiro nas suas queixas, pois nunca houve um servio secreto que no pudesse ser 
melhorado. Mas o chefe sabia que seria intil contestar as acusaes que lhe faziam ponto 
por ponto. A sua fraqueza bsica era ter de olhar muitas vezes para trs. No seriam poucos 
os funcionrios superiores que invejavam o seu lugar; um deles foi o almirante Godfrey, um 
lobo do mar, vermelhusco, de mau feitio, que dirigiu durante algum tempo a Naval 
Intelligence.

O chefe no tinha qualquer inteno de transformar totalmente o seu departamento apenas 
para agradar aos seus opositores. Mas era suficientemente astuto para saber que havia um 
perigo real escondido nos bastidores. Muito caracteristicamente, em vez de o enfrentar, 
serviu-se das suas habituais manobras. Concordando com muitas das crticas dos seus 
colegas, convidou cada um deles a dispensar um oficial especialista do seu pessoal. Estes, 
desempenhariam o cargo de directores adjuntos e teriam livre acesso a todos os aspectos do 
trabalho do S.I.S. relacionados com o seu campo de aco. Estariam  vontade para fazerem 
toda a espcie de recomendaes que desejassem, s quais seria prestada a maior ateno e 
considerao possvel. O chefe no tinha dvida, ou pelo menos assim o dizia, de que com 
oficiais especialistas

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dos Military, Naval e Air Intelligence Services junto dele, estes departamentos seriam muito mais bem 
fornecidos de informaes.

Era uma oferta elegante, que no podiam recusar, e era tambm astuta. O chefe sabia bem que nenhum dos 
directores dos citados servios, em seu perfeito juzo, prescindiria de um oficial de valor em tempo de guerra. 
Podiam esperar, com a maior confiana, que os oficiais dispensados para o S. I. S. seriam aqueles que no 
fariam diferena, se  que no fossem completamente inteis. Desde que estivessem instalados nos Broadway 
Buildings poderiam ser facilmente afastados do caminho. Penso que tinha resolvido a questo a seu favor, e 
os acontecimentos assim o provaram.

Recebemos ento os trs directores adjuntos, que foram prontamente colocados no nosso servio. O director 
adjunto do exrcito era um certo brigadeiro Beddington. Que eu saiba, nunca fez uma nica recomendao 
em proveito das informaes militares. Dentro de poucas semanas estava totalmente absorvido pelo 
complicado problema de conferir, e sempre que possvel diminuir, as patentes dos oficiais do exrcito 
valendo-se do S.I.S. Como civil, no tive contactos com ele, e por isso no posso dizer se havia alguns restos 
de encanto pessoal por trs da sua cara gorda. Mas passou-se um facto que me sugeriu a convenincia de me 
manter fora do seu alcance. Naqueles dias, em que a roupa era racionada, eu, para poupar os cotovelos dos 
meus dois ou trs fatos civis, usava no escritrio o dlman do meu uniforme de correspondente de guerra. 
Entrei uma vez no elevador, assim vestido, juntamente com Beddington. No nos falvamos  ele era um 
homem deste gnero , mas notei um par de olhos muito esbugalhados passeando pelo meu dlman, acabando 
por se deter nos stios onde deviam estar os gales. Dentro de meia hora recebi a visita de um dos 
subalternos de Beddington, que me pediu pormenores acerca da minha carreira militar. Expliquei-lhe como 
tinha arranjado o dlman e porque estava no direito de o usar sem gales. Foi a ltima vez que ouvi falar de 
Beddington.

O representante da Fora Area, comodoro do ar

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Payne, era pior. se possvel. Passaram imediatamente a chamar-lhe Lousy Payne * e os nossos melhores 
elementos uniram-se para se libertarem dele. No precisvamos de nos termos ralado, porque o prprio 
chefe se mexeu bem depressa com a mesma finalidade. Encontrou-se uma desculpa para Payne ir visitar os 
Estados Unidos, onde a sua misso, prolongada muito a propsito, o levou para o Oeste, para a Califrnia  a 
dar crdito a alguns, para Hollywood. Dizia-se que Claude Dansey redigira um telegrama de quatro palavras 
do chefe para Payne: a oeste, a beleza, a leste, o dever, mas  claro que nunca mandaram o telegrama. O 
chefe no tinha razes, quer profissionais quer sociais, para querer voltar a ver a cara de Payne.

O director adjunto da Marinha, comandante Cordeaux, era um bom oficial e o melhor dos trs comissrios. 
Fora um futebolista de talento que jogara no Grimsby Town. com o encorajamento do chefe, em breve se ps 
a dirigir conscienciosamente, apesar de um pouco rigidamente, as operaes do S.I.S. na Escandinvia e 
arredores. Era bom ver pelo menos um dos comissrios interessar-se pelo trabalho do nosso servio ao ponto 
de ele prprio fazer qualquer coisa. Segundo o ponto de vista do chefe, era bastante conveniente que 
Cordeaux. limitado a este pequeno canto da Europa do Norte, estivesse mal colocado para promover 
modificaes dentro do S. I. S.

Pouco depois de os directores adjuntos se terem instalado nas suas respectivas esferas obscuras e 
inofensivas, voltou a haver acusaes dos altos escales. J mostrei como a estrela de Vivian se apagava 
rapidamente. Tornou-se absurdo que ele continuasse com o ttulo de chefe adjunto. Puseram-no, por isso, de 
lado e criaram especialmente para ele uma sinecura, atribuindo-lhe o cargo de conselheiro da poltica de 
segurana. Agarrou-se a ele durante anos. sem orgulho, escrevendo longas minutas que ningum lia. 
esperando em vo aposentar-se com uma condecorao. O lugar dele foi ocupado por Dansey,

*    Trocadilho com payne e pain (dor).  A traduo seria Dor Horrvel.

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mas, para acalmar os sentimentos de Vvian, que se feriam muito facilmente. Dansey no 
ficou chefe adjunto, mas sim subchefe. A posio anterior de Dansey, como chefe 
assistente, foi preenchida por um intruso inconcebvel e de pequena estatura, o general 
Marshal-Comwall. Na altura da sua entrada no servio era o general mais antigo do Exrcito 
britnico. Se no figura de uma forma mais destacada nesta narrativa  porque a sua 
influncia foi apenas ineficiente, quando no totalmente infeliz. Foi ele quem por meio de 
rodeios inexplicveis, manteve uma vendetta longa e estpida contra o 
funcionrio do controle de passaportes em Roma, por causa do seu desprezvel 
carro.

A paz em breve trouxe caras novas. Marshal-Comwall partiu sem deixar saudades e quase 
sem se ter dado por ele. Dansey retirou-se com uma condecorao de Cavaleiro para 
experimentar, numa rpida sucesso, os estados de casamento e morte. Percebi, quando 
soube da sua morte, que gostara realmente dele. Apesar de a sua influncia no servio ter 
sido abominvel, fez-me impresso pensar que o seu esprito impertinente estava calado 
para sempre. O lugar de Dansey, subchefe, foi preenchido pelo general Sinclair, que 
tambm no pertencia ao servio e que fora anteriormente director do Military Intelligence. 
O chefe, ao ouvir crticas sobre a sua nomeao, observou com a sua habitual ironia: Ora: 
se eu acabei com as crticas do Ministrio da Guerra durante cinco anos. A vaga deixada 
pela partida de Marshal-Comwall foi preenchida por outro estranho, o comodoro do ar 
Easton.

Em breve senti por estes dois recm-chegados um respeito que nunca experimentara pelos 
seus antecessores. Sinclair, apesar de no ser muito favorecido com dons de inteligncia 
(nunca se vangloriou deles) era humano, enrgico e to recto que se tornava impossvel no 
o admirar. Easton era muito diferente.  primeira vista dava a impresso de ser lento e 
pretencioso, mas era uma iluso. A sua fora estava num crebro de uma claridade notvel, 
mas incapaz de grandes voos subtis. Encarando, Sinclair e Easton de tempos a tempos, 
como antagonistas, no podia deixar de os comparar metaforicamente com

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uma moca e um estoque No tinha medo da moca. podia evitar-se com facilidade, mas a viso repetida do 
estoque de Easton revoltava-me o estmago; e. contudo, estava condenado a ter de contactar muito com ele.

Antes destas ltimas nomeaes, fizera-se uma tentativa sria para dar a toda a organizao uma base slida. 
J falei de como o servio antes da guerra tinha sido casual e perigosamente um assunto de amadores. No 
havia um sistema regular de recrutamento, de treino, de promoo ou de segurana no fim da carreira. O 
chefe contratava quem podia e quando podia, e todos os contratos estavam sujeitos a terminar em qualquer 
altura. Nestas condies era impossvel atrair um fluxo regular de recrutas com o nvel necessrio. No 
admirava que o pessoal do servio fosse muito heterogneo, indo do bom ao razovel e ao totalmente mau. A 
guerra fora um acordar rude. Os efectivos do servio tiveram de ser aumentados e muita gente de valor 
passou pelas nossas fileiras, deixando idias  medida que se iam embora. Mas a reputao do servio fora 
conseguida atravs de uma srie de improvisos, sob a tenso diria da guerra. Quase tudo o que se fazia 
podia executar-se melhor, se houvesse tempo para pensar. Chegara agora o momento oportuno. O fim da 
guerra na Europa aliviara-nos da presso da necessidade de resultados imediatos e o Governo ainda tinha 
conscincia de que representava um bom servio de informaes. Era necessrio usar os restantes meses de
1945 para dotar o servio com uma nova estrutura antes de o Governo se afundar na letargia do ps-guerra. 
O prprio chefe tinha com certeza pensado da mesma maneira e, quando soube que no servio havia tambm 
muito quem defendesse essa idia, nomeou uma comisso para o aconselhar sobre o assunto. O chamado 
Comit para Reorganizao do S.I.S. comeou a funcionar em Setembro de 1945.

Os principais leaders do movimento haviam sido Arnold-Forster e o capito Hastings, R. N., um 
oficial especialista e muito influente da Government Code & Cypher School. Hastings, apesar de no ser 
membro do S.I.S., tinha um legtimo interesse na melhoria da actividade do nosso servio dado que a guerra 
mostrara a

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necessidade de uma ligao estreita entre os criptgrafos e o S. I. S. A sua nomeao teve tambm a 
vantagem de trazer um esprito jovem aos debates do comit. David Footman tambm participou, 
para tomar conta das implicaes polticas do servio, enquanto o comandante Cordeaux representava as 
Seces G. Eu fui igualmente convidado a colaborar, no por ter qualquer aptido para trabalho de 
comit (que detestava), mas porque, alm de Vivian, era o agente mais antigo da contra-espionagem. 
O nosso secretrio era Alurid Denne. um funcionrio cuidadoso, para no dizer escrupuloso, em cuja 
imparcialidade se podia confiar totalmente, porque tinha um lugar confortvel a sua espera na companhia 
petrolfera Shell.

A maioria queria que Arnold-Forster presidisse aos trabalhos. Alm da sua fora de vontade, do seu 
entusiasmo e do seu esprito lcido, adquirira, como principal elemento do nosso estado-maior, um 
conhecimento mais profundo que qualquer de ns da organizao como um todo. Mas o chefe, temendo a 
inteligncia de Arnold-Forster e desejando manter as propostas de reforma dentro de uns certos limites, 
reservara-nos uma surpresa. com grande espanto nosso anunciou-nos que o presidente da assembleia seria 
Maurice Jeffes, director do controle de passaportes. Como funcionrio responsvel pelos vistos, 
Jeffes estava frequentemente em contacto com a gente da contra-espionagem, mas o seu conhecimento geral 
do servio, das suas possibilidades e limitaes, deixava muito a desejar. Quanto s suas capacidades no me 
parece que ele prprio pretendesse ser mais do que um funcionrio capaz, embora apagado.

Ao dizer que Jeffes era uma pessoa que passava despercebido devo explicar que uso a expresso num 
sentido puramente metafrico, pois alguns anos antes fora vtima de um acidente singular. Um mdico que o 
vacinou contra determinada doena enganara-se no soro. donde resultou que a cara de Jeffes ficou de um 
azul-purpurino muito estranho. O tratamento era aparentemente irreversvel, e Jeffes foi obrigado a ficar 
com aquela cor de metal de espingarda. Durante uma visita a Washington o pobre homem exasperou-se 
quando

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a gerncia de um hotel tentou cancelar a sua marcao, alegando que ele era de cor. Para 
ser sincero, Jeffes pouco fez para interferir no curso dos nossos debates, e nunca usou da 
sua autoridade como presidente. Era impossvel no gostar dele e em breve nos habitumos 
 sua presena espectacular  cabeceira da mesa.

Durante os meses seguintes muito do meu tempo foi absorvido pelo comit. As 
nossas deliberaes tornavam-se agora irremediavelmente acadmicas e no merecem uma 
ateno demorada. No entanto, alguns comentrios talvez esclaream acerca dos problemas 
gerais que a reorganizao do S.I.S. tinha de enfrentar. O nosso primeiro trabalho foi 
livrarmo-nos de certas excrescncias que ainda subsistiam. Durante a guerra, os sectores 
financeiro e administrativo trabalhavam separadamente, sem a coordenao necessria. Por 
outro lado no que respeita s Seces G a situao era confusa, pois as que tinham a seu 
cargo os assuntos da Europa Ocidental estavam sob a direco de Dansey. dependendo as 
outras directamente do chefe. Vendo o problema por outro lado, Dansey era nominalmente 
subchefe do servio como um todo, mas na realidade s estava interessado na obteno de 
informaes na Europa Ocidental. Era evidente que toda a estrutura do servio necessitava 
de uma mudana drstica de orientao.

Contudo, antes de termos podido tratar destes primeiros problemas, tnhamos de resolver 
um assunto de importncia fundamental. Deveria a diviso primria do servio ser feita em 
linhas verticais, com organizaes regionais responsveis pela obteno, tratamento, 
valorizao e circulao de informaes relativas s respectivas regies? Ou deveria, pelo 
contrrio, ser feita em linhas horizontais, entre a obteno de informaes, por um lado, e o 
seu tratamento, valorizao e circulao, por outro? Confesso que ainda no sei qual  a 
resposta certa para esta pergunta, mas naquela altura os meus interesses pessoais obrigavam-
me a tomar posio. Se se adoptasse a soluo vertical, o trabalho contra a Unio Sovitica e 
o comunismo em geral seria dividido em regies, e era impossvel que uma s pessoa 
pudesse abranger todo o campo. Insisti, por isso, com toda a minha argumentao,

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na soluo horizontal, na esperana de conservar, pelo menos naquela altura, todo o campo 
anti-sovitico e anticomunista debaixo da minha directa superviso.

Tinha em David Footman um valioso aliado a favor da minha teoria. Na realidade foi ele, 
com a sua maneira seca e incisiva, quem tomou parte activa na luta, e eu auxiliava-o sempre 
que era necessrio. O meu argumento, resumindo,  que a contra-espionagem devia ser una 
e individual. Um caso ocorrido no Canad poderia esclarecer um outro passado na Sua 
(como aconteceu logo a seguir), um agente que estava a trabalhar na China podia aparecer 
no Peru pouco tempo depois. Era, portanto, essncia! estudar o assunto numa base mundial. 
Servi-me tambm do argumento menos vlido, apesar de no ser completamente 
desprovido de bases, de que a obteno de informaes deveria conservar-se separada da 
sua valorizao, porque os agentes que as obtinham tendiam naturalmente para ver cisnes 
nos seus gansos. Havia evidentemente muito que dizer a respeito dos dois aspectos do 
problema, mas como os adeptos da diviso vertical estavam mal representados no 
comit, adoptmos finalmente a soluo horizontal. No entanto, existia um 
colega nosso que podia ter virado as coisas contra ns, mas eu, embora com alguma 
dificuldade, conseguira que ele fosse excludo da reunio.

Depois de esta questo de princpio estar decidida, o resto era um trabalho simples, mas 
aborrecido. Recomendmos a criao de cinco directorados com igual categoria: 1. Finanas 
e Administrao; 2. Produo;

3. Requerimentos, assim chamado  porque,  alm de julgar e valorizar informaes e as 
fazer circular para os departamentos do Governo, entregava ao Directorado de Produo os 
requerimentos desses departamentos;

4. Treino e Desenvolvimento, relacionado com o desenvolvimento   de   processos   
tcnicos   para   auxlio   da espionagem; 5. Planeamento de Guerra.

Crimos um sistema de hierarquia no servio, com ordenados fixos e penses da reforma e 
atribumos ao Directrio de Finanas e Administrao a responsabilidade de uma recruta 
sistemtica em competio com o servio civil normal e com a indstria, prestando

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particular ateno aos graduados das universidades. Quando o nosso volumoso relatrio 
estava pronto para ser apresentado ao chefe, ficmos seguros de que, na realidade, 
havamos criado as bases de uma organizao a srio, com probabilidades de poder tentar 
qualquer jovem competente a encar-la como uma carreira de futuro.

O chefe no aceitou todas as nossas ideias. Havia ainda um grande nmero de problemas 
que no tinham sido abordados no nosso plano, mas que ele no podia resolver facilmente. 
Contudo, pouco a pouco, o esquema estabelecido acima foi adoptado como o esquema 
bsico do servio. Apesar de todas as suas insuficincias era um grande melhoramento em 
relao ao passado. Quanto a mim, tinha muitas razes para estar satisfeito. Uma das 
decises menos importantes do comit fora a abolio da Seco V.

Captulo VIII

O caso Volkov

Vou agora falar do caso Volkov, que me proponho relatar em pormenor por causa do seu 
interesse intrnseco e porque quase ps fim a uma carreira prometedora. Apesar de ter 
durado pouco tempo, comeou em Agosto e terminou em Setembro de 1945, proporcionou-
me um Vero memorvel, pois deu-me a possibilidade de visitar pela primeira vez Roma, 
Atenas e Istambul. Mas a minha agradvel estada em Istambul foi afectada pela ideia, que 
me ocorria com frequncia, de que este talvez fosse o ltimo Vero, que me levou ao 
Bsforo, mostrou ser de bem difcil resoluo.

Mal me acabara de sentar  secretria numa manh de Agosto quando o chefe me chamou. 
Estendeu-me um monte de papis e disse-me que os lesse. O primeiro era uma carta de 
Knox Helm, que prestava servio na Embaixada britnica na Turquia para o Foreign Office. 
Chamava a ateno para os embargos e pedia instrues. Os embargos eram uma 
quantidade de minutas que tinham circulado entre a Embaixada britnica e o Consulado-
Geral, donde emergiu a histria que a seguir se conta.

Um certo Konstantin Volkov, um vice-cnsul ligado ao Consulado-Geral sovitico em 
Istambul, tinha ido ter com o Sr. Page, que desempenhava idntico cargo no Consulado-
Geral britnico, e pedira asilo na Inglaterra para ele e para a mulher. Dizia que, apesar de 
ser nominalmente vice-cnsul, era na realidade agente do N.K.V.D. Afirmou que a sua 
mulher estava num estado de nervos deplorvel e Page notou que o prprio Volkov no 
parecia propriamente nenhum rochedo. Em apoio do seu pedido de asilo, Volkov prometeu 
revelar pormenores do quartel-general do N. K. V. D., onde ele trabalhara aparentemente 
durante muitos anos, e tambm da rede sovitica e dos agentes que operavam no 
estrangeiro. Dizia ainda saber os nomes de trs agentes soviticos que trabalhavam em 
Inglaterra. Dois deles

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estavam no Foreign Office e um era chefe de uma organizao de contra-espionagem em 
Londres. Depois de ter entregue a sua lista de informaes, recomendou com a maior 
veemncia que no comunicassem nada para Londres por meio de telegramas, porque os 
Russos haviam decifrado uma grande variedade de cifras inglesas. O resto dos papis tinha 
pouco interesse, continha s comentrios depreciativos acerca de vrios membros da 
Embaixada, alguns bastante impertinentes. A Embaixada teve em conta a recomendao de 
Volkov a respeito das comunicaes e mandou os documentos para Inglaterra, devagar, mas 
com segurana, pelo correio. Assim s mais de uma semana depois de Volkov ter 
contactado com Page  que o material foi examinado por algum competente para avaliar a 
sua importncia.

Esse algum era eu; e o leitor no me pode acusar de me vangloriar quando disse que era 
realmente competente para julgar da importncia do material: dois agentes soviticos no 
Foreign Office e um na chefia de uma organizao de contra-espionagem em Londres! 
Fiquei a olhar para os papis mais tempo do que era necessrio para ordenar os meus 
pensamentos. Rejeitei a ideia de sugerir que tomssemos precaues, pois tudo podia ser 
apenas uma provocao. Era intil por agora, e podia comprometer-me mais tarde. A nica 
atitude seria enfrentar o caso corajosamente. Disse ao chefe que me parecia que estvamos 
perante algo de grande importncia. Gostaria de dispor de algum tempo para investigar 
sobre o que estava por trs, e, depois de obter mais informaes acerca do assunto, fazer as 
recomendaes apropriadas para se agir. O chefe concordou, dizendo que se apresentasse 
no outro dia logo de manh e que, entretanto, guardasse os documentos estritamente para 
mim.

Levei os papis para o meu gabinete e disse que no queria ser incomodado, a menos que 
se tratasse do prprio chefe. Precisava de estar sozinho. O meu pedido de algum tempo 
para fazer investigaes sobre o que estava por trs era um subterfgio. Tinha a certeza 
de que nunca ouvramos falar de Volkov; e ele, possivelmente apenas fornecera na sua lista 
indicaes vagas, que no ofereciam pistas para uma investigao imediata.

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Apesar disso, tinha muito material para trabalhar. Desde o princpio me parecera que o 
factor tempo era vital. Devido  recomendao de Volkov quanto s comunicaes 
telegrficas, o caso levara dez dias a chegar at mim. Pessoalmente, pensava que os seus 
temores seriam exagerados. As nossas cifras eram baseadas num sistema que se supunha ser 
completamente seguro quando usado convenientemente, e a nossa disciplina de cifra foi 
sempre severa. Mas, se Volkov assim o queria, no havia objeces a pr  sua sugesto. 
Houve uma outra linha de pensamento que em breve me chamou a ateno. O caso era to 
delicado que o chefe insistira em que eu o tratasse pessoalmente. Mas, depois de se terem 
tomado as decises em Londres, toda a aco estaria a cargo dos nossos agentes de 
Istambul. Seria impossvel para mim, devido  lentido das comunicaes pelo correio, 
dirigir as operaes dia a dia, hora a hora. O caso fugiria ao meu controle, com 
resultados imprevisveis. Quanto mais pensava, mais convencido ficava de que eu prprio 
deveria ir a Istambul, para pr em prtica as medidas que ia sugerir ao chefe. Alis, no seria 
preciso reflectir muito para encontrar o modo de agir.

Tratava-se de encontrar Volkov, instal-lo com a mulher numa das nossas casas seguras em 
Istambul e depois lev-lo, com ou sem conivncia dos Turcos, para territrio ocupado pelos 
ingleses no Egipto. Na altura em que meti os papis no meu cofre pessoal e sa dos 
Broadway, decidira que a principal recomendao a fazer ao chefe era que ele me devia dar 
instrues para eu ir a Istambul a fim de tratar do caso no prprio local. Nessa noite trabalhei 
at tarde, pois a situao parecia necessitar de aco urgente e fora dos meios normais de 
aco. No dia seguinte de manh disse ao chefe que, apesar de termos nos arquivos vrios 
Volkov, nenhum deles era o nosso homem de Istambul. Tornei a afirmar que o caso era de 
grande importncia potencial e, devido aos atrasos inerentes s comunicaes pelo correio, 
recomendei, bastante timidamente, que deviam mandar algum com a incumbncia de 
tomar conta do caso no prprio local Era precisamente o que eu estava a pensar, 
respondeu o chefe. Mas, depois de ter alimentado as minhas 

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esperanas, destruiu-as rapidamente. Disse que estivera na noite anterior com o brigadeiro 
Douglas Roberts, em Clubland. Roberts era ento chefe do Security Intelligence (Mdio 
Oriente), a organizao regional do M. I. 5 com base no Cairo. Estava a gozar o fim da 
licena. O chefe ficara bem impressionado com ele e tencionava, segundo me disse, pedir a 
Sir David Petrie, chefe do M. I. 5, que mandasse Roberts para Istambul a fim de se 
encarregar do caso Volkov.

No tinha nada a objectar  sua proposta. Apesar de eu no ter em grande conta as 
qualidades de Roberts, ele possua todos os requisitos para o trabalho em questo. Era um 
oficial superior e o seu uniforme de brigadeiro impressionaria com certeza Volkov. 
Conhecia a rea e trabalhara com o servio secreto turco, cuja cooperao se podia vir a 
mostrar necessria. Acima de tudo falava russo fluentemente  um factor importante a seu 
favor. Desanimado, percorri os outros aspectos do caso com o chefe, especialmente a 
necessidade de arranjarmos a aprovao do Foreign Office para o nosso plano de aco. 
Quando sa o chefe disse-me que estivesse a postos nessa tarde, porque esperava ver Petrie 
e Roberts durante a manh.

Enquanto almoava praguejei intimamente contra o terrvel caso que tornara possvel o 
encontro entre o chefe e Roberts, na noite anterior. Era evidente que eu nada podia fazer. 
Apesar de estar cheio de ansiedade, tinha de aguardar que os acontecimentos seguissem o 
seu curso, esperando que o meu trabalho da noite anterior desse fruto antes de Roberts 
meter o nariz no caso. Mas ainda me estava reservada outra surpresa. Quando cheguei aos 
Broadway o chefe j me mandara chamar.

Parecia bastante desconcertado e contou-me imediatamente o que se passara; logo s 
primeiras palavras percebi que a sorte, contra a qual eu tinha praguejado to amargamente, 
se voltara a meu favor. Roberts, apesar de ser, com certeza, muito corajoso, tinha uma 
averso invencvel a viajar de avio J combinara tudo para voltar de barco, e partia de 
Liverpool na semana seguinte. Nem o chefe nem Petrie conseguiram que ele alterasse

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os seus  planos.  A  situao voltara,  pois, ao ponto de partida.

Primeiramente, pensara que podia manobrar de tal modo a conversa com o chefe que seria 
ele a sugerir-me que fosse a Istambul. Mas o caso Roberts obrigou-me a agir directamente. 
Por isso disse-lhe que, perante a desistncia do brigadeiro, s podia propor ir eu em seu 
lugar. No demoraria muito tempo a pr o meu adjunto ao corrente dos assuntos pendentes 
e podia partir logo que obtivssemos todos os documentos. O chefe concordou, 
visivelmente aliviado. Fomos juntos ao Foreign Office, onde me muniram com carta de 
apresentao para Knox Helm, pedindo-lhe que me desse todas as facilidades possveis para 
o cumprimento da minha misso. Fiz tambm uma visita ao general Hill, chefe da Seco de 
Cdigos. Forneceu-me o meu sistema pessoal de cifras e ps  minha disposio uma das 
suas funcionrias, para me fazer recordar o seu uso. Isto provocou um ligeiro atraso  que at 
foi de certa utilidade para mim, porque deu-me mais tempo para preparar o meu plano de 
aco na capital turca. Passaram-se trs dias completos entre a chegada dos documentos aos 
Broadway e a minha partida de avio para o Cairo, a caminho de Istambul.

O meu vizinho no avio era taciturno, mas, de qualquer modo, poucos companheiros de vo 
me incomodam por muito faladores que sejam. Para mim, voar conduz  reflexo e eu tinha 
muito em que ocupar o meu esprito. Durante largo tempo debati-me com um problema que 
nessa altura me deixava perplexo e para o qual ainda hoje no encontrei resposta: a 
extravagante reaco da Embaixada da Turquia, do Foreign Office, do chefe e de Sir David 
Petrie perante o terror de Volkov pelas comunicaes telegrficas. De facto, era estranho 
que evitassem o telgrafo apenas no que respeita s informaes de Volkov, e em 
todos os outros assuntos, alguns top secret, continuassem 
imperturbavelmente a utiliz-lo. Se acreditassem, de facto, no aviso de Volkov, concluiriam 
que todas as comunicaes telegrficas eram perigosas; no caso contrrio, deviam ter 
avisado, sem demora, a nossa estao de Istambul. Tal como

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procediam, o nico resultado da confisso de Volkov era atrasar duas ou trs semanas a aco a seu favor. A 
resposta no se tornava de modo algum fcil de encontrar. Como no era perito em cdigos e cifras, conclu 
que no me pertencia chamar a ateno para a falta de coerncia da nossa conduta. De qualquer maneira, 
havia problemas mais urgentes a considerar.

O Foreign Office concordara que eu devia servir-me de Page para restabelecer contacto com Volkov e 
marcar um encontro. Iria acompanhado por John Reed, primeiro-secretrio da Embaixada, que estivera 
anteriormente em Moscovo e passara num dos exames de russo no Foreign Office. Todas estas combinaes 
estavam sujeitas  aprovao do embaixador, Sir Maurice Peterson, que eu conhecia do tempo em que 
estivera em Espanha; mas o Foreign Office avisou-me, em termos insistentes, de que eu deveria contactar 
primeiro com Helm. Parece que este comeara a carreira no servio consular e era muito sensvel em 
questes de protocolo.

No previa grandes dificuldades com Helm. mas no estava absolutamente certo disso. Parecia-me que o 
ponto crucial do meu problema era a minha entrevista com Volkov, estando Reed a assistir. Se realmente ela 
se efectuasse, Reed apanharia um grande choque se Volkov comeasse a citar nomes de agentes soviticos 
que serviam o prprio Governo britnico. Achava que seria caridoso poupar-lhe uma tal supresa. Mas como 
havia de proceder?

Era evidente que tinha poucas possibilidades de me sair bem da misso, mas, apesar de tudo, se agisse com 
tacto, poderia evitar aborrecimentos para mim. Decidi que o meu primeiro objectivo era falar com Reed e 
convenc-lo de que a minha misso tinha um mbito muito reduzido e no estava autorizado a discutir com 
Volkov os pormenores das suas informaes. Seria muito perigoso se ele fizesse revelaes prematuras, isto 
, antes de estar em segurana em solo britnico. As minhas instrues eram impedir a todo o custo que a 
entrevista se encaminhasse para esse lado. Ia a Istambul unicamente para ajudar Volkov a fugir para onde 
estivesse em

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segurana, a fim de ser interrogado por quem tinha preparao para o fazer. Pensava que 
conseguiria convencer melhor Reed, dizendo-lhe que ainda no estvamos completamente 
descansados acerca da hiptese de Volkov ser um provocador. Seria, portanto, muito 
aborrecido se se pusessem a circular as informaes dadas por ele antes de conseguirmos 
julgar da sua autenticidade. Achava que no podia fazer melhor.  claro que um perito 
poderia descobrir um motivo oculto nas minhas palavras, mas Reed no era perito e talvez 
fosse fcil de convencer. Ao cair da noite, sofri outro choque. O piloto anunciou pelo 
intercomunicador que, devido a uma tempestade na regio de Malta, ramos obrigados a 
desviar a rota para Tnis. Se as condies atmosfricas melhorassem, o avio partiria para o 
Cairo, via Malta, no dia seguinte. Mais outras vinte e quatro horas! A sorte continuava a 
proteger-me.

Na tarde do dia seguinte, chegmos finalmente ao Cairo, tarde de mais para apanharmos o 
avio para Istambul. S no dia seguinte, sexta-feira, cheguei ao meu destino. Fui recebido 
no aeroporto por Cyril Machray, chefe da nossa base em Istambul, a quem tinha de pr ao 
corrente da natureza da minha misso.

As relaes entre o Foreign Office e o S.I.S. eram, nessa altura, to cordiais que ningum 
na Embaixada ou no Consulado-Geral tinha pensado em consultar o ministrio acerca de 
Volkov  e ns. claro, tambm no o faramos.

Fomos os dois nessa tarde visitar Knox Helm, a quem apresentei a carta do Foreign Office. 
Contudo, embora eu esperasse um apoio entusistico aos nossos planos, fiquei logo 
desiludido. Alguns anos mais tarde, depois de Helm ter conseguido o lugar de embaixador 
em Budapeste, um colega disse-me que ele era o mais compreensivo e prestvel dos 
embaixadores, mas quando contactei com ele, talvez por ser s ministro, era um homem 
cheio de susceptibilidades, que punha sempre obstculos a tudo. As nossas sugestes 
podiam causar dificuldades  Embaixada; tinha de consultar o embaixador antes de eu 
comear a agir. Pediu-me que voltasse na manh seguinte (outro dia perdido), e depois, 

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hospitaleiramente, convidou-me para a sua casa tomar uma bebida. O adido militar fazia tambm parte do 
grupo e sugeriu-me que jantasse com ele no Park Hotel. Mal havamos dado dez passos depois de sarmos de 
casa de Helm, ele virou-se para mim e disse: S o maior de todos os bastardos.... Era evidente que tambm 
tinha problemas com Helm.

Quando fui ter com este na manh do dia seguinte, olhou para mim com um ar acusador. Nunca me disse que 
conhecia o embaixador! Depois disso pouco adiantmos, mas percebi pela maneira de Helm falar que 
Peterson tambm punha objeces. Disse-me com um ar bastante rancoroso que o embaixador queria que eu 
passasse o dia seguinte, sbado, com ele, a bordo do iate Makouk. Partiria do cais de Kabatash s 
onze da manh, e eu, entretanto, no deveria tomar iniciativas. Portanto, todo o fim-de-semana ficava 
inutilizado.

A maior parte das pessoas que visitavam Istambul conheciam o Makouk, o iate da Embaixada, 
primitivamente construdo para Abbas Hilmi. do Egipto. Era um barco grande, de fundo chato, apropriado 
para as guas calmas do Nilo, mas que balanava bastante na agitao do Mrmara. Havia outros convidados a 
bordo, e s depois do almoo e de termos ancorado ao largo de Trotskys Prinkipo  que pude falar com 
Peterson em condies de relativa segurana, enquanto os outros convidados se deliciavam a observar os 
golfinhos. Como ele no iniciava a conversa, resolvi-me a falar, observando que ouvira dizer que punha 
algumas objeces aos planos que eu trouxera comigo de Londres. Que planos?, inquiriu ele  uma 
pergunta que me deu outra ideia a respeito de Helm. Ouviu atentamente o que eu dizia e depois interrogou 
novamente: Consultaram o Foreign Office? com certeza, respondi eu. O Foreign Office aprovara tudo, 
e eu tinha at trazido uma carta de apresentao para Helm, pedindo-lhe que me desse todas as facilidades 
possveis. Ento no h mais nada a dizer, respondeu ele. Avance. Desaparecera a ltima desculpa para 
os atrasos.

Nessa noite Machray e eu discutimos o caso em pormenor. Arquitectmos alguns planos para conseguir fazer

139

Volkov sair da Turquia, uns com a cooperao dos Turcos, outros no. Parecia evidente que 
no podamos decidir qual era o melhor sem falarmos com o prprio Volkov. Tudo dependia 
da sua posio e das circunstncias particulares a que se subordinava  horas de trabalho, grau 
de liberdade de movimentos, etc. O primeiro passo a dar era estabelecer contacto com ele, 
e o nosso melhor instrumento era, evidentemente, Page, do Consulado-Geral, com quem 
Volkov entrara primeiramente em contacto. De acordo com isto, na manh seguinte 
encontrei-me com Page no escritrio dele e expliquei-lhe apenas o que era indispensvel 
que soubesse, isto , que gostaria que ele arranjasse maneira de eu ver Volkov nessa 
mesma tarde, debaixo de mximo segredo. (No queria marcar o encontro para de manh, 
porque precisava de instruir John Reed do modo que j descrevi.) Discutimos os possveis 
locais de encontro, mas optmos finalmente pelo mais simples. Page disse que muitas vezes 
tinha assuntos consulares de rotina a tratar com Volkov e era perfeitamente natural convidar 
Volkov a vir ao seu escritrio para conversarem. Por fim, quando Page pegou no 
auscultador, chegara o grande momento.

Page ligou para o Consulado-Geral sovitico e pediu para falar com Volkov. Ouviu-se uma 
voz de homem atravs da linha, mas metade da conversa de Page no significava nada para 
mim. A cara dele, porm, demonstrava tal estupefaco que eu calculei que surgira um 
obstculo. Quando pousou o auscultador, abanou a cabea e olhou para mim. No pode 
vir?, perguntei eu. Tem graa. Ainda  pior do que pensa, respondeu Page. Pedi que 
chamassem Volkov e atendeu um homem dizendo que era Volkov, o que  falso. Conheo 
perfeitamente a voz de Volkov, pois falei com ele dezenas de vezes. Page voltou a tentar, 
mas desta vez no passou da telefonista. Disse que ele tinha sado, exclamou Page 
indignado, e h um minuto ligou para ele! Olhmos um para o outro, mas nenhum de ns 
conseguia ter alguma idia. Sugeri por fim que podia haver qualquer confuso no 
Consulado-Geral sovitico e que era melhor voltarmos a tentar no dia seguinte, esperando 
ter melhor sorte. Comecei a pressentir que acontecera qualquer coisa

140

de decisivo e passei a tarde a redigir um pequeno relatrio em cifra para o chefe.

No dia seguinte Machray, eu e Page voltmos a encontrar-nos e este ltimo telefonou para 
o Consulado-Geral sovitico. Ouvi o eco fraco de uma voz de mulher e depois um clique 
estridente. Page olhou com cara de parvo para o auscultador que segurava na mo. Que  
que pensa disto? Perguntei por Volkov e a rapariga respondeu: Est em Moscovo. A 
seguir ouvi o rudo de luta e de pancadas e desligaram o telefone. Depois disto, quase que 
fiquei com a certeza do que havia acontecido. O caso estava encerrado, mas eu tinha 
interesse em insistir no assunto, mesmo que fosse s para melhorar o meu relatrio para o 
chefe. Pedi por isso a Page que fizesse uma tentativa final. Importava-se de ir pessoalmente 
ao Consulado russo e de perguntar por Volkov? Page estava decidido a esclarecer o assunto 
e concordou prontamente. Da a uma hora estava de volta, espantado e zangado na mesma. 
No adiantou nada, disse ele. No consigo que naquela casa de doidos digam alguma 
coisa com sentido. Ningum ouviu falar de Volkov! Desistimos e eu apressei-me a redigir 
outro telegrama para o chefe. Depois de confessar a derrota, pedi-lhe licena para encerrar 
o caso e voltar a Londres.

Durante a viagem, escrevi um relatrio que apresentaria ao chefe, descrevendo em 
pormenor o falhano da minha misso e contendo, necessariamente, a minha teoria sobre o 
desaparecimento de Volkov. A sua essncia baseava-se em que a insistncia de Volkov 
acerca das comunicaes pela mala diplomtica provocara a sua queda. Tinham-se passado 
quase trs semanas desde que ele entrara em contacto com Page pela primeira vez, e ns 
no lhe dramos qualquer resposta. Durante esse espao de tempo os Russos tinham muitas 
possibilidades de o descobrir. O escritrio e a casa estavam com certeza vigiados. Sabia-se 
que a mulher e ele eram ambos nervosos. Talvez a sua conduta o tivesse denunciado, ou se 
embebedasse e falasse de mais; podia tambm ter mudado de ideias e confessado tudo aos 
colegas. Claro que admitia que isto era apenas especular; talvez nunca se soubesse a 
verdade. Uma outra teoria  a de que os Russos

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teriam sido avisados da tentativa de Volkov  no possua quaisquer provas que a 
confirmassem. Nem valia a pena inclui-la no meu relatrio.

Captulo IX

O terrvel Turco

A minha posio estratgica como chefe do S.I S. no podia durar eternamente. O Comit 
de Reorganizao do S. I. S., ao fazer as suas recomendaes sobre a futura organizao do 
pessoal, decidira a favor da versatilidade e no da especializao. Assentou em que, tanto 
quanto possvel, todos os agentes se deviam sentir igualmente -vontade em trabalho 
ofensivo e defensivo, tanto na sede como em aco. Um sistema destes podia resultar numa 
certa perda de eficincia, porque os agentes eram periodicamente enviados de um lado para 
o outro, mas, por outro lado, essa perda seria compensada, segundo se pensava, por uma 
maior flexibilidade oferecida por um pessoal mais ecltico. Talvez seja intil observar que, 
quando se adoptou esta tctica, os trs oficiais superiores do servio, o chefe, o subchefe e o 
chefe assistente, no tinham esperincia de contra-espionagem nem conhecimento prtico 
do trabalho de aco. Mas eu ainda no era suficientemente idneo para beneficiar de uma 
tal dispensa. Como todo o meu trabalho no S. I. S. se relacionara com contra-espionagem na 
sede, era evidente que, dentro em breve, deveria mudar de cenrio.

No foi, portanto, surpresa para mim quando o general Sinclair me chamou em fins de 1946 
e me disse que chegara a altura de prestar servio fora da Gr-Bretanha. J compreendera 
que a minha colocao no estrangeiro resultaria numa perda de posio dentro do servio, o 
qual prejudicaria, a longo prazo, o meu acesso  espcie de informaes de que eu 
necessitava. Quando Sinclair me disse que eu fora escolhido para tomar conta da base do S. 
I. S. na Turquia, com sede em Istambul, pensei que as coisas podiam ter sido muito piores. 
Istambul era ento a principal fonte de recolha de informaes acerca da Unio Sovitica e 
dos pases socialistas dos Balcs e da Europa Central. Apesar de me afastar, do meu 
principal centro de aco e de interesses, esse afastamento no seria demasiado.

143

Sinclair disse-me que o meu sucessor no S. I. S era o tal brigadeiro Roberts que se cruzara 
no meu caminho aquando do caso Volkov. Abandonara o lugar de chefe do Security 
Intelligence no Mdio Oriente e estava disponvel para trabalhar na sede. Substituiu-me de 
uma forma muito descontrada e fez-me mais perguntas sobre os clubes nocturnos de 
Londres que acerca do trabalho da seco. A sua aco mais importante como chefe do S .I. 
s. foi ter conseguido persuadir Maurice Oldfield, um agente de grande categoria do Secutiry 
Intelligence no Mdio Oriente, a trabalhar no S.I.S. Poucas semanas depois de Oldfield se 
ter instalado como adjunto de Roberts havia j conquistado a sua alcunha: Brigs Brains *.

Como preparao para o meu servio em Istambul fui includo numa seco de treino do 
curso de agentes. Era o segundo ou terceiro curso sob a gide do novo director de Treino e 
Desenvolvimento, o nosso velho amigo John Munn, e os programas haviam sido 
modificados drasticamente desde ento. O corpo docente era constitudo especialmente por 
agentes vindos do S. O. E. e o seu magistrio condicionado pelas experincias deste 
organismo em tempo de guerra. O curso tinha bastante interesse apesar de eu tirar pouco 
benefcio imediato dele, pois as condies da espionagem em tempo de paz em Istambul 
estavam muito longe das dificuldades com que o S.O.E. lutara durante a guerra na Europa 
ocupada. Eu escrevera pessoalmente a maior parte das lies sobre os servios de 
informaes soviticos e estava por vezes na situao embaraosa de ter, do fundo da sala 
de aula, de servir de ponto ao instrutor. Era deprimente eliminar dos meus escritos todo o 
conhecimento baseado em experincia pessoal. Como tinha de passar metade do tempo 
vigiando o R. 5, faltei a vrios testes e exames a que os outros alunos foram submetidos. 
Talvez fosse uma sorte, pois seria aborrecido que um agente com a minha categoria 
profissional ficasse mal classificado.

O curso de treino e a ajuda a Roberts acabaram em

* O Crebro do Brigadeiro.

144

Janeiro de 1947, e no fim do ms encontrei-me no terminal do aeroporto a beber o que 
passava por caf a uma hora absolutamente idiota da madrugada. A fiquei durante dez dias. 
O pas era assolado pela neve e por um frio agreste; o tempo e as avarias mecnicas 
provocavam atraso sobre atrasos. Mas podia considerar-me com sorte. Foi um perodo em 
que ocorreu uma srie impressionante de desastres de aviao, e todos os dias os jornais 
noticiavam a queda de mais um Dakota. Durante muitas manhs compartilhei a 
viglia com um grupo de freiras que iam para Bula vaio. Anunciaram por fim a sua partida, 
numa manh desmaiada  e morreram todas. Eu era um homem feliz s por sentir o vento 
quente do deserto e o aeroporto do Cairo debaixo dos ps.

Desde que entrara para o servio, h seis anos, tivera apenas, talvez, dez dias de licena. 
Como a presso do trabalho diminura momentaneamente, decidi, a caminho de Istambul, ir 
visitar o meu pai  Arbia Saudita. Ele foi ter comigo a Jidda e levou-me a visitar, durante 
algum tempo, Riad e Al Kharj. Foi ento que conheci o pas a que ele devotara a maior 
parte da sua vida, mas no senti, nem na altura, nem mais tarde, a mais leve tentao de 
seguir o seu exemplo. O espao ilimitado, o cu azul, as noites luminosas e tudo o resto, 
apesar de muito belos, so cansativos e eu achava completamente inaceitvel passar uma 
vida inteira numa paisagem com majestade, mas sem encanto. A ignorncia e a arrogncia 
no se do bem, e ambas so as principais caractersticas dos rabes da Arbia Saudita. 
Quando h ainda a acrescentar-lhes, um aspecto exterior de austeridade, o conjunto torna-se 
intolervel.

Permiti-me fazer esta digresso para responder a certas pessoas que atriburam a forma 
pouco comum como encaminhei a minha vida  influncia do meu pai.  possvel que as 
suas excentricidades me tivessem possibilitado, na juventude, resistir a alguns dos 
preconceitos atrozes do sistema das public-schools inglesas de h 
quarenta anos. Mas se se fizer uma investigao, ligeira que seja, concluir-se- que, em 
todas as alturas cruciais da minha vida, ele estava a centenas de milhas de distncia. Se 
tivesse vivido um pouco mais e chegasse a saber a verdade,

145

ficaria espantado, mas no me reprovaria. Eu era talvez a nica pessoa dos seus mltiplos 
conhecimentos para quem ele nunca foi malcriado e de quem escutava com respeito as 
opinies  mesmo sobre o seu precioso mundo rabe. Nunca tomei isto como um 
cumprimento. Ouvi dizer, talvez erradamente, que Winston Churcill dava importncia e 
escutava as opinies do seu filho Randolph.

Foi sem desgosto que troquei o deserto intil pelo prodgio turbulento que  Istambul. Os 
meus colegas viviam nos tristes blocos de apartamentos de Pera, mas eu no tinha a mnima 
inteno de seguir os seus exemplos. Da a poucos dias encontrava uma vila 
maravilhosa em Beylerbey, na costa asitica do Bsforo, um stio to encantador que 
concordei imediatamente em pagar uma renda exorbitante. Era junto do cais e durante trs 
anos eu viajaria diariamente entre a sia e a Europa num ferry-boai, 
apreciando o espectculo sempre variado de gaivotas e guas calmas, nevoeiros, correntes e 
redemoinhos.  claro que os velhos marinheiros turcos olhavam-me espantados. Mas  uma 
regra muito eficiente, onde quer que se esteja, ignorar os velhos marinheiros; as suas 
mentalidades so voltadas para dentro como as unhas dos ps. Eu no tinha motivo para 
lamentar a escolha do meu remoto refgio asitico. Na verdade, o meu exemplo em breve 
foi seguido pelos espritos com mais imaginao.

Para ocultar as minhas verdadeiras funes exercia o cargo de primeiro-secretrio da 
Embaixada, e aqui devo abrir um pequeno parntesis. J atrs me referi ao facto de que, 
normalmente, os agentes do S. I.S. trabalhavam sob o disfarce de funcionrios do 
controle de passaportes, mas esse subterfgio tornou-se demasiadamente 
conhecido antes e durante a guerra, e o Comit de Reorganizao do S.I.S. recomendara-
nos que mudssemos de tctica. A partir dessa altura quase todos os agentes do S.I.S. no 
estrangeiro foram colocados como primeiros, segundos e terceiros-secretrios, de acordo 
com a sua categoria no servio. Mais tarde, aos agentes que exerciam funes mais 
importantes, em Paris e em Washington, foi atribudo o ttulo de conselheiro, ao passo que

146

outros eram colocados como simples adidos ou como oficiais de informao. Entretanto, a 
maior parte dos funcionrios do controle de passaportes que trabalhavam para o 
S. I. S. foram de facto nomeados visa officers. A maior parte deles est 
agora formalmente desobrigada de trabalhar para a espionagem, apesar de ainda se 
manterem ligaes entre os visa officers e o pessoal do S.I.S.

A alterao de disfarce foi acompanhada de uma mudana do sistema de smbolos que 
designava o pessoal em servio no estrangeiro. Antes da reorganizao, era atribudo a 
todos os pases um nmero formado por dois algarismos dgitos: por exemplo, a Alemanha 
era 12-land, a Espanha 23-land. Os agentes em servio nesses 
pases tinham o nmero correspondente em milhares: o chefe na Alemanha era o 12 000, e 
em Espanha o 23 000, enquanto os seus subordinados, oficiais e agentes, eram designados 
por outros smbolos tambm formados por cinco algarismos, mas sem alterao dos iniciais. 
Pensava-se que este sistema de cdigo se tornara to transparente como os funcionrios do 
controle de passaportes e citava-se at a histria, bem conhecida, de que os 
agentes do Abwher em Istambul cantavam: Zwlfland, 
Zwlfland ber alies *.

Fosse como fosse, o sistema foi totalmente alterado. Deu-se a cada pas um smbolo 
constitudo por trs letras do alfabeto, a primeira das quais (por motivos que desconheo) era 
invariavelmente o B. Assim os Estados Unidos eram REE-land, a Turquia 
EFX-land. Ao chefe do S.I.S. em cada pas era atribudo o nmero 51, e aos 
seus subordinados outros quaisquer nmeros de dois algarismos, isto : 01, 07, etc. Assim, 
como chefe do S.I.S. na Turquia, era obrigado a usar, com um sentido terrvel de 
desconforto, a designao BFX/51. Fosse qual fosse a maneira como a olhssemos, escrita  
mo ou  mquina, parecia-nos terrivelmente desengraada.

Assim eu era primeiro-secretrio da Embaixada, alis

* Os agentes alemes queriam dar a entender que conheciam perfeitamente o nmero de cdigo atribudo  Alemanha pelo servio secreto 
ingls (zwlf significa doze), servindo-se para tanto da conhecida Deutschland, Deutschland, 
ber alies.

147

BFX/51, apesar de no ter de prestar quaisquer servios diplomticos. Tinha sob as minhas 
ordens cinco agentes e o necessrio pessoal de secretariado. Alm de um adido capaz e 
socivel e de um rapaz novo muito entusiasta, havia um russo branco, sempre em ebulio, 
de grande encanto pessoal e com uma energia espantosa (tambm adido). Por fim, tnhamos 
a considerar o funcionrio do controle de passaportes, que era directamente 
responsvel perante Maurice Jeffes, em Londres, pelos assuntos relacionados com os vistos, 
mas que dependia de mim no que respeitava  obteno de informaes e servia de agente 
de ligao com os servios turcos. J h muito que trabalhava na Turquia e chamava-se 
Whittall; falava turco fluentemente, mas era demasiado simptico para se ligar aos turcos. 
Quero fazer tambm uma ligeira referncia  secretria de Whittall, que tinha uma paixo 
por gatos e um sistema de arquivo muito pessoal. Quando lhe perguntava por um papel, 
dizia calmamente: Penso que est debaixo do gato branco, e o certo  que 
estava mesmo.

Os servios turcos eram conhecidos pelo nome de Security Inspectorate e as nossas 
relaes com eles condicionavam toda a actividade do S.I.S. na Turquia. Sabiam da nossa 
existncia e toleravam a nossa actividade, baseados no facto de que era dirigida unicamente 
contra a Unio Sovitica e os Blcs, no contra a Turquia, mas como se ver, esta idia no 
correspondia, muitas vezes,  realidade. Para nos: assegurarmos da benevolncia do 
Inspectorate, entregvamos nos seus escritrios de Istambul um subsdio mensal camuflado, 
como pagamento dos inquritos feitos por ns pelo referido Inspectorate. Como nos 
prestavam poucos servios,  bvio que a nossa contribuio servia unicamente para 
aumentar os salrios dos inspectores superiores de Istambul. Contudo, mesmo usado apenas 
como suborno, valia a pena.

A sede do Inspectorate era em nkara, e dirigia-a, nessa altura, um burocrata reboludo, 
muito parecido com uma r, a quem chamvamos Tio Ned. Tinha a infelicidade de ser 
obrigado a visit-lo uma vez por ms. Os nossos encontros em breve passaram a decorrer 
sob o

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signo da frustrao mtua. Eu comeava por pedir facilidades para esta ou aquela operao, para enviar, por 
exemplo, um agente da Turquia Oriental para a Armnia Sovitica. Ele aclarava a garganta, segredava com o 
intrprete, mudava de posio e pedia caf. Propunha ento que eu lhe entregasse o agente e o dinheiro 
necessrio. Ele realizaria a operao e dar-nos-ia conta dos resultados. To simples como isto. Quando 
comecei a compreender turco suficientemente para perceber o que se estava a passar, estas entrevistas 
acabavam sempre com uma zanga com o meu intrprete, que eu no conseguia convencer a ser 
suficientemente malcriado. Tinha desculpa. No pertencia ao corpo diplomtico e possua razes para temer 
a m vontade do Tio Ned.

O chefe do departamento do Security nspectorate de Istambul era conhecido por Tia Jane. Tinha muito 
interesse para mim, porque era na sua rea que se efectuava a maior parte das minhas actividades 
clandestinas. Contudo, nunca me criou dificuldades. Era um rou pachorrento, interessado sobretudo 
pelo funcionamento da sua vescula biliar e por dinheiro,  claro. Dentro de algumas semanas deixei de ter 
contactos de rotina com a Tia Jane, encarreguei disso Whittall, e apenas intervinha em ocasies especiais. 
Duas vezes por ano convidava-o para uma festa e ele provou ser o hspede ideal. Chegava numa lancha da 
polcia meia hora antes da hora marcada, engolia rapidamente dois ou trs whiskies e desaparecia, 
alegando trabalho urgente, quando os outros hspedes estavam a chegar.

Os meus contactos com o Tio Ned, a Tia Jane e os seus colegas confirmaram uma suspeita que eu alimentava 
j h muito: que os servios de segurana dos pases pequenos tm falta de recursos e de experincia para 
actuarem eficientemente. Mesmo Tefik Bey, de Erzerum, talvez o melhor dos agentes do Security 
nspectorate inutilizou por completo a nica operao que lhe confiei. Apesar disso, todos esto 
convencidos de que os Turcos tm um bom servio de informaes. Li recentemente em Akin to 
Treason, de John Bulloch,

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que a polcia de segurana libanesa  muito eficiente um grande erro de apreciao. Se 
fosse realmente eficiente comearia por denunciar o comrcio de documentos falsos que 
floresce mesmo sob os seus narizes, em Beirute.

O departamento da Tia Jane exercia, at certo ponto, funes de superviso sobre o 
departamento do Inspectorate de Adrianpolis, que nos transmitia algumas informaes de 
pouca importncia acerca da Bulgria, fornecidas sobretudo por contrabandistas e 
refugiados. Contudo, o interesse que apresentava para ns era principalmente devido ao 
facto de que Istambul era uma rea de trnsito intenso. A grande maioria dos que fugiram 
das revolues dos Balcs e da Europa Central passavam quase obrigatoriamente por 
Istambul, e era da responsabilidade da Tia Jane e dos seus oficiais descobri-los e arrancar-
lhes informaes teis. Muitos dos relatrios provenientes destas fontes eram-nos 
transmitidas pelos Turcos, mas a sua qualidade afigurava-se uniformemente desanimadora, o 
que se devia, em parte,  ignorncia dos prprios refugiados e, tambm,  inexperincia dos 
inquiridos que no sabiam realmente fazer perguntas com interesse. Esforamo-nos 
repetidamente para que fssemos ns prprios a interrogar esses refugiados, antes de 
partirem para os seus respectivos destinos, mas nada conseguimos devido  letargia turca. 
Fomos obrigados a procur-los por nossa conta  um processo que nos fazia perder 
inutilmente imenso tempo.

Para obtermos informaes relativas aos estados balcnicos tnhamos de nos basear em 
refugiados desses pases residentes em Istambul. Havia um nmero surpreendente de 
blgaros, jugoslavos e romenos que diziam ter estabelecido organizaes de espionagem 
nos seus pases antes de fugirem para o exlio. Estavam ansiosos por colocar as suas redes 
de espionagem  nossa disposio, desde que lhes dssemos os fundos necessrios para as 
activar. A guerra demonstrara, em toda a Europa, que a espionagem permitia ganhar muito 
dinheiro, e durante os anos 40 um comprador incauto podia gastar milhes em Istambul e 
obter apenas informaes 

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 fabricadas na prpria cidade. Os Americanos foram os responsveis pelo elevado preo 
que estas fraudes atingiram, mas em 1947 o S.I.S. j perdera muito do seu interesse por esta 
espcie de informaes. Passvamos a maior parte do tempo a procurar descobrir esses 
espies e a tentar avaliar qual o preo justo por que deveramos pagar o seu trabalho. 
Raramente o conseguamos e tenho a certeza de que. apesar do cuidado que tnhamos, 
muitos dos exilados faziam pouco de ns.

Haviam-me dito em Londres que no prestasse muita ateno aos Blcs; devia dar a 
primazia  Unio Sovitica. Assim, arquitectei vrios planos para introduzir nos portos russos 
do mar Negro agentes, que, aps colherem informaes deveriam fugir em navios 
mercantes que aportavam em Odessa, Nikofaev, Novorossisk, etc. Contudo decidi que o 
ponto principal de assalto seria a fronteira oriental, que, por ser muito extensa, oferecia 
grandes possibilidades de infiltrar agentes na Unio Sovitica. Passei por isso grande parte 
do Vero de 1947 a fazer um reconhecimento pessoal das regies da fronteira, tendo em 
vista descobrir que espcie de ajuda os Turcos nos poderiam oferecer e que obstculos 
tnhamos de enfrentar. Um reconhecimento deste gnero era feito tambm com um fim 
secundrio: a observao topogrfica dos limites da fronteira da Turquia, na qual estavam 
interessadas as foras armadas. Isto foi antes de os Americanos assentarem arraiais na 
Turquia e fazerem, entre outras coisas, um exame areo minucioso de todo o pas. Ainda 
ignorvamos quase tudo acerca dos meios de comunicao existentes na extensa regio a 
oriente do Eufrates.

O exame topogrfico tinha, por vrias razes, interesse para o S.I.S. O nosso War Planning 
Directorate, admitindo a possibilidade de uma guerra global contra a Unio Sovitica, estava 
ocupado a estabelecer centros de resistncia nas regies que o Exrcito Vermelho, 
logicamente, devia invadir e ocupar nas primeiras fases da guerra. A Turquia era um dos 
primeiros pases a ter em considerao. As montanhas da Anatlia esto separadas por uma 
srie de plancies em forma de losangos no sentido leste-oeste. pontos estratgicos

151

para as tropas invasoras pra-quedistas soviticas, isso era impossvel opor uma 
resistncia eficaz a oriente de Ankara. Sendo assim, o melhor que poderamos fazer na 
Turquia era estabelecer bases de guerrilhas, por meio das quais se podia cortar as 
comunicaes soviticas atravs das plancies. Os nossos estrategistas necessitavam de 
informaes muito mais pormenorizadas que as existentes acerca da natureza do terreno na 
Turquia Oriental: era acidentado? Havia florestas? Quais os recursos alimentares?

Um inqurito desta natureza levantava problemas delicados. Denunciava a inteno dos 
anglo-americanos de abandonar a Turquia ao seu destino logo que a guerra rebentasse. Por 
muito ilgica que fosse esta tctica militar, os Turcos pouco se importariam. Na verdade 
acreditava-se que, se eles tivessem a menor idia da existncia destes planos, a tempestade 
que resultaria da provocaria o desmoronar de todas as suas iluses acerca do Ocidente e 
obrig-los-ia a entrarem num acordo com a Unio Sovitica. Portanto, esta parte da minha 
viagem tinha de ser feita com a maior discrio. Felizmente os Turcos no deram, sequer, 
pela minha actividade nesse sentido. Se tivessem mostrado interesse, era duvidoso que 
acreditassem na nica resposta que eu podia dar-lhes isto , que eu estava apenas 
interessado em estabelecer as linhas de comunicao de um exrcito aliado, na previso do 
seu avano at  Gergia.

De qualquer maneira, decidira que a minha actividade, a princpio, seria modesta. Depois 
de. no Vero de 1947, ter efectuado vrias viagens de reconhecimento, ficaria melhor 
preparado para intensificar as operaes em 1948. A primeira dificuldade foi vencida 
quando o Tio Ned. depois de se mostrar muito relutante, me deu autorizao para visitar 
Erzurum, donde Tefik Bey dirigia as operaes do Security Inspectorate na regio oriental. 
As necessidades do exame topogrfico obrigavam-me a viajar por estrada; felizmente que 
os meus meios de transporte em Istambul incluam um camio pesado Dodge, que 
parecia capaz de agentar todos os solavancos que as primitivas e esburacadas estradas 
existentes a oriente de Ankara lhe imprimissem. Depois de uma

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corts visita de despedida ao Tio Ned na capital, parti na direco este, em vez de tomar a estrada principal, 
que vai de Kayseri a Sivas. Este caminho levava-me atravs de Boghaz Ky, atribuindo assim  viagem um 
certo cunho cultural. Tambm me deu a possibilidade de ver uma regio desrtica entre Yozgat e Sivas.

As mltiplas notas que tomei durante estas viagens teriam fornecido material de grande utilidade para 
qualquer dos Turkey Books, de Rose Macaulay. A Turquia a oriente do Eufrates mal sara 
do sculo XIX.  verdade que os Armnios tinham sido dizimados, assim como a maioria dos Curdos. Mas 
ainda se podia olhar atravs de Erzerum, no sop de Palandken, para o desfiladeiro do Camelo e para a 
garganta Georgiana e quase ouvir o troar dos canhes de Paskevich, metralhando os desfiladeiros. Tudo isso 
estava prestes a desaparecer. Os Americanos preparavam-se para instalar ali rampas de lanamento de 
msseis e avies U-2.

Logo que cheguei a Erzerum apressei-me a visitar Tefik Bey. Era um colega simptico, com maior interesse 
pelo trabalho que o Tio Ned ou a Tia Jane. Contudo, as nossas conversas deram-me poucas esperanas de 
conseguir realizar os meus projectos: enviar agentes, atravs da fronteira sovitica, para a Gergia ou para a 
Armnia. Como o seu colega de Adrianpolis, Tefix servia-se de agentes no gnero dos que colhem 
informaes e fogem, nos refugiados ocasionais e nos contrabandistas profissionais. Falava tristemente da 
maneira eficaz como os Russos tinham protegido as suas fronteiras, com inmeras torres de vigia e faixas 
contnuas de terra lavrada, onde os que atravessavam a fronteira ilicitamente eram obrigados a deixar marcas. 
Os seus mapas de informaes mostravam a pobreza dos seus recursos. Apenas algumas unidades soviticas 
aquarteladas na imediata vizinhana da fronteira tinham sido identificadas e a maior parte delas por estimativa. 
A penetrao em profundidade nem sequer fora tentada, quanto mais realizada. A tabula era 
deprimentemente rasa. As conversas com Tefik fizeram-me chegar a uma concluso. Para conseguir 
uma penetrao em profundidade, o que requeria o estabelecimento de agentes

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permanentes em rivan Tiflis e nos portos orientais do mar Negro, era intil procurar 
agentes ali. A populao turca das regies fronteirias estava demasiado atrasada para servir 
os nossos propsitos. Alm disso, Tefik havia percorrido a rea durante anos e era estpido 
pensar que eu lograria encontrar material prometedor onde ele nada conseguira. Se 
queramos recrutar agentes com qualidades suficientes para serem treinados segundo as 
nossas necessidades, tnhamos de os procurar nas comunidades de refugiados da Gergia ou 
da Armnia. A minha primeira recomendao para Londres foi que instrussem as nossas 
bases de Paris, Beirute e Washington, alm de outros centros onde se juntavam refugiados, 
no sentido de efectuarem buscas.

Houve outras palavras de Tefik que me fizeram surgir novas ideias. Ele falou-me das 
magnficas fotografias que, da fronteira turca, se podiam obter de rivan. Lembrei-me de 
que. se as foras armadas, em Londres, estavam to interessadas num exame topogrfico da 
Turquia, tambm aceitariam de boa vontade um reconhecimento fotogrfico de longo 
alcance da rea da fronteira sovitica. Antes de partir de Erzerum comecei a escrever um 
memorando delineando a ideia geral de uma operao com esse fim. Dei-lhe o nome de 
Operao Spyglass e tinha poucas dvidas de que seria aprovada, mesmo que fosse apenas 
para dar  nossa equipa tcnica uma oportunidade de experimentar o equipamento mais 
recente no que respeita a mquinas fotogrficas.

Voltei a Istambul bastante satisfeito com os resultados da minha viagem. Conseguira muito 
pouco no sentido de penetrar na Unio Sovitica, mas pelo menos tinha algumas ideias 
sobre o assunto, que manteriam a sede sossegada durante bastante tempo. Realmente, 
apenas lograra organizar a Operao Spyglass e, apesar de duvidar de que ela fosse de 
facto proveitosa para as foras armadas, dar-me-ia um pretexto suficientemente forte para 
observar bem toda a regio da fronteira turca.

As minhas propostas foram recebidas favoravelmente em Londres. Tinha aprendido j h 
muito tempo, quando trabalhava para The Times, alguns artifcios que 
permitiam revestir ideias completamente absurdas de uma

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linguagem que atrairia at os membros mais srios do Athenaeum *. Mandaram um 
emissrio de Londres a Paris para discutir o problema com Jordnia, que fora presidente da 
repblica independente da Gergia, a qual tivera uma existncia efmera na confuso que 
se seguira  Grande Revoluo de Outubro. Jordnia era o leader reconhecido 
pela maior parte dos imigrantes georgianos e teria sido muito difcil arranjarmos voluntrios 
sem o seu acordo.  claro que o nosso pedido colocou-o numa posio muito delicada. Ele, 
que clamara tantas vezes que o seu povo, com umas pequenas excepes como Estaline e 
Ordzhomkidze, era totalmente anti-sovitico, no podia pr dvidas sobre a natureza da 
recepo que eles receberiam no seu pas natal. No era da nossa conta desencoraj-lo, e 
aceitmos com gratido a sua proposta de nos fornecer homens capazes. Contudo, o nosso 
emissrio teve certamente os seus dissabores. Num telegrama que me enviou descrevendo 
os resultados da sua misso, tratava o velho estadista sucintamente como um bode velho e 
parvo.

amos realmente ter as nossas dificuldades com Jordnia. Por agora, j fazamos uma ideia 
razoavelmente clara do nosso futuro procedimento. Comearamos com uns ataques do 
gnero arranjar informaes e fugir, durante uns dias ou talvez semanas. O objectivo seria 
explorar as possibilidades de organizar uma conspirao na Gergia. Conseguiriam arranjar-
se esconderijos seguros? Era possvel obter uma identidade legal por suborno ou por 
qualquer outro modo? Podiam estabelecer-se linhas de comunicao de confiana? Se estas 
primeiras tentativas corressem bem, podia comear por estabelecer-se uma rede de 
espionagem formada por habitantes, cuja forma de agir e funes seriam ditadas pelos 
resultados dos primeiros reconhecimentos. O que Jordnia tinha em mente no era fcil de 
descobrir. Suspeitmos de que ele queria carregar os seus homens com maos de panfletos 
subversivos, o que o Foreign Office no veria certamente com bons olhos. As conversaes 
tornaram-se, por isso, numa espcie de ch chins.

* Um dos clubes mais conhecidos de Londres.

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Ns tnhamos de ser delicados para com Jordnia, que nos podia negar homens. Por outro 
lado, sem a nossa ajuda, ele nunca conseguiria fazer com que a sua gente entrasse na 
Gergia. O nosso emissrio, dentro de pouco tempo, j sabia de cor os horrios Londres-
Paris e confessava que sentia uma averso especial s por avistar a Cidade-Luz. Assim, com 
suspeitas de ambos os lados, deu-se incio  aventura.

As minhas propostas quanto  Operao Spyglass foram consideradas como 
extraordinariamente interessantes. Isto era muito consolador. Significava que eu estaria 
ocupado a maior parte do Vero seguinte, quando o corpo diplomtico viesse de Ankara 
para Istambul. Sir David Kelly, o embaixador, mostrava-se um homem tmido, de esprito 
agudo e sensvel, mas a mulher era um ser temvel, completamente oposta ao marido, que 
se distinguia pelo seu esprito igualmente pretensioso e vulgar. Eu detestava-a tanto como 
qualquer dos membros da Embaixada, e isto j  dizer muito.

Significava tambm que eu podia requisitar toda e qualquer quantidade de equipamento, 
com a quase certeza de o conseguir. O principal era a mquina. Como no sabia nada de 
fotografia, no podia especificar a marca; descrevi simplesmente o que queria fazer com ela 
e deixei o resto ao cuidado do quartel-general. Pedi ainda dois jeeps, tendas 
leves, variado equipamento de campismo, bssolas, etc. Os nossos tcnicos, sempre 
inclinados a pensar que a ingenuidade deles era insuficientemente explorada, entregaram-se 
ao trabalho com vontade e enviaram mesmo mais material do que eu tinha pedido, para ser 
experimentado. Durante o Inverno acumulou-se um nmero imponente de caixotes no 
nosso armazm, mas entre todo o variadssimo material a mquina fotogrfica sobressaa. 
Tinha imaginado um instrumento pequeno e muito sofisticado que podia, com sorte, ser 
invisvel das torres de vigia soviticas a uma distncia de cerca de cem metros. Quando 
pousei os olhos nela achei-a do tamanho de um autocarro e tomei rapidamente uma deciso. 
No tencionava carregar pessoalmente com aquele monstro pelos sops ardentes de Ararat 
e Aladag. O mais novo dos meus subordinados

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era, evidentemente, a pessoa indicada para fazer o trabalho pesado.

Entretanto, durante o Inverno e a Primavera, voltei-me para os magros recursos informativos disponveis em 
Istambul. Seguindo os processos estabelecidos, comecei por sondar os membros da comunidade britnica l 
residentes, o que constituiu uma tarefa difcil.  claro que h ingleses residentes no estrangeiro, homens de 
negcios, jornalistas, etc., que so capazes de arriscar a vida. Neste caso chamavam-se Swinburne e Wynne. 
Mas, geralmente, so pessoas pouco importantes, de limitadas possibilidades. Os homens realmente 
importantes no gostam de ser incomodados. Tm muito a perder: sentem obrigaes perante si prprios e as 
famlias e, at, perante os seus scios. Concordam geralmente em comunicar alguma coisa que venha ter 
com eles  invariavelmente bisbilhotices sem valor. Mas o seu patriotismo no era suficiente para os fazer 
correr os riscos implcitos numa procura sistemtica de informaes secretas, e eu no lhes podia oferecer 
nada parecido com o que recebiam das companhias petrolferas, por exemplo, ou das firmas de engenharia 
civil. A minha pacincia era constantemente posta  prova por pedidos de informaes, provenientes de 
Londres, acerca de portos turcos que, na verdade, tinham sido construdos por empresas inglesas.

Os nossos insucessos em Istambul deram maior importncia aos planos para a Gergia. Aqui, ao menos, havia 
alguns progressos a considerar. Jordnia, com grande surpresa minha, cumpriu a sua promessa de nos 
fornecer homens, e fui informado na devida altura de que, em Londres, estavam a ser treinados dois recrutas. 
O meu trabalho era conseguir que os Turcos nos dessem facilidades e, depois de vrias discusses com o Tio 
Ned, preparou-se tudo para receber os agentes em Istambul, e mand-los depois para Erzerum. Contudo, o 
Tio Ned mostrou-se inabalvel num oonto Tefik Bev tomaria o controle da operao em Erzerum 
e faria todos os preparativos para infiltrar os homens pela fronteira. O Tio Ned insistiu em que eu no os 
acompanhasse, baseando-se no facto de que a minha segurana poderia perigar.

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Como me tinha dado licena para percorrer toda a rea fronteiria abrangida pela Operao 
Spyglass, o pretexto era absurdo. O seu fim era, obviamente, arranjar agentes para si 
prprio, nas ltimas quarenta e oito horas, a fim de pr em prtica qualquer projecto seu. 
Assim, os pobres georgianos atravessariam a fronteira com uma misso na Jordnia, outra 
nossa e ainda outra dos Turcos. Todos conspiravam para os sobrecarregar. Eu cedi com 
dificuldade e s por pensar que o Tio Ned se preparava para cancelar toda a operao.

Na devida altura juntmo-nos em Erzerum: Tefik Bey, eu e os dois georgianos. Estes eram 
suficientemente vivos e inteligentes, mas o seu passado inspirava pouca confiana. com 
cerca de vinte anos, ambos tinham nascido em Paris. Conheciam a Gergia unicamente de 
ouvir falar dela e compartilhavam as opinies dos emigrantes acerca das condies de vida 
no seu pas. Um deles estava nitidamente receoso. Tefik Bey explicou, servindo-se de 
mapas, como se propunha faz-los atravessar a fronteira nos arredores de Pozof, uma aldeia 
turca mesmo em frente da cidade sovitica de Akhaltsikhe que dispunha de uma guarnio 
militar. Discutimos a hora da travessia em relao  Lua. Examinmos as armas e o 
equipamento com que os georgianos tinham sido armados em Londres e eu pensei em 
quem poria primeiro as mos nos pequenos sacos de soberanos e napolees  os Russos ou 
os Turcos. Quando me vi a ss com Tefik interroguei-o acerca da deciso de fazer os 
agentes atravessar a fronteira precisamente em frente de uma cidade bem defendida, mas 
ele retorquiu observando que o terreno nesse sector era ideal. Ainda lhe perguntei se 
precisamente porque era ideal no estaria muito mais patrulhado, mas Tefik encolheu os 
ombros.

Eu no tinha argumentos para discutir, porque no conhecia a fronteira naquele sector, e 
Tefik podia ter razo. Contudo, de qualquer maneira, era essencial que eu fizesse todo o 
possvel para assegurar o xito da operao.

Os dois georgianos partiram ento, escoltados por um oficial turco, com destino a Ardahan, 
ainda mais a norte.

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Tudo o que eu podia fazer era roer as unhas em Erzerum. Um dos subalternos de Tefik foi 
incumbido de me vigiar  distncia respeitvel de cerca de quarenta metros, e resolvi ento 
divertir-me  sua custa fazendo longas caminhadas pelo campo,  hora mais quente Do dia. 
era simples. Marcvamos a nossa posio no mapa. era obrigado a tirar primeiro o bon, a 
seguir a gravata e por fim o dlman. Alguns dias depois, estava por acaso junto de Tefik 
Bey, chegou o esperado telegrama de Ardahan. Os dois agentes tinham atravessado a 
fronteira  hora determinada. Alguns minutos mais tarde, ouvira-se uma detonao e-um dos 
homens cara. O outro foi visto pela ltima vez num bosque pouco denso, j longe da 
fronteira turca e nunca mais se ouviu falar dele.

A Operao Spyglass, pelo contrrio decorreu de uma forma verdadeiramente aprazvel. 
Escoltados pelo major Fevzi, um dos oficiais de Tefik, partimos dum ponto extremo, a 
oriente, onde se encontram as fronteiras da Unio Sovitica, da Turquia e do Iro, e 
comemos a caminhar gradualmente para oeste. A tcnica utilizada era simples. 
Marcvamos a nossa posio no mapa de poucas em poucas milhas, e fotografvamos uma 
grande rea do territrio russo. Nos primeiros dois dias estava sempre  espera duma rajada 
de metralhadora. Os guardas da fronteira sovitica tinham uma boa desculpa, porque podiam 
tomar o nosso instrumento por um morteiro. At Tuzluca seguimos o curso do Aras, em 
cujas margens abundam os pssaros aquticos, tendo o Ararate  nossa esquerda e o 
Alagoez  direita. Depois percorremos o vale de Arpa Cay, para l da antiga capital armnia 
de Ani, at Digor, do outro lado de Leninakan. Nesta altura decidi que j fora camionista 
por muito tempo e que a parte ocidental da fronteira podia esperar at o ano seguinte, 
quando eu precisasse de outra desculpa para evitar a senhora Kelly. Voltmos para Erzerum, 
passando a noite em Kars, onde Fevzi me supreendeu ao sugerir uma visita a um bordel.

Captulo X

A caverna do leo

Nunca cheguei a concluir a Operao Spyglass. No Vero de 1949 recebi um telegrama de 
Londres que me desviou a ateno para assuntos muito diferentes. Ofereciam-me um lugar 
nos Estados Unidos como representante do S.I.S., onde trabalharia em ligao com a C.I.A. 
e o F.B.I. A inteno de enviar para a Amrica um agente qualificado baseava-se numa 
razo importante. A colaborao entre a C.I.A. e os servios ingleses, ao nvel de 
departamentos (apesar de ainda no se passar o mesmo no campo da aco), tornara-se to 
ntima que qualquer agente destinado a uma alta posio dentro do S.I.S. necessitava de 
conhecer intimamente os servios americanos. Pensei durante meia hora e decidi-me a 
aceitar a oferta.

Tinha bastante pena de abandonar Istambul, no s pela sua beleza mas porque deixava 
trabalho por realizar. Contudo, a ideia de me ir estabelecer nos Estados Unidos era 
irresistvel, e por duas razes. Ao mesmo tempo que passaria a trabalhar precisamente no 
centro vital de toda a poltica relativa a informaes secretas ficaria com um conhecimento 
pormenorizado das organizaes de espionagem americanas. Eu j comeara a suspeitar de 
que estas tinham mais importncia, sob o meu ponto de vista, que as organizaes britnicas 
correspondentes. Nem sequer pensei que valia a pena esperar a confirmao dos meus 
colegas soviticos. Os acontecimentos justificavam as minhas aces e nunca se levantaram 
quaisquer dvidas quanto s possibilidades ilimitadas que me proporcionava a minha nova 
misso. Estabeleceu-se que eu iria para Londres no fim de Setembro e, depois de uma 
estada de um ms na sede do S.I.S.,partiria para a Amrica.

Em Londres apercebi-me de que Jack Easton tinha a seu cargo a superviso geral das 
relaes entre o S.I.S. e os servios americanos, e foi dele que recebi a maior parte das 
instrues. Apreciei, no sem desconfiana, o

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seu conhecimento acerca da aparente cooperao angloamericana e dos moldes em que ela 
se processava. Alis, o campo da colaborao era to vasto que quase no havia um nico 
oficial superior em toda a nossa organizao que no tivesse algo a dizer-me acerca do meu 
novo cargo. Assim fui convidado para almoar em muitos clubes sob pretextos de trabalho. 
As conversas, acompanhadas de caf e de Porto, abrangiam muitos assuntos, mas todos os 
meus anfitries tinham uma coisa em comum desejavam efectuar uma viagem de graa  
Amrica. No os desanimei. Quanto mais visitantes fossem a Washington mais assuntos eu 
teria sob o meu controle. E isto era, no fundo, o meu principal objectivo.

Alm destes interldios divertidos, o resumo sucinto do que seriam as minhas futuras 
atribuies causou-me preocupaes em mais de um aspecto. Tornou-se evidente, pelo que 
me disse Easton acerca da situao, que o meu trabalho em Washington seria espinhoso. Ia 
substituir Peter Dwyer, que passara muitos anos nos Estados Unidos. Sabia j que era um 
esprito brilhante, mas posteriormente verificaria que ele tinha muito mais do que apenas 
esprito. Durante a guerra fora bem sucedido na tarefa difcil de estabelecer relaes 
pessoais e ntimas com muitas figuras importantes do F.B.I. Estas relaes, que se 
mantiveram depois da guerra, originaram que a representao do S.I.S., em Washington, 
tivesse mais ligaes com o F.B.I. (pensavam alguns) que com a C.I.A. Como o F.B.I., 
seguindo o exemplo do seu director, Hoover, era infantilmente susceptvel em relao  
C.I.A., tornava-se muito difcil para Dwyer manter o equilbrio sem se expor a acusaes de 
que traa os seus amigos.

Uma das minhas novas misses era inclinar a balana na direco oposta. A C.I.A. e o S.I.S. 
tinham concordado em colaborar estreitamente acerca de um vasto nmero de problemas, 
que pressupunham inevitavelmente um contacto dirio maior entre aqueles departamentos 
que entre o S.I.S. e o F.B.I.  claro que esta mudana de direco devia-se fazer 
directamente. A minha misso era, portanto, estreitar os laos com a C.I.A. e alarg-los com 
o F.B.I., sem que este desse por isso. No foi preciso

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pensar muito para me convencer de que esse trabalho era impossvel e absurdo. A nica 
maneira sensata seria colaborar com a C.I.A. em assuntos de interesse comum e esperar o 
inevitvel ressentimento dos homens de Hoover. Daqui resultava que eu devia agir 
cautelosamente porque os acontecimentos podiam voltar-se contra mim. Era melhor fazer-
me parvo e estar pronto a pedir desculpa abertamente quando os acontecimentos o 
justificassem.

As instrues respeitantes  contra-espionagem, que me haviam sido transmitidas pelo 
formidvel Maurice Oldfield, no deixavam de me preocupar, pois incluam uma 
comunicao infortante. As investigaes realizadas conjuntamente pelos Anglo-
Americanos acerca das actividades da espionagem sovitica nos Estados Unidos tinham 
levantado suspeitas de que houvera, durante os anos de 1944/45, importantes fugas de 
informaes relativas  Embaixada britnica em Washington e ao centro de energia atmica 
de Los Alamos. Nada sabia acerca de Los Alamos. Porm, analisando rapidamente a lista do 
pessoal superior do Foreign Office, poucas dvidas me restaram acerca da identidade da 
fonte das informaes fugidas da Embaixada britnica. A minha ansiedade dissipou-se 
porque havia muitos meses que andava preocupado com uma pergunta que o meu contacto 
sovitico em Istambul me fizera: se eu disporia de meios para saber qual o modo de agir dos 
Ingleses a respeito de um caso que o F.B.I. investigava e no qual estava envolvida a 
Embaixada britnica em Washington. Na altura em que me fora feita a pergunta nada 
poderia fazer. Todavia, depois da minha conversa com Oldfield, fiquei com a impresso de 
que aflorara o mago da questo, o que viria a ser confirmado alguns dias depois pelo meu 
contacto russo em Londres. Depois de proceder a investigaes na sede do S.I.S. no me 
restaram mais dvidas de que a informao do F.B.I. e a minha se referiam ambas ao 
mesmo caso. O exame pormenorizado dos ficheiros teve o mrito de me aliviar das minhas 
preocupaes. Como o S.I.S. no podia actuar em territrio americano, competia ao B.F.I. a 
investigao das pistas fornecidas, e os seus agentes, como era usual,

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haviam trabalhado intensamente no caso. No entanto, todos os esforos despendidos 
resultaram em pura perda pois nunca lhes ocorrera, bem como aos Ingleses, que estava 
implicado no assunto um diplomata de categoria superior. Ao contrrio, haviam concentrado 
as investigaes no pessoal sem funes diplomticas, particularmente naquele que fora 
recrutado no local, os varredores, as mulheres de limpeza, os lavadores, etc. Uma mulher-a-
dias de ascendncia lituana, por exemplo, era objecto de um relatrio de quinze pginas, 
com pormenores insignificantes sobre a famlia e os amigos, a sua vida privada e os seus 
hbitos de frias, o que testemunhava bem os enormes recursos do F.B.I. e os exageros 
lamentveis a que levavam esses recursos. Era o suficiente para me convencer de que no 
era necessria uma aco imediata, embora fosse preciso vigiar o caso em pormenor. Tinha 
de tomar uma atitude drstica antes de partir de Wasnington. S os cus sabiam para onde 
me levaria a minha prxima transferncia e podia perder totalmente o controle 
do caso.

A minha ltima visita em Londres foi ao escritrio do chefe. Estava em ptima forma e 
divertiu-me com descries maliciosas de episdios ocorridos durante a guerra, acerca das 
relaes entre os servios secretos ingleses e americanos. A nossa conversa, no entanto, no 
foi apenas uma mera troca de banalidades. Disse-me que parecia que Hoover ficara 
preocupado ao saber da minha nomeao. Eu era ento considerado um agente competente, 
enquanto Dwyer (muito imerecidamente) no o era. Hoover suspeitava de que a minha 
nomeao podia originar uma redobrada actividade do S.I.S. nos Estados Unidos. O chefe, 
para lhe atenuar os receios, mandou-lhe um telegrama pessoal, assegurando-o de que no 
havia a mnima inteno de alterar os nossos mtodos de trabalho. As minhas funes seriam 
unicamente de ligao. O chefe mostrou-me o telegrama e, depois, olhou fixamente para 
mim. Isto, disse ele  uma comunicao oficial de mim para Hoover. Fez uma pausa e 
continuou: Particularmente... vamos discutir o assunto durante o almoo no White.

Depois de uma preparao to completa quanto se

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poderia esperar, parti no Caronia, em fins de Setembro. Tive uma despedida 
memorvel. A primeira coisa que avistei no cais nevoento de Waterloo foi um par enorme 
de bigodes e por trs deles a grande cabea de Osbert Lancaster, e assim fiquei com a 
certeza de que teria boa companhia durante a viagem. Antes de partirmos, fui chamado ao 
telefone do barco. Era Jack Easton, para me comunicar que acabavam de receber um 
telegrama de Dwyer em que este apresentava o seu pedido de demisso. No percebi bem 
a razo do aviso, mas registei-o. Por fim entregaram no meu camarote uma caixa de garrafas 
de champanhe, juntamente com um carto de um amigo meu imensamente rico. Comeou a 
parecer-me que ia gostar da minha primeira travessia transatlntica.

Cometi um erro quase imediatamente a seguir  minha entrada nas guas territoriais 
americanas. Um representante do F. B. I. viera na lancha dos pilotos para me cumprimentar 
e eu ofereci-lhe um copo de Tio Pepe, que ele bebeu com um ar infeliz, 
enquanto mantnhamos uma conversa banal. Soube mais tarde que os homens do F.B.I., 
com raras excepes, se orgulhavam da sua limitada instruo e de descenderem das razes 
do povo. Um dos g-men de maior idoneidade que encontrei em Washington dizia 
que o seu bisav tivera um armazm em Horse Creek, no Missuri. Eram, portanto, 
bebedores de whisky, ou de cerveja, mas esta apenas como refresco. Pelo 
contrrio, os homens da C.I.A. eram mais mundanos e cosmopolitas. Discutiam os mritos 
do absinto e bebiam borgonha aquecido. Isto no revelava unicamente petulncia, 
demonstrava tambm uma diferena social muito grande entre as duas organizaes, que 
explica, pelo menos, em parte, muitos dos atritos que ocorriam entre elas.

O meu amigo do F.B.I. acompanhou-me enquanto cumpria as formalidades de desembarque 
e instalou-me num hotel com vista para o Central Park. No dia seguinte embarquei, em 
Pennsylvania Station, no comboio para Washington. O sumagre estava ainda em flor, e 
proporcionou-me uma anteviso das clebres cataratas, uma das poucas glrias da Amrica 
que os Americanos nunca exageraram, porque  impossvel faz-lo. Peter

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Dwyer foi ter comigo e explicou-me, enquanto bebamos o nosso primeiro 
Bourbon, que a sua demisso no tinha nada a ver com a minha nomeao. Por 
motivos pessoais, desejava h muito estabelecer-se no Canad, onde o esperava um lugar 
bem remunerado no Governo. A notcia da minha nomeao fizera-lhe apenas recordar que 
era a altura prpria de se mudar para o Norte, para Otava. Fomos ento dar um agradvel 
passeio a p e, de facto, o cuidado e a astcia com que ele me ps a par da poltica de 
Washington foram inexcedveis.

No  fcil dar uma imagem coerente do meu trabalho nos Estados Unidos. Na verdade, 
apesar de tudo o que eu possa contar, ficar-se-ia sempre com uma idia errada: era 
demasiado variado e muitas vezes, demasiado indeterminado para ser explicado em termos 
simples. Bastaria a ligao com o F.B.I., se tivesse sido explorada completamente, para 
fornecer trabalho mais que suficiente. McCarthy estava no apogeu, assim como Hiss, 
Coplon, Fuchs, Gold, Greenglass e os valentes Rosenberg para no falar de outros menos 
conhecidos. A ligao com a C.I. A. abrangia ainda um campo mais vasto, indo desde uma 
tentativa sria para derrubar um regime da Europa Oriental at problemas como a 
interpretao correcta de documentos alemes relativos ao general Vlasov. Em cada questo 
que surgia, a primeira dificuldade era agradar a um departamento sem ofender o outro. 
Alm disso, tinha de trabalhar com a Royal Canadian Mounted Police e com pessoal do 
Department of Externai Affairs, que alimentava a idia de organizar um servio secreto 
canadiano independente.

Por onde comear? Como todo o meu trabalho se relacionava principalmente com o F.B.I., 
vou contar primeiro o que se passou com a C.I.A. Aquando da minha chegada, o chefe da 
C.I.A. era o almirante Hillenkoetter, um marinheiro amvel, que em breve foi substitudo 
pelo general Bedell Smith sem deixar assinalada a sua passagem na histria da espionagem 
americana. As duas seces com que tinha de contactar mais amiudadamente eram o Office 
of Strategic Operations (O.S.O.) e o Office of Policy Coordination (O.P.C.). Falando 
claramente, o O.S.O. era a diviso que reunia

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informaes e o O.P.C, estava encarregado da subverso. Mantinha ainda relaes com a 
diviso de planeamento na altura dirigida por Dick Helms, que sucedeu recentemente ao 
almirante Rabone como chefe da C.I.A., e que, logo a seguir, entrou em conflito com o 
Senado.

O principal elemento do O.S.O. era, na altura, Jim Angleton, que trabalhara primeiro em 
Londres e conquistara o meu respeito, porque rejeitara abertamente a tendncia anti-inglesa 
que predominava no O.S.O. Habitumo-nos a almoar uma vez por semana no Harvey. 
onde ele me demonstrava que trabalhar demasiado no era o seu nico vcio. Apesar de ser 
um dos homens mais magros que conheci, comia com um apetite devorador. Feliz Jim! 
Depois de acompanhar Angleton durante um ano, aceitei o conselho de uma velha amiga e 
comecei a fazer dieta: pesava oitenta e cinco quilos e em trs meses emagreci cerca de 
doze.

Tenho a certeza de que a nossa intimidade era inspirada por uma amizade sincera e 
recproca. Contudo ambos tnhamos outros motivos para a manter. Angleton queria transferir 
a maior parte dos assuntos a tratar entre a C.I.A. e o S.I.S. para o escritrio da C.I.A. em 
Londres que era dez vezes maior que o meu. Assim poderia exercer a mxima presso 
directamente sobre a sede do S.I.S., enquanto diminuam consideravelmente as instrues 
do S.I.S. nos seus domnios. Como manifestao de nacionalismo era absolutamente justo e, 
cultivando a minha amizade, tinha-me sob o seu domnio. Pela minha parte, estava 
contentssimo por andar com Angleton: quanto mais confiana houvesse entre ns, menos 
suspeitaria das aces secretas que eu empreendesse. Contudo, tinha uma grande vantagem 
sobre ele: sabia qual o trabalho que Angleton executava para a C.I.A., tal como ele conhecia 
as minhas funes no S.I.S, mas do que Angleton no suspeitava era da verdadeira natureza 
dos meus interesses.

Apesar de as nossas discusses abrangerem toda a espcie de assuntos de carcter mundial, 
terminavam geralmente com debates sobre a Frana ou a Alemanha. Os Americanos tinham 
um medo obsecante dos comunistas franceses, e eu espantava-me por Angleton devorar

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diariamente resmas de jornais franceses. Contudo, no era s ele que suspeitava da Frana. 
At o prprio general Bedell Smith deu ordens terminantes para que no fornecessem a 
Alexandre Parodi, chefe do servio secreto francs, informaes importantes, e chegou-me 
at a afirmar convictamente que no confiava em nenhum oficial francs.

Angleton alimentava menos reservas em relao  Alemanha. Esse pas interessava-o 
principalmente como socialistas da Europa Oriental. A C.I.A. no perdera tempo a apropriar-
se da seco anti-sovitica do Abwehr dirigida por Von Gehlen, e muitas vezes Angleton, 
para encerrar a discusso, acabava por defender calorosamente as actividades passadas e 
actuais da organizao de Von Gehlen.

Travmos tambm vrias escaramuas acerca das diversas organizaes de imigrantes 
russos, assunto de que me voltarei a ocupar neste captulo. Entre elas destacavam-se a 
Aliana do Trabalho do Povo (N.T.S.), que se evidenciara recentemente no caso do pobre 
Gerald Brooke, e os fascistas da Ucrnia, de Stepan Bandera, os preferidos dos Ingleses. A 
C.I.A. e o S.I.S. estavam envolvidos na poltica dos imigrantes, e pretendiam utilizar-se dos 
grupos mais activos, tal como ns j nos servramos de Jordnia e dos seus georgianos. 
Apesar de os Ingleses tentarem manter o seu predomnio sobre os grupos a que estavam 
ligados h mais tempo, o certo  que os Americanos se infiltravam cada vez mais no campo 
da imigrao. O dlar operava milagres, como, por exemplo, no caso da N.T.S. que por 
motivos econmicos passou a depender da C.I.A., apesar da influncia inglesa no referido 
grupo. Tudo se processou por meio de um acordo formal entre as duas organizaes, e 
apesar de o caso Brooke, um ingls, poder fazer supor que o S.I.S. era capaz de continuar a 
actuar na sombra, uma aco desta natureza estava perfeitamente de acordo com a tica do 
servio secreto.

Tnhamos muito mais que discutir acerca da Alemanha, porque o S.I.S. e a C.I.A., podiam 
operar livremente em territrio ocupado. A actividade secreta de qualquer natureza, 
incluindo as dirigidas directamente contra

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as prprias autoridades alems, era financiada pelos Alemes, como parte do pagamento das 
despesas da ocupao.

Alm de Angleton, o meu principal contacto no O.S.O. era William J. Howard. Trabalhara 
anteriormente no F.B.I. e Hoover despedira-o por estar bbado nas horas de servio. A 
primeira vez que jantou em minha casa demonstrou que no modificara os seus hbitos: 
adormeceu quando se servia o caf e ficou sentado a ressonar at  meia-noite, altura em 
que a mulher o acordou dizendo: Vamos embora, paizinho, j so horas de estares na 
cama. Podem acusar-me de dar aqui uma nota de mau gosto, mas, como veremos mais 
tarde, Howard agiu para comigo de uma forma pouco cordial e eu no gosto de deixar uma 
provocao sem a devida resposta. Depois de admitir a minha m vontade contra Howard,  
justo que acrescente que ele colaborou muito bem com o S.I.S. na construo do famoso 
tnel de Berlim.

Como j disse, o Office of Policy Coordination (O.P.C.) tratava da subverso  escala 
mundial. O seu chefe era Frank Wisner, um homem muito novo para um lugar de tanta 
responsabilidade, careca e com uma ntida tendncia para a obesidade. Tinha uma maneira 
de conversar absolutamente desconcertante. Acompanhei a Londres uma misso chefiada 
por ele que tinha por objectivo tratar com o S.I.S. assuntos de interesse comum. Quando as 
discusses incidiam sobre problemas de carcter internacional, o Foreign Office enviou 
representantes para assistirem s sesses de trabalho. Numa destas reunies, em que o 
representante do Foreign Office era Tony Rumbold, Wisner dissertou acerca de um dos 
seus temas favoritos: a necessidade de camuflar a origem de fundos secretos fornecidos a 
entidades aparentemente respeitveis s quais estvamos ligados.  essencial, disse 
Wisner no seu estilo inslito, assegurarmo-nos da cooperao de pessoas com acesso 
evidente  riqueza dos seus prprios direitos. Rumbold comeou a escrever e eu espreitei-
lhe por cima do ombro e vi o que ele anotara: Pessoas com acesso evidente  riqueza dos 
seus prprios direitos, ou seja pessoas ricas.

168

As minhas relaes com o O.P.C. eram mais estreitas que com o O.S.O., as quais se 
limitavam, acima de tudo, a descobrir o que eles planeavam. Pouco antes da minha chegada 
a Washington os Governos americano e ingls tinham sancionado, em princpio, uma 
operao clandestina destinada a separar do bloco socialista um pas da Europa Oriental. A 
escolha caiu, por vrias razes, na Albnia. Era o estado socialista mais pequeno e mais 
fraco, as suas fronteiras confinavam, a sul, com a Grcia

aliada da Inglaterra e dos Estados Unidos, e, tecnicamente, ainda em guerra com a Albnia  
e, a norte e a este, com a Jugoslvia. Os nossos peritos consideravam erradamente, na 
minha opinio  que o marechal Tito, depois de ter proclamado a sua independncia em 
relao ao bloco socialista adoptaria uma poltica liberal   no que   respeita   a   quaisquer   
mudanas   em Tirana. A Albnia parecia, portanto, convenientemente, isolada e, alm 
disso, ficava a pouca distncia de Malta. Devido s mltiplas implicaes polticas de um tal 
projecto, o State Department e o Foreign Office insistiram em manter uma superviso 
completa da operao. Depois de sujeita a essa superviso, a execuo era da 
responsabilidade do S.I.S. e do O.P.C.

Os Ingleses e Americanos estavam em contacto com os grupos de imigrados albaneses e 
resolveram reunir os seus esforos para auxiliarem a contra-revoluo. Os Ingleses 
ofereceriam Malta como base avanada de operaes e os pequenos barcos necessrios 
para a infiltrao de agentes; os Americanos prestariam apoio financeiro e auxlio logstico, 
facultando o uso de Whelus Field, na Lbia, como base de retaguarda e depsito de 
abastecimentos. O rei Idris no estava a par do segredo; na altura era apenas emir. Na 
prolongada disputa anglo-americana que se seguiu, Malta foi o nosso triunfo. Quando 
queremos fazer uma revoluo em qualquer lado, confiou-me Wisner, chegamos sempre 
 concluso de que os Ingleses tm uma ilha de grande valor estratgico.

O maior problema que surgiu foi o relativo  orientao poltica a imprimir  contra-
revoluo. Estvamos na era pr-Dulles e os Estados Unidos ainda no tinham

169

comeado a auxiliar abertamente qualquer reaco extremista. O State Department estava, 
por isso, ansioso por conferir  contra-revoluo uma feio democrtica e. neste aspecto, 
ganhou-nos terreno, pois enviou para Nova Iorque uma grande quantidade de refugiados 
albaneses. Estes formaram um comit nacional, que elegeu para seu chefe um 
certo Hassan Dosti, jovem advogado que. de acordo com o O.P.C., tinha uns antecedentes 
impecveis como democrata, apesar de eu no conseguir imaginar que espcie de provas 
possuiriam os Americanos para fazerem uma afirmao deste gnero. Se bem que fizesse 
vrias tentativas, nunca cheguei a conhecer Dosti. Disseram-me que o O.P.C, tinha de o 
tratar com grande cuidado, pois assustava-se com facilidade. Era, de facto, um homem 
indicado para dirigente poltico!

Se o Comit Nacional Albans de Nova Iorque no me inspirava confiana, fiquei 
igualmente desiludido com a personagem que os Ingleses escolheram para dirigir os 
refugiados albaneses. Era um chefe tribal insignificante chamado Abbas Kupi, um velho 
amigo de Julian Amery. Pelas fotografias dele, sabia que usava suas e andava 
normalmente armado at aos dentes  parecia feito  medida para pr em prtica o 
paternalismo britnico. No tinha dvida de que ele podia igualar os feitos dos seus 
antepassados, assaltar caravanas desarmadas ou liquidar soldados de infantaria turcos, que, 
vencidos pelo calor, caminhassem com dificuldade, e j sem esperana, pelos desfiladeiros.  
Contudo  nunca comparticipei na admirao dos Ingleses por um chefe tribal. Tenho a 
certeza de que a lendria coragem tribal  apenas um mito e que o valente montanhs  to 
bravo como um leo, mas apenas no sentido de que o leo (muito sensatamente) evita as 
lutas, a menos que tenha a certeza de uma oposio fraca e de uma boa refeio no fim. 
Resumindo, se Dosti era um jovem fracalhote, Abbas Kupi era um velho malandro. A 
interminvel discusso anglo-americana acerca dos mritos dos seus protegidos s se 
compreende se a encararmos como uma disputa para decidir quem dominaria o governo 
contra-revolucionrio  se alguma vez se formasse. Quando os 

170

ingleses e os Americanos, por fim, se cansaram de discutir e tentaram chegar a acordo, 
descobriram que Dosti e Abbas Kupi tinham sido de tal modo fortalecidos nas suas atitudes 
pelos respectivos padrinhos que no conseguiam convencer nenhum deles a ficar sob as 
ordens do outro.

O controle dirio da operao estava nas mos de um Special Policy 
Committee (S. P. C.), que se reunia em Washington. Era formado por quatro membros, que 
representavam o State Department, o Foreign Office, o O. P. C. e o S. I. S. O representante 
do State Department era Bob Joyce, um homem jovial com experincia dos assuntos 
balcnicos; Earl Jellicoe. da Embaixada britnica, igualmente uma pessoa jovial, 
representava o Foreign Office; Frank Lindsay, tambm de uma evidente jovialidade, era o 
homem do O.P.C.; e, por fim, eu. Torna-se evidente, dado o feitio alegre dos membros do 
comit, que as nossas reunies eram pouco formais. Lindsay deu-lhes o tom ao 
notar, na nossa primeira reunio, que o primeiro albans que ele vira estava pendurado, de 
cabea para baixo, entre barras paralelas. Mesmo nos momentos mais graves, ns, Anglo-
Saxes, nunca nos esquecemos de que os nossos agentes tinham acabado de cair das 
rvores. Apesar da minha anterior afirmao de que o S. P. C. tinha o controle 
da operao, a verdade  que nunca pudemos agir livremente. O quartel-general lembrava-
me insistentemente a promessa feita pelo S. I. S. a Abbas Kupi e eu estava sob a ameaa 
permanente de o quartel-general vetar a operao. Tenho a certeza de que Frank Lindsay 
estava submetido a iguais presses.

Em circunstncias destas,  talvez surpreendente que a operao se chegasse a realizar. 
Conseguimos por fim desembarcar um pequeno grupo de albaneses na costa da Albnia, 
com instrues de caminharem para o interior, recolherem o maior nmero possvel de 
informaes e dirigirem-se depois para o sul, em direco  fronteira grega. Espervamos 
que as informaes que eles obtivessem nos ajudassem, mais tarde, a pr em prtica planos 
mais ambiciosos. Contudo a operao, desde o incio, revelou-se de uma infantilidade 
chocante. Os nossos agentes apenas poderiam conseguir algo de til se penetrassem nas 
cidades, que estavam sob o controle firme dos

171

comunistas, mas, como era evidente, no lograram os seus intentos e tiveram de se esconder 
nas montanhas, onde a sua presena s seria proveitosa se o pas estivesse revoltado. Era 
esta falsa suposio que estava por trs de toda a aventura, tal como aconteceu 
recentemente (a C.I.A. tinha obrigao de estar mais bem informada) com o desembarque 
na baa dos Porcos, que se julgava suficiente para provocar a revolta de toda a ilha de Cuba. 
No fim, alguns membros do grupo conseguiram atingir a Grcia, e tivemos imensas 
dificuldades em os libertar das garras das autoridades de segurana gregas que os teriam 
gostosamente fuzilado. As informaes que trouxeram eram de reduzida importncia, e 
tornava-se evidente que em parte alguma haviam sido recebidos de braos abertos.

A operao foi posta de lado tempos depois e no causou prejuzos visveis ao regime de 
Tirana. Foi bom para os Governos ingls e americano que a tentativa no tivesse resultado. 
No caso de serem bem sucedidos, os seus novos protegidos levantar-lhes-iam inmeros 
problemas, para no falar das dificuldades que surgiriam nas relaes com a Grcia e a 
Jugoslvia e, talvez, tambm com a Itlia. Da a poucos anos Enver Hoxha * fez o mesmo 
trabalho com muito mais eficincia, e a perturbao chegou at Pequim. A moral da histria 
parece ser que  melhor retirar na altura prpria que contar com os ventos da fortuna. A 
mesma concluso podia-se aplicar hoje ao Sueste Asitico.

As divergncias polticas tambm prejudicavam os planos anglo-americanos de maior 
experincia potencial que a aventura da Albnia, como por exemplo os projectos para a 
penetrao e subverso da prpria Unio Sovitica. O S.I.S. e a C.I.A. tinham os seus 
prprios fantoches do Bltico, cujas ambies se mostravam em geral, irreconciliveis. Era 
com prazer que eu via as faces inimigas guerrearem-se at ao esgotamento. Em dado 
momento, as lutas assumiram aspectos to perigosos que Harry Carr, o perito em assuntos 
do Norte da Europa

* Chefe de guerrilhas albans, treinado na Rssia, que, depois da guerra, derrotou a faco nacionalista e se apoderou do Poder.

172

dos Broadway,  partiu para Washington com ordens

terminantes de suster a luta. A sua visita no teve resultados prticos, pois Carr e os homens 
da C.I.A. acusaram-se mutuamente, sem justificao, de mentirem descaradamente durante 
as reunies. As discordncias sobre a Ucrnia eram ainda mais graves e igualmente 
infundamentadas. J desde a poca anterior  guerra que o S. I. S. mantinha contactos com 
Stepan Bandera, um nacionalista da Ucrnia de tendncias nitidamente fascistas, contactos 
esses que persistiram durante o conflito mundial. Porm, apesar de Bandera dispor de 
influncia entre os refugiados, nunca se provou que essa influncia fosse extensiva 
igualmente ao territrio ucraniano, ou melhor, todas as tentativas feitas nesse sentido 
malograram-se: foi enviado para a Ucrnia, em 1949, um grupo, equipado com aparelhos de 
telegrafia sem fios e outros meios de comunicao clandestinos, o qual jamais deu sinais de 
vida; mais tarde, precisamente no ano seguinte, mandaram-se mais dois grupos, que tambm 
nunca deram notcias. Entretanto, os Americanos comeavam a duvidar seriamente de que 
Bandera pudesse ser til ao Ocidente, e o desaparecimento destes grupos enviados pelos 
Ingleses, mais aumentou as suas suspeitas.

A C.I.A. principiou a atacar a aliana entre Bandera e o S.I.S. em 1950, e empreguei a 
maior parte do tempo que passei nos Estados Unidos a transmitir speras mensagens de 
Londres para Washington e vice-versa acerca dos mritos das obscuras faces rivais de 
imigrados. A C. I. A. apresentou trs objeces srias  nossa aliana com Bandera. O seu 
nacionalismo extremista, com cambiantes fascistas, era um factor que podia prejudicar os 
contactos do Ocidente com outros grupos no interior da Unio Sovitica, como por exemplo 
os Grandes Russos. Diziam tambm que ele apenas dispunha de influncia entre os velhos 
imigrantes e que no tinha quaisquer contactos com os novos, mais realistas, que os 
Americanos protegiam a todo o custo. Por fim, foi acusado claramente de ser antiamericano. 
O argumento dos Ingleses de que Bandera apenas era usado para se conseguirem 
informaes secretas e que ele no tinha realmente importncia poltica foi rejeitado pelos 
Americanos, que

173

diziam que, fosse qual fosse a natureza da ligao, ela reforaria o prestgio de Bandera na 
Ucrnia. Tinham medo de que o aumento do nmero dos adeptos de Bandera provocasse 
uma diviso no movimento de resistncia ucraniano com que eles trabalhavam.

A fraqueza dos argumentos americanos era devida ao facto de se limitarem unicamente a 
afirmaes e a pouco mais. Os resultados conseguidos pelos imigrantes mais realistas e pelo 
movimento de resistncia protegido pelos Americanos foram ainda muito mais reduzidos 
que os obtidos por meio da ligao Inglaterra-Bandera.  verdade que a C. I. A. pretendia 
ter recebido alguns correios da Ucrnia no Inverno de 1949/50, mas o reduzido valor das 
informaes dava a impresso de que elas tinham sido fornecidas por uns pobres 
vagabundos que nunca haviam estado na Ucrnia. Em 1951, depois de alguns anos de 
trabalho duro, a C. I. A. ainda esperava enviar um representante poltico, com trs 
assistentes, para estabelecer contacto com o movimento de resistncia. Constituram 
tambm uma equipa suplente formada por quatro elementos que seria enviada no caso de o 
primeiro grupo desaparecer sem deixar vestgios.

A C.I.A., para resolver as divergncias anglo-americanas acerca do problema da Ucrnia, 
insistiu numa conferncia de alto nvel com o S. I. S., que se realizou em Londres em Abril 
de 1951. Para minha surpresa, os Ingleses mantiveram-se firmes e recusaram abertamente 
desligar-se de Bandera. O melhor que se conseguiu, com evidente m vontade dos 
Americanos, foi combinar que a situao seria reexaminada depois de se efectuar a 
operao de pra-quedistas, altura em que se esperava poder dispor de mais informaes. 
Os Ingleses conseguiram lanar trs grupos de seis homens, de avies que descolaram de 
Chipre. Um grupo saltou a meio caminho entre Lwow e Tarnopol, outro perto do rio Pruth, 
no longe de Kolomyya, e o terceiro junto da fronteira da Polnia, perto da nascente do 
San. A fim de evitar os perigos de sobreposio e duplicao, os Ingleses e os Americanos 
trocaram informaes precisas acerca do horrio e das coordenadas geogrficas das suas 
operaes. No sei o

174

que aconteceu aos grupos, mas creio que sou capaz de adivinhar.

Cerca de oito anos mais tarde, soube do misterioso assassnio de Bandera em Munique, na 
zona americana da Alemanha. Talvez a Cl. A., apesar de os Ingleses no quererem admitir 
essa hiptese, tivesse proferido a ltima palavra.

Captulo XI

Ameaas de tempestade

O F. B. I. estava envolvido num caso lamentvel quando cheguei a Washington. Tinha 
arranjado lenha para se queimar, como vulgarmente se diz, na pessoa de Judith Coplon, uma 
rapariga esperta, empregada no Departamento de Justia, e a quem pretendiam inculpar por 
actos de espionagem. Quando as provas contra ela, que foram conseguidas pondo o seu 
telefone sob escuta, eram em nmero suficiente para justificar a sua priso, Hoover 
concedeu a necessria autorizao e Coplon foi detida. Surpreenderam-na quando passava 
documentos ao seu contacto e o caso parecia ficar por ali. Mas o F. B. L, com a pressa, 
esquecera-se de se munir de um mandado de captura e, assim, o seu procedimento era 
ilegal. O F.B.I. s pode efectuar prises sem o respectivo mandado se houver um motivo 
razovel para se supor que o suspeito se prepara para empreender a fuga. Como Coplon foi 
apanhada numa rua de Nova Iorque, ao sair de uma estao, no a podiam acusar de fuga 
iminente, mesmo que fossem dotados de grande imaginao.

A ilegalidade da sua priso foi denunciada ao tribunal, mas o pior estava ainda por 
acontecer. Coplon, apesar de ter sido apanhada em flagrante delito, estava resolvida a lutar 
at ao fim e despediu o seu primeiro advogado, alegando que era demasiado conciliatrio 
para com a acusao; ela tentava, possivelmente, obter no a absolvio, que parecia uma 
hiptese inadmissvel, mas uma diminuio da pena. Assistida por um segundo advogado, 
passou ao contra-ataque e comeou a apertar as testemunhas do F.B.I. Conseguiu 
confundi-las de tal modo que elas admitiram no s ter vigiado o telefone dela, mas at os 
telefones da sede das Naes Unidas. O julgamento comeou por transmitir ao pblico uma 
imagem to deformada do F.B.I. que Hoover retirou as acusaes e procurou um bode 
expiatrio, que era a sua maneira habitual de remediar um fiasco. Harvey Flemming,

176

a principal testemunha do F.B.I. no julgamento, foi despedido, enquanto Coplon saiu em 
liberdade. Foi o triunfo de uma mulher valente. Sempre que o seu nome era mencionado no 
Departamento de Justia, acrescentavam-lhe um adjectivo ofensivo.

O falhano do F.B.I. no caso Coplon no foi nico, nem sequer invulgar. No possuo dados 
para falar acerca da folha de servios do F. B. I. no que diz respeito  investigao de 
crimes cometidos nos Estados Unidos, pois nada tinha a ver com esse campo das suas 
actividades. No entanto, o seu trabalho na contra-espionagem dizia-me directamente 
respeito e, nesse campo, os fracassos eram em nmero bastante superior aos xitos. Hoover 
no capturou Maclean nem Burgess; no apanhou Fuchs, e nada conseguiria se os Ingleses 
no o tivessem prendido, aproveitando-se, com argcia, de seu feitio emotivo e das suas 
hesitaes; no capturou Lonsdale e tambm no apanhou Abel durante anos. Foi o 
Hayhanen que lho ofereceu numa bandeja. Para terminar, tambm no me prendeu a mim. 
Se algum alguma vez gozou de uma reputao imerecida, foi Hoover.

Contudo, Hoover  um grande poltico. Os seus mtodos genricos e o seu autoritarismo 
implacvel so armas erradas para o mundo subtil da espionagem, mas apresentam algumas 
vantagens. Possibilitam a Hoover reunir e arquivar uma grande quantidade de informaes 
sobre a vida particular de milhes dos seus compatriotas. H muito que isto  do 
conhecimento comum e proporcionou a Hoover ricos dividendos sados da bolsa dos 
contribuintes americanos. H pouca gente no mundo que no tenha coisas a esconder e que 
no prefira que elas fiquem esquecidas. Os arquivos pblicos mostram que um nmero 
assaz elevado de deputados americanos tm um passado que no pode resistir a um exame 
muito minucioso. E quanto ao arquivo secreto de Hoover? A prpria existncia dos enormes 
sistemas de arquivos do F.B.I. impedia muitos de atacar o imprio totalitrio de Hoover.

Estou a falar do perodo McCarthy. Pode-se pensar que Hoover perderia prestgio e o seu 
imprio seria abalado devido  aco de um senador que dizia ter 

177

conseguido sozinho desvendar uma conspirao comunista no seio do State Department e 
noutros ramos do Governo dos Estados Unidos. Mas no. Hoover sabia que bastava abrir a 
boca para eliminar as pretenses de McCarthy. Mas para qu faz-lo? McCarthy, 
provocando uma febre de espionagem em toda a nao, criava condies favorveis  
actuao do F.B.L, e nenhum deputado ousaria opor entraves a que o campo de aco do 
F.B.I. se alargasse. O que Hoover pensava realmente de McCarthy tornou-se evidente no 
primeiro encontro que tive com ele, quando lhe fiz a pergunta directamente. Bem, 
respondeu Hoover. encontro Joe muitas vezes na pista de corridas, mas nunca me 
ganhou.

A minha primeira casa em Washington era em Connecticut Avenue, quase em frente da de 
Johnny Boyd, director assistente do F. B. I. e encarregado da segurana. Pareceu-me boa 
idia acampar mesmo  porta do covil do leo durante algum tempo  mas apenas durante 
algum tempo. A casa era pequena e em breve insisti na necessidade de me mudar para uma 
maior e mais segura; finalmente fixei-me num edifcio a cerca de oitocentos metros de 
Nebraska Avenue. Boyd era o meu principal contacto com o F.B.I. e via-o vrias vezes por 
semana, quer no escritrio, quer em casa. Era um dos antigos pistoleiros de Hoover em 
Detroit  o homem que ia sempre  frente quando havia tiroteio  e demonstrava-o bem. 
Era baixo e muito encorporado e devia ter sido bem difcil de agarrar antes de ter arranjado 
uma enorme barriga. A sua cara e o seu aspecto geral davam-lhe, mesmo ao longe, um ar de 
desordeiro. No tinha interesses intelectuais de qualquer espcie e o seu divertimento 
favorito era usar truques sujos com mulheres que iam a sua casa pela primeira vez. Possua 
outras caractersticas infantis, incluindo a crueldade directa e dura das crianas. De acordo 
com todos os padres normais, era um homem horrvel, mas no pude deixar de me tornar 
seu amigo.

Boyd deu-me imediatamente a entender que desaprovava o meu contacto ntimo com a C. 
LA. Desagradavam-Ihe claramente os ares cosmopolitas dos seus agentes. Sabes o que se 
aprende na C. L. A, meu filho?, disse-

178

-me uma noite. A usar os talheres e a casar com mulheres ricas. Sustentava tambm 
grandes reservas acerca da intensa vida social feita pelos oficiais da Marinha americana. 
Apesar de tudo, dava-me bem com ele desde que no tentasse fazer-me esperto e 
suportasse os insultos com que senti o gume afiado da sua lngua foi (felizmente) pouco 
antes de Pter Dwyer partir para Otava. Aconteceu que tanto o representante do M.I. 5 em 
Washington, Geoffrey Paterson, como ns recebemos idnticas instrues de Londres, 
encarregando-nos de tratar de determinado assunto com  F. B.I. Paterson foi o primeiro a 
agir e recebeu uma reprimenda; disseram-lhe que Londres no tinha nada a ver com o caso. 
Quando, logo a seguir, Dwyer e eu chegmos para discutir a mesma questo, Boyd olhou-
nos furibundo.  esse ento o jogo disse ele, pousando o cigarro e pondo-se vermelho. 
Geoffrey j c esteve e eu pu-lo logo a andar. E ento o que acontece? Entram vocs os 
dois e tentam o mesmo... Seguiu-se uma reprimenda de dez minutos contra a qual era intil 
dizer fosse o que fosse. A sua fria era sincera, apesar de exagerada em relao  
importncia do problema que tnhamos ido discutir com ele. O que o irritou foi a maneira 
como inadvertidamente, ns agimos. Estava encarregado de pr o M. I. 5 e o S.I.S. um 
contra o outro, para explorar as nossas divergncias. E, pelo contrrio, ns formvamos um 
grupo, havamo-nos aliado contra ele. Apesar disso, nessa mesma noite convidou-me para ir 
a casa dele, onde bebemos Bourbon at altas horas da madrugada sem trocarmos 
uma s palavra acerca do que se passara de manh.

Continumos a receber informaes acerca da fuga de segredos da embaixada. Alm de 
Dwyer, que estava prestes a ir-se embora, apenas trs membros do pessoal da Embaixada 
britnica tinham acesso ao material: Paterson. eu prprio e Bobby Mackenzie, o oficial de 
Segurana que tinha sido meu colega na Seco V. No F.B.I. os agentes implicados no caso 
eram Boyd, Lishman. ento chefe da seco anticomunista, e Bob Lamphere, um homem 
simptico e gordo, de Ohio, responsvel americano pela anlise pormenorizada do caso. 
Estvamos

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ainda longe de identificar a fonte das fugas na Embaixada britnica, mas durante o Inverno 
de 1949/50 a rede comeou a fechar-se em volta de Los Alamos. As suspeitas recaam 
sobre dois cientistas de grande renome, o Dr. Peierls e o Dr. Fuchs. O ltimo servio que 
Dwyer prestou ao S.I.S. foi, precisamente, atravs de uma anlise brilhante dos movimentos 
dos dois homens, eliminar em definitivo Peierls. A partir de ento tudo indicava claramente 
ser Fuchs o espio.

Surgiram as habituais dificuldades acerca da natureza das provas, que no eram vlidas 
perante a lei. Mas Fuchs, ao contrrio de Judith Coplon, forneceu provas contra si prprio. 
Pouco depois de Dwyer o ter identificado como a fonte de informaes de Los Alamos, 
partiu para Inglaterra numa visita de rotina. Foi preso assim que chegou e entregue a James 
Skardon, do M. I. 5, para ser interrogado, Skardon conseguiu conquistar de tal modo a sua 
confiana que Fuchs no s confessou a sua participao no caso, como identificou tambm, 
por meio de fotografias, o seu contacto nos Estados Unidos, Harry Gold. De Gold, que 
tambm se mostrou disposto a falar, a urdidura levou inexoravelmente aos Rosenberg, que 
foram electrocutados. Vale a pena recordar que Eisenhower explicou porque se tinha 
recusado a suspender a pena de Ethel Rosenberg: se o fizesse, afirmou, os Russos, da em 
diante, usariam apenas mulheres como espias.  uma atitude digna do mais vulgar dos 
presidentes dos Estados Unidos.

Houve uma outra particularidade notvel no caso Fuchs. Hoover, que no contribura em 
nada para a sua captura, estava decidido a tirar, politicamente, o maior partido possvel do 
caso. Para esse fim, necessitava de mostrar que tambm tinha em seu poder provas 
incriminatrias, e s as conseguiria obter se o prisioneiro fosse interrogado por um agente 
do F. B. I. Anunciou a sua inteno de enviar Lishman a Londres para inquirir Fuchs na sua 
cela. Paterson e eu recebemos instrues para lhe dizermos que tal ideia era completamente 
despropositada. Fuchs estava, sob custdia,  espera de julgamento, e era completamente 
impossvel sujeit-lo a um interrogatrio, muito menos por um agente de uma

180

potncia estrangeira. Encontrei Hoover num estado de grande excitao e sem qualquer 
disposio de se deixar impressionar pela majestade da lei britnica. Recusou-se a acat-la. 
Lishman foi mandado a Londres, com instrues peremptrias de ver Fuchs ou seno... A 
resposta foi seno. Quando soube que Lishman tinha voltado, fui ao seu escritrio, uma 
sala grande, toda atapetada. Estava outro sentado  sua secretria e encontrei Lishman umas 
portas adiante, a escrever no canto de uma secretria, numa sala pequena, juntamente com 
quatro agentes principiantes. O pobre diabo estava furioso e muito desanimado. Olhou para 
mim como se a culpa fosse minha. Era assim a vida sob as ordens de Hoover.

No Vero de 1950, recebi uma carta de Guy Burgess. Vais a apanhar um choque, 
comeava ele. Fui colocado em Washington. Sugeria que eu o recebesse em minha casa 
durante uns dias at encontrar alojamento. Ora isto criava um problema. Em circunstncias 
normais, seria um erro dois agentes secretos viverem juntos. Mas as circunstncias no eram 
normais. As nossas carreiras estavam ligadas desde o princpio. Ele angariara dinheiro para 
mim, em Cambndge, depois da revolta da Austrian Schtzbund, em Fevereiro de 1934, e eu 
indicara o nome dele como possvel recruta para o servio secreto sovitico. Entretanto, 
trabalhara como correio para mim em Espanha, e, em 1940, tnhamos sido colaboradores no 
S.I.S. Depois fizeram-se uma visita profissional na Turquia, em 1948. A nossa intimidade 
era, portanto, conhecida, e se se lembrassem de fazer uma investigao meticulosa acerca 
do nosso passado, facilmente descobririam as nossas anteriores ligaes. Parecia no haver 
qualquer motivo de ordem profissional que o impedisse de ficar comigo.

Um outro pormenor levou-me a concordar com a sugesto de Burgess. Sabia, atravs dos 
ficheiros, que a sua folha de servios era bastante boa no sentido de que no havia nada 
registado contra ele politicamente. No entanto, era muito capaz de provocar conflitos com 
pessoas importantes. Um colega do Foreign Office, agora embaixador, havia-o empurrado 
pela escada do Gargoyle Club, injuriando-o. Tinha arranjado complicaes em Tnger

181

e Dublin. Pensei que seria menos provvel ele tornar-se notado em minha casa que noutra 
de solteiro, onde todas as noites se encontraria s e desprotegido. Escrevera h pouco a 
dizer que concordava com a sua idia, quando Mackenzie me mostrou uma carta que 
recebera de Carey-Foster, ento chefe do ramo de segurana do Foreign Office, avisando-o 
da chegada de Burgess. Carey-Foster explicava que as suas excentricidades passariam mais 
despercebidas numa grande embaixada que numa pequena. Fazia um resumo dos seus 
pecadilhos passados e dizia que ainda podia estar para vir o pior. Que quer ele dizer 
pior?, inquiriu Mackenzie. Respondi-lhe que conhecia> bem Guy e que ele ficaria comigo 
sob a minha vigilncia. Isto pareceu satisfaz-lo bastante, pois, assim j estava algum com 
quem compartilhar as responsabilidades.

Dado o que estava para acontecer, a minha deciso de concordar com a sugesto de 
Burgess parece um grande erro. Pensei muito nela nos ltimos cinco anos e no adianta 
dizer que os acontecimentos que ocorreram uns meses mais tarde eram totalmente 
imprevisveis; as medidas de segurana que normalmente tomamos so destinadas a 
proteger-nos do imprevisvel. Mas. quando medito nisso, penso que a minha deciso de dar 
alojamento a Burgess antecipou, no mximo, algumas semanas o facto de as atenes 
recarem sobre mim. Deu tambm motivo  carta que Bedell Smith escreveu ao chefe, 
insistindo em que eu desaparecesse da cena. Pode at ter sido uma sorte que suspeitassem 
de mim prematuramente, pois assim tudo se esfumou antes de as provas serem 
suficientemente fortes para me levarem ao tribunal.

A chegada de Burgess levantou um problema que eu no podia decidir por mim. Deveria 
ou no comunicar-lhe o caso da fuga de informaes da Embaixada britnica, que ainda 
estava em investigao? Tomei a deciso de o informar depois de ter dado sozinho dois 
passeios de carro nos arredores de Washington. Disseram-me que o conhecimento que Guy 
tinha acerca do problema poderia ser-nos til. Confiei-lhe por isso tudo o que sabamos, 
instruindo-o nos mnimos pormenores, e discutamos constantemente o assunto. A minha 
maior

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dificuldade era s ter visto Maclean duas vezes, e por pouco tempo, em catorze anos. Nada sabia acerca do 
seu modo de vida e desconhecia a sua morada, ou quaisquer outros pormenores a seu respeito. Mas j  
altura de relatar o caso, de explicar em que p se encontrava e os problemas que envolvia.

O desenrolar do assunto causava-me muitas preocupaes. Estava rodeado de factores imponderveis, cuja 
importncia s podia ser avaliada por conjecturas. Tnhamos recebido uma dzia de relatrios referindo-se 
ao informador, que figurava nos documentos sob o nome de cdigo de Homer, mas haviam-se feito poucos 
progressos no sentido de o identificar. O F. B. I. ainda nos mandava resmas de relatrios acerca das 
mulheres-a-dias da Embaixada, e o inqurito sobre o nosso pessoal menor estava a arrastar-se 
indefinidamente. Para mim, esta continua a ser a feio mais inexplicvel de todo o assunto. J havia provas 
de que existiam espies no Foreign Office. Krivitsky e Volkov tinham dito o mesmo.  claro que nada 
garantia que eles se referissem  mesma pessoa, no havia bases que levassem a admitir essa suposio. Mas, 
se se tivesse encarado essa hiptese, se se tivesse estudado com ateno o material de Krivitsky em relao 
ao informador de Washington, deveria ter-se feito logo, sem perda de tempo, um inqurito entre os 
diplomatas talvez mesmo antes de eu ter entrado em cena. Contudo, existia ainda um outro aspecto mais 
espantoso do caso. Tenho de confessar que a minha posio era vantajosa, porque, desde o princpio, tinha 
quase a certeza de quem se tratava. Mas, mesmo descontando essa vantagem, parecia-me bastante evidente, a 
partir da natureza dos relatrios, que no lidvamos com um agente sem importncia, que despejasse os 
cestos dos pases e roubasse os qumicos. Muitos desses relatrios mencionavam problemas polticos de 
grande complexidade e em mais de uma ocasio se falava de Homer com respeito. No podia haver dvidas 
de que estvamos a tratar com um homem astucioso. A relutncia em iniciar inquritos entre o pessoal mais 
qualificado da Embaixada s podia atribuir-se  crena generalizada de que os membros mais importantes 
daquele estabelecimento estavam acima de todas

183

as suspeitas. A existncia de tal crena tornou-se evidente, dado os comentrios que se 
fizeram a seguir  fuga de Maclean e Burgess  e  minha. Deram-se explicaes de uma 
estupidez extraordinria de preferncia  verdade pura e simples.

Apesar de tudo, sabia que esta situao bizarra no podia continuar sempre. Um dia, 
qualquer dia, algum, em Londres ou em Washington, olharia para o espelho, enquanto 
fazia a barba, e encontraria l inspirao. Uma vez que comeasse a investigao sobre os 
diplomatas, acabaria por surgir a resposta certa, mais tarde ou mais cedo. A questo 
importante era saber quanto tempo demoraria.

Nas discusses com os meus amigos, nos arredores de Washington, tnhamos assentado em 
dois pontos. Primeiro, era essencial salvar Maclean antes que a rede se fechasse sobre ele. 
Isso era aceite como um axioma. No se levantava qualquer pergunta quanto ao interesse 
futuro que ele teria para a Unio Sovitica no caso de conseguir fugir. Era suficiente o facto 
de ser um velho camarada. Alguns leitores, agarrados a preconceitos, podem achar isto 
difcil de engolir. No lhes peo que o faam, mas no se podem queixar se tiverem 
surpresas desagradveis em casos futuros. Segundo, era de desejar que Maclean ficasse no 
seu posto tanto tempo quanto possvel. Depois de ele fugir, dizia-se delicadamente que era 
apenas o chefe do Departamento Americano do Foreign Office, e que, por isso, tinha um 
acesso limitado a informaes de alta importncia. Mas  uma estupidez supor que um 
agente com experincia e ocupando um lugar importante no Foreign Office s tem acesso 
aos papis que lhe so colocados em cima da secretria. J disse atrs que consegui acesso 
aos dossiers dos agentes britnicos na Unio Sovitica quando supunham que 
eu estava a perseguir os alemes em Espanha. Em resumo, a nossa obrigao era pr 
Maclean em segurana, mas no antes do momento necessrio.

Havia ainda mais dois pormenores a ter em ateno: eu fora mandado para os Estados 
Unidos por dois anos, e podia por isso esperar que me substitussem no Outono de 1951. 
No fazia a menor idia de qual seria a minha

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prxima colocao: talvez no Cairo ou em Singapura, fora do alcance do caso Maclean. 
Como caminhvamos numa escurido parcial, parecia melhor fazer com que Maclean 
fugisse, o mais tardar, em meados de 1951. O outro pormenor dizia respeito  posio de 
Burgess. Era evidente que ele no se sentia  vontade no Foreign Office, devido ao seu 
temperamento e  sua personalidade. Estava a pensar, h algum tempo, em pedir a demisso 
e tinha um ou dois lugares em vista em Fleet Street. Como resultado, o seu trabalho no 
Foreign Office ressentira-se tanto disso que Burgess mais parecia estar prestes a ser 
exonerado. De qualquer modo, ele mostrava-se ansioso por voltar para Inglaterra.

No esprito de algum  no sei de quem  estas duas ideias fundiram-se: a volta de Burgess 
para Londres e a fuga de Maclean. Se Burgess voltasse a Londres, de regresso da 
Embaixada britnica em Washington, era natural que visitasse o chefe do Departamento 
Americano e assim ficaria em boa situao para estabelecer o projecto de fuga. Seria 
tambm possvel para ele ter-se demitido em Washington e voltar para Londres sem mais 
problemas. Contudo, poderia parecer um pouco estranho se ele regressasse voluntariamente 
pouco depois do desaparecimento de Maclean. As coisas tinham de ser arranjadas de tal 
maneira que o mandassem embora, quer os servios o quisessem, quer no. Era a espcie 
de projecto que Burgess adorava, e realizou-o da maneira mais simples. Foi multado trs 
vezes no mesmo dia por excesso de velocidade no estado de Virgnia e o governador reagiu 
precisamente como esperramos. Enviou um veemente protesto ao State Department contra 
o abuso flagrante de privilgios diplomticos, o qual foi submetido  ateno do embaixador. 
Dentro de poucos dias, Burgess era informado de que tinha de se ir embora.

Logo que a possibilidade de Burgess ajudar na operao de fuga surgiu nas nossas 
discusses, prestou-se grande ateno  minha posio. Apesar de todas as precaues, 
Burgess podia ser visto com Maclean, e um inqurito sobre as suas actividades talvez 
levantasse dvidas sobre mim. Pouco se conseguia contra isso, mas lembrei-me de que 
podia ajudar a desviar as suspeitas dando

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um contributo positivo para a soluo do caso da Embaixada britnica. At a. estivera quase imvel, deixando 
o F.B.I. e o M.I. 5 fazerem o que podiam. Agora que o plano de fuga tomava forma, no havia razo para eu 
no desviar a investigao na direco certa.

com esse fim, escrevi um memorando ao Head Office, sugerindo que podamos estar a perder tempo em 
investigaes exaustivas sobre o pessoal menor da embaixada. Recordei as declaraes de Krivitsky o 
melhor que pude, de memria. Ele dissera que o chefe do servio secreto da Europa Ocidental recrutara em 
meados dos anos trinta um rapaz que entrara para o Foreign Office. Era de boa famlia e fora educado em 
Eton e Oxford. Trabalhava sem nada receber, apenas por idealismo. Sugeri que se comparassem estes dados 
com os currculos dos diplomatas que estavam em Washigton entre as datas de 1944/45. Recebi uma resposta 
de Vivian, assegurando-me de que esse aspecto do caso no fora descurado, estivera sempre presente nos 
seus espritos. Contudo, no havia qualquer prova de que tivessem feito alguma coisa e a desconcertante 
velocidade do que se passou depois deu-me a entender que a idia devia ter sido aproveitada.

Uma comparao do material Krivitsky com os relatrios da fuga de segredos da Embaixada forneceu uma 
lista de seis nomes que nos foi enviada por Londres, com o comentrio de que estavam em curso inquritos 
intensivos. A lista inclua os nomes de Roger Makins, Paul Gore-Booth, Michael Wright e Donald Maclean. 
(Poderia objectar-se que Maclean no estivera em Eton ou em Oxford. Mas o M.I. 5 no ligava grande 
importncia a esse pormenor, porque os estrangeiros presumem muitas vezes que todos os ingleses bem-
nascidos tm de freqentar Eton e Oxford.) A lista possibilitou a Bobby Mackenzie uma das suas horas mais 
felizes. As suas suspeitas recaam sobre Gore-Booth. Porqu? Tinha sido educado em Eton e em Oxford; 
havia entrado para o Foreign Office em meados dos anos trinta; era um scholar clssico e distinto, a 
quem o nome de Homer acentaria bem; Homer, na sua forma russa de Gomer, era quase um anagrama de 
Gore; quanto a ideais, Gore-Booth era um cientista cristo e um abstmio. Que podia eu querer

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mais? Seria um bom trabalho, suficientemente bom, esperava eu, para entreter os servios, 
em Londres, durante alguns dias.

Burgess fez a mala e foi-se embora. Na ltima noite jantmos num restaurante chins, onde 
cada sala tinha msica personalizada que ajudava a abafar as nossas vozes. Analismos o 
plano pormenorizadamente. Ele devia ir ter com o seu contacto sovitico ao chegar a 
Londres e instru-lo completamente. Depois visitaria Maclean no seu escritrio e passar-lhe-
ia uma folha de papel na qual estavam escritos a hora e o local do encontro. Teria depois 
uma entrevista com ele e p-lo-ia completamente ao corrente da situao. A partir de ento, 
o assunto estava fora do meu domnio. Burgess no parecia muito satisfeito e eu pressenti o 
que lhe ia no esprito. Quando o levei  estao na manh seguinte, as minhas ltimas 
palavras, meio a srio, meio a brincar, foram: No vs tu tambm.

O M. I. 5 no ficara particularmente impressionado com o rasgo de Mackenzie acerca de 
Gore-Booth. Perante a lista, procuravam o homem que estivesse menos em conformidade 
com o padro. Era um processo inteligente, e levou-os a colocar Maclean  cabea da lista. 
Nunca gostara do convvio do corpo diplomtico, preferindo relacionar-se com espritos 
independentes. Por contraste, todos os outros da lista eram deprimentemente conformistas. 
O M. I. 5, ao comunicar-nos as suas concluses, informava-nos de que contactariam com 
Maclean quando o processo contra ele estivesse completo. Entretanto no lhe 
possibilitariam o acesso a documentos importantes do Foreign Office e os seus movimentos 
seriam vigiados. Estas duas decises, tomadas possivelmente para sossegar os Americanos, 
eram estpidas. Mas no via nenhuma razo para as contradizer. Pensei que me poderiam 
servir se alguma coisa corresse mal. Tinha razo.

Fiquei de qualquer modo alarmado com a velocidade com que o assunto estava a caminhar 
e no encontro seguinte com o meu contacto sovitico falei-lhe da necessidade absoluta de 
se apressarem. Tive tambm um pretexto para escrever a Burgess directamente. O 
encarregado de transportes da Embaixada j me tinha perguntado

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duas vezes o que se devia fazer ao Lincoln Continental que ele 
deixara no parque de estacionamento. Escrevi portanto a Burgess em termos incisivos, 
dizendo-lhe que se ele no agisse imediatamente, seria tarde de mais  porque eu venderia o 
carro para a sucata. No podia fazer mais nada.

Numa manh, terrivelmente cedo, Geoffrey Paterson chamou-me ao telefone. Explicou-me 
que acabara de receber um telegrama horrivelmente longo e urgente de Londres. Levaria 
todo o dia a decifr-lo sem ajuda, e tinha dado uma semana de licena  secretria. Podia 
emprestar-lhe a minha? Tratei de tudo o que era necessrio e sentei-me a recompor-me. Era 
com certeza isso mesmo. Maclean teria sido apanhado? Teria fugido? Estava ansioso por me 
precipitar para a Embaixada e ajudar tambm a decifrar o telegrama. Mas era mais sensato 
continuar na minha rotina habitual, como se nada tivesse acontecido. Quando cheguei  
Embaixada fui direito ao escritrio de Paterson. Ele estava cinzento. Kim, disse-me ele 
num sussurro o pssaro voou. Eu aparentei um ar horrorizado (espero). Que pssaro? 
Maclean, no?  verdade, respondeu ele. Mas h pior que isso... Guy Burgess foi com 
ele. Nessa altura a minha consternao no foi fingida.

Captulo XII

Posto  prova

A fuga de Burgess e de Maclean fez-me encarar a hiptese de tomar uma deciso drstica. 
Os meus colegas soviticos, desde que comeramos a preparar a fuga de Maclean, tinham-
se preocupado com a minha prpria salvao, e, de acordo com esta possibilidade, havamos 
elaborado um plano de fuga, que seria posto em prtica quando eu achasse que se tratava de 
um caso de emergncia. Mas seria realmente este o caso? Tinha de adiar a deciso durante 
algumas horas para tratar de dois problemas urgentes. Um, era desembaraar-me de certo 
material comprometedor escondido em minha casa; o outro, era tactear as opinies do F.B. 
L, porque isso poderia afectar os pormenores da minha fuga. Livrar-me do material talvez 
fosse a tarefa mais urgente das duas, mas decidi esperar algum tempo. Tornar-me-ia notado 
se sasse da Embaixada imediatamente depois de saber as notcias, e o telegrama de 
Paterson fornecia-me um bom pretexto para pr  prova, sem demora, o F.B.L, pois 
terminava dizendo que eu deveria avisar Boyd do seu contedo. Paterson, pensando com 
certeza que estaria muito corado no fim da entrevista, pediu-me que o acompanhasse, 
baseado no facto de que duas caras coradas de vergonha ajudariam mais do que uma s. O 
facto de a minha estar, provavelmente, mais cinzenta que encarnada no alterou o princpio 
das coisas.

Boyd recebeu as notcias com uma calma notvel. Fez at algumas sugestes maliciosas, 
que me levaram a pensar que ele quase ficara satisfeito por os malditos Ingleses terem 
estragado tudo. Mas calculei que a sua calma mascarasse uma preocupao pessoal. Boyd 
encontrara Burgess muitas vezes em minha casa e convidara-o para a sua. Contra tudo o que 
se poderia julgar davam-se bem. Ambos possuam caracteres agressivos e provocativos e 
trocavam insultos, o que os divertia imenso. No primeiro encontro Burgess atacara a 
corrupo e o suborno que tornavam os circuitos automobilsticos de Indianapolis

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absolutamente disparatados e, ao faz-lo, criticou vrios aspectos da vida americana em 
geral. Boyd gostava de ouvir falar assim e, provavelmente, nunca ouvira um ingls dizer tais 
coisas. Dada a presente crise, Boyd no seria ele prprio se no tentasse adivinhar o que o 
patro, Hoover, saberia das suas relaes com Burgess. Conclu que o interesse pessoal 
de Boyd jogaria a meu favor. Dali, fomos ver Lamphere, cuja reaco foi muito normal. 
Discutimos o caso das fugas de Burgess e Maclean e ele, com o seu ar srio, sugeriu 
algumas hipteses, que davam a entender que estava ainda longe da verdade. Sa do 
edifcio muito aliviado. Era possvel que Boyd e Lamphere fossem ambos actores 
consumados e que me tivessem enganado, mas no valia a pena pensar nisso. Tinha de agir 
como se o F.B.I. ainda estivesse em branco acerca do assunto.

Era possvel que a qualquer momento o M. I. 5 dissesse ao F.B.I. que me vigiasse. Podiam 
facilmente t-lo feito sem eu saber, servindo-se do representante do F.B.I. em Londres 
como contacto directo com Washington. Contudo voltei a pressentir que ia ter alguns dias de 
descanso. Era muito pouco provvel que o M. I. 5 me mandasse vigiar por um servio de 
segurana estrangeiro sem o acordo do M. I. 6, e pensei que este hesitaria antes de manchar 
a reputao de um dos seus agentes superiores. Devo acentuar que tudo isto eram apenas 
hipteses, e continuavam a ser. Contudo, deviam corresponder  verdade, visto que me 
deixaram em paz durante alguns dias.

Quando Paterson e eu voltmos  Embaixada j passava do meio-dia, e era natural que eu 
fosse a casa tomar uma bebida. Entrei na minha garagem e oficina e, antes de descer  cave, 
meti uma pequena p de jardineiro numa pasta. Depois envolvi a minha mquina de filmar, 
o trip e acessrios em invlucros  prova de gua e guardei tudo tambm dentro da pasta. 
J repetira muitas vezes mentalmente as operaes que teria necessidade de efectuar e 
estabelecera um plano de aco. Um dos meus passeios favoritos era ir at Great Falis, onde 
passava uma meia hora repousante, longe das contendas entre a C. I. A. e o F.B.I., e j 
escolhera um local apropriado para o fim em vista. Assim, encostei o carro  berma da

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estrada, que corria paralela ao rio Potomac, e penetrei num bosque onde a vegetao era 
suficientemente alta e densa para me esconder. Caminhei um bom bocado atravs dos 
arbustos e depois, servindo-me da p de jardineiro, escavei um pequeno buraco. Alguns 
minutos mais tarde sa do bosque abotoando os botes da breguilha, e voltei para casa. 
Antes de ir almoar andei a trabalhar no jardim com a mesma p. E pronto, eis-me livre de 
quaisquer objectos comprometedores.

Era agora altura de decidir se fugia ou no. Como este problema sempre me bailara no 
esprito durante as semanas anteriores, fui capaz de me resolver antes do fim do dia. A 
minha deciso foi ficar. Era guiado pela ideia de que, a no ser que as minhas possibilidades 
de sobrevivncia fossem mnimas, o meu dever era lutar at ao fim. No tinha dvidas de 
que havia de passar por bastantes dificuldades durante algum tempo, mas, depois de a 
tempestade passar, poderia continuar a prestar servios  minha causa. E os acontecimentos 
acabaram por me dar razo. Decidi-me depois de avaliar bem as minhas possibilidades de 
sobrevivncia, pois achei que eram bastante melhores do que poderiam parecer. Em relao 
a pessoas como Fuchs, eu estava numa posio muito vantajosa, devido a pertencer ao 
prprio servio secreto, h onze anos. Durante sete anos desempenhara um cargo bastante 
importante e durante oito em colaborao directa com o M.I. 5 Alm disso, cooperava 
intimamente com os servios americanos h j dois anos e tivera relaes intermitentes com 
eles durante cerca de oito. Conhecia, por isso, suficientemente bem o inimigo para prever, 
de um modo geral, os seus movimentos. Estava no segredo dos seus ficheiros  o seu 
armamento principal  e, sobretudo, no ignorava as limitaes a que a sua aco estava 
sujeita devido s leis e convenes. Era tambm evidente que pessoas altamente colocadas, 
em Londres, gostariam muito de ver reconhecida a minha inocncia, e, desde que as provas 
contra mim no fossem por demais evidentes, estava seguro de que me salvaria.

Vistas bem as coisas, que provas podiam arranjar contra mim?

As minhas ligaes com as esquerdas, em Cambridge,

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eram conhecidas por todos, e por isso no valia a pena escond-las. Contudo, nunca 
pertencera ao Partido Comunista ingls e devia ser difcil provar, dezoito anos mais tarde, 
que eu trabalhara ilegalmente na ustria, at porque, infelizmente, a maior parte dos meus 
amigos de Viena tinha, com certeza, morrido. Aquela expresso da declarao de Krivitsky 
de que o servio secreto sovitico tinha mandado um jovem jornalista ingls para Espanha 
durante a guerra civil poderia ser comprometedora para mim, mas no havia nenhuma 
identificao e muitos jovens de Fleet Street tinham ido para Espanha.

Por fim, ainda restava o facto aborrecido de ter sido Burgess a recrutar-me para o servio 
secreto, mas j arranjara maneira de rodear esta dificuldade dando o nome de uma senhora 
bem conhecida que podia ser responsvel pelo meu recrutamento. Se ela 
confirmasse o facto, tudo correria bem; se o negasse, eu poderia argumentar que no citaria 
o nome dela se no tivesse realmente acreditado que era ela, na realidade, a responsvel 
pelo meu ingresso nos servios.

No entanto, o caso poderia tornar-se bastante complicado para mim se o Servio de 
Segurana viesse a saber que eu me tinha utilizado, enquanto estivera na sede, dos 
dossiers relativos  Rssia, porque assim se provaria que os meus interesses 
haviam ultrapassado muito as minhas legtimas atribuies. A nica defesa possvel, a de 
que eu estava apaixonadamente interessado pelo servio em si, seria pouco conveniente. 
Mas eu sabia que as requisies eram destrudas periodicamente e seria pouco provvel que 
ainda existissem depois do holocausto de papis inteis que acorrera aps a guerra. Havia 
tambm a considerar um certo nmero de casos que eu tinha tratado, como o caso Volkov, 
que, por motivos nunca esclarecidos com segurana, redundaram em fracassos, mas todos 
eram susceptveis de explicao sem a minha interferncia directa. Pelo contrrio, noutros 
assuntos importantes, como os de May e Fuchs *, os Ingleses,

* Allan Nunn May e Klaus Fuchs. dois cientistas atmicos. May esteve durante seis anos, convictamente, ao servio da espionagem sovitica. 
Fuchs. segundo a sua confisso, foi o encobridor de uma rede de espionagem, em que estava envolvido juntamente com Harry Gold, David 
Greenglass e Julius e Thel Rosenberg.

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haviam sido bem sucedidos, apesar dos meus melhores esforos, e se esses casos no me 
ilibavam, ajudavam a lanar a dvida sobre a minha responsabilidade em todos os outros.

O problema mais complexo era explicar as minhas relaes com Burgess. Nada tnhamos 
em comum: nem gostos, nem amigos, nem interesses intelectuais. A ligao essencial entre 
ns era, evidentemente, poltica, e esse era um ponto que tinha de ser disfarado com toda a 
habilidade. Em certa medida a geografia ajudava. Enquanto eu estava na ustria, ele 
permanecia em Cambridge; quando eu fui para Espanha ele ficou em Londres; durante 
grande parte do tempo de guerra ele manteve-se em Londres, ao passo que eu desloquei-
me a Frana, ao Hampshire e ao Hertfordshire; ento parti para a Turquia e ele s foi ter 
comigo a Washington um ano depois de eu l estar. Podia, portanto, demonstrar que nunca 
houvera possibilidade de se criar entre ns uma verdadeira intimidade; ele era unicamente 
um bom companheiro, mas ocasional. Mesmo o facto de ele se ter abrigado em minha casa 
em Washington podia transformar-se num argumento favorvel. Eu seria to estpido, se 
compartilhssemos um grande segredo, que denunciasse publicamente a nossa ligao?

Um outro factor desfavorvel era a maneira como se menos gostava. Aps ter estado ligado 
s esquerdas em Cambridge e ter desenvolvido uma actividade comunista suspeita em 
Viena, separar-me completamente dos meus amigos comunistas ingleses e convivera muito 
de perto com os nazis, em Londres e Berlim; a seguir escolhera a Espanha de Franco para 
prosseguir a minha carreira de jornalista, e logo depois entrara para o servio secreto, com a 
ajuda de Burgess, como perito em assuntos anti-soviticos e anticomunistas; e finalmente o 
meu conhecimento prvio das medidas tomadas em relao a Maclean e a fuga deste. Era 
um quadro pouco agradvel e tinha de encarar a concluso inevitvel de que no podia 
provar a minha inocncia.

Contudo, no me senti muito deprimido. A simples convico de que era culpado poderia 
ser suficiente para um agente do servio secreto, mas no chegaria para 

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convencer um advogado. Ele precisava de provas. A cadeia de provas circunstanciais que se 
poderia levantar contra mim era, sem dvida, bastante longa. Mas, ao examinar 
separadamente cada elo da corrente, achei que os podia quebrar; e se os elos fossem 
quebrados um por um, que aconteceria  cadeia? Apesar das aparncias, pensei que tinha 
ainda bastantes possibilidades de escapar. A minha prxima tarefa era comear a espalhar as 
sementes da dvida to longe quanto pudesse.

Os dias que se seguiram deram-me muitas oportunidades. No escritrio, Paterson e eu 
quase no falvamos de outra coisa e Mackenzie, por vezes, participava nas nossas 
conversas. No me parece que Paterson tivesse, nessa altura, a mnima ideia do que 
realmente se passara, mas j no digo o mesmo em relao a Mackenzie. Ele era 
preguioso, mas estava longe de ser estpido e houve uma ocasio em que me pareceu 
entrever um brilho especial nos seus olhos. O meu papel nas discusses era formular uma 
teoria que abarcasse os factos conhecidos e tentar que os outros a aceitassem. A primeira 
oportunidade foi-me dada pela deciso do M.I. 5. que j descrevi como estpida, de retirar 
certos documentos do conhecimento de Maclean e vigiar os seus movimentos. Tomando 
isso como um ponto de partida, fiz uma reconstituio do caso, que pelo menos era lgico e 
aceitvel. Ei-la:

A declarao de Krivitsky dizia que Maclean trabalhava para os soviticos pelo menos h 
dezasseis anos. Era, portanto, um agente experiente e competente. Um homem como ele, 
sempre de sobreaviso, notaria imediatamente que certas categorias de documentos j no 
lhe eram entregues e logo tiraria as suas concluses. A seguir, verificaria se era seguido. 
Como o era realmente, no levaria muito tempo a descobrir o facto. Mas, enquanto 
tudo isto o poria alerta contra o perigo que corria, deix-lo-ia tambm na dvida. Vigiavam-
no porque queriam chegar ao seu contacto sovitico; apesar disso, sem falar com este, as 
suas possibilidades de fuga seriam muito reduzidas. Enquanto ainda meditava no que havia 
de fazer, a providncia agiu. Burgess entrou no seu gabinete  um antigo camarada. (No 
podia apresentar provas de que existisse uma ligao antiga entre Burgess e

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Maclean, mas o facto de eles terem fugido juntos tornava a hiptese completamente 
razovel). Claro que a chegada de Burgess resolveria o problema de Maclean, porque 
aquele, atravs do seu contacto, podia fazer todos os preparativos necessrios. Isto era 
corroborado pelo facto de que fora Burgess quem cuidara dos pormenores, tais como alugar 
um automvel. E porque fugiu tambm Burgess? Para Paterson e Mackenzie era evidente 
que Burgess estava muito mal visto no Foreign Office e a sua exonerao iminente. Os seus 
amigos soviticos pensaram sem dvida que era melhor retir-lo de cena, porque a sua 
presena podia constituir um perigo para os outros.

Esta era a verso que eu sustentava. Tinha a vantagem de ser baseada em factos conhecidos 
e em hipteses quase indiscutveis. As nicas pessoas que podiam provar o contrrio seriam 
os dois que haviam fugido e eu prprio. Fiquei satisfeito por ver que a teoria era 
completamente aceitvel para o F.B.I. Boyd e Lamphere gostavam ambos dela e numa 
pequena entrevista que tive com Hoover, nessa altura, ele aceitou-a de bom grado. A seus 
olhos possua o enorme mrito de atribuir toda a culpa ao M. I. 5. No tenho dvidas de que 
Hoover tirou grande proveito da minha idia em Capitol Hill e nos contactos subsequentes 
com o M. I. 5. Ele pode ter agradado a pouca gente, mas no era, de modo nenhum, um 
fala-barato.

A posio em relao  C. I. A. era mais indefinida. O caso pertencia ao F.B.I. e eu no 
podia discutir os seus pormenores com a C.LA. sem correr o risco de irritar Hoover e Boyd, 
a quem estava ansioso por acalmar. Limitei por isso as minhas conversas com agentes da C. 
L A. aos pormenores pblicos do caso, que se tornou conhecido atravs da imprensa, um 
pouco tarde e de forma bastante inexacta. Dulles no me causava preocupaes e alguns 
anos mais tarde ficaria espantado com o erro do presidente Kennedy, que o tomou a srio 
no caso da baa dos Porcos. Mas com Bedell Smith era diferente. Tinha olhos de bacalhau, 
mas um crebro de mecanismo de preciso. No meu primeiro encontro com ele levei 
comigo um documento de vinte pargrafos sobre

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os planos de guerra anglo-americanos, para observao e comentrio. Ele folheou as 
pginas, p-las de lado, e comeou a discutir comigo, em pormenor, os assuntos 
relacionados com o citado documento, referindo-se de memria aos pargrafos numerados. 
Consegui acompanh-lo porque tinha passado toda a manh a estudar o documento. Em 
relao a Bedell Smith sentia-me inquieto, convencido de que ele estava apto a pensar que 
dois mais dois so quatro e no cinco.

Os dias seguintes arrastaram-se. Senti-me socialmente embaraado quando as notcias 
referentes ao caso se tornaram pblicas, com toda a evidncia que a imprensa lhes costuma 
dar. Uma das senhoras da Embaixada deitou-me um olhar glacial num dos garden 
parties oferecidos pelo embaixador. Mas Londres continuava silenciosa. No 
entanto, pouco depois, recebi um telegrama em que me perguntavam se, devido s relaes 
pessoais que mantinha com Burgess, poderia explicar o seu comportamento. Mas a 
mensagem que eu realmente esperava era em cdigo e enviada pelo prprio chefe, 
mandando-me regressar a Inglaterra. Por fim, a convocao chegou, mas sob uma forma 
muito curiosa, dando-me motivo para meditar nela. Um agente do servio secreto 
especializado em pistas falsas veio a Washington em viagem de rotina. Fez-me uma visita 
de cortesia, e nessa altura entregou-me uma carta de Jack Easton. A carta era escrita pelo 
prprio punho de Easton e informava-me de que em breve receberia um telegrama 
chamando-me a Londres, devido ao caso Burgess-Maclean. Era importante que eu 
comparecesse imediatamente. Enquanto o alcance da comunicao era suficientemente 
claro, a forma como me foi transmitida desnorteava-me. Qual a razo por que Easton me 
escrevia pessoalmente, em vez de me avisar atravs das vias telegrficas normais? No 
servio secreto, h, muitas vezes, razes ocultas que justificam atitudes inslitas, e neste 
caso talvez elas existissem. Pensei imediatamente que, se no tivesse j posto de lado a 
idia de fugir, seria a altura indicada para o fazer.

Alguns dias depois chegou o telegrama. Marquei logo a minha passagem e preparei-me 
para dizer definitivamente adeus a Washington. Despedi-me de Angleton e

196

passei com ele umas horas agradveis num bar. Ele parecia no se aperceber da gravidade 
da minha posio pessoal, e pediu-me que tratasse de certos assuntos de interesse comum 
quando chegasse a Londres. Nem sequer me dei ao trabalho de os reter na memria. 
Depois fui visitar Dulles, que se despediu de mim e me desejou muita sorte. Boyd estava a 
seguir na minha lista e passmos uma parte da noite juntos. Parecia verdadeiramente 
preocupado com a minha posio e, amavelmente, deu-me alguns conselhos para evitar 
dificuldades em Londres. Parte da sua preocupao devia-se talvez ao facto de que tambm 
se sentia pessoalmente envolvido no caso Burgess; mas descobri que igualmente se 
preocupava por minha causa e fiquei-lhe agradecido. Boyd, apesar de ser duro, era um ser 
humano.

Cheguei a Londres cerca do meio-dia, e passou-se logo um episdio picaresco. Tinha 
apanhado o autocarro do aeroporto e sentara-me junto da porta. Quando a lotao estava j 
completa apareceu um homem, com um aspecto agitadssimo, que percorreu o corredor do 
autocarro, encarando ansiosamente todos os passageiros. Olhou por cima do meu ombro 
esquerdo, do meu ombro direito, tentou olhar por cima da minha cabea e depois fixou-me 
directamente. A sua cara exprimiu desnimo e, dando meia-volta, desapareceu. Era Bill 
Bremner, um agente superior do departamento administrativo do S.I.S. Sabia muito bem 
que ele me procurava. Se me tivesse encarado a dois metros de distncia, em vez de me ter 
olhado quase cara a cara ter-me-ia localizado. A carta de Jack Easton e o facto de terem 
enviado um agente da categoria de Bremner para me esperar eram sinais inequvocos de 
que a situao estava-se a tornar bastante perigosa para mim.

Fui para casa de minha me e logo a seguir ao almoo telefonei a Easton.   Ouviu-se 
claramente um suspiro do outro lado, e, aps ligeira pausa, Easton perguntou-me onde 
estava. Depois de eu ter respondido, quis saber se me sentia cansado. Desejava que  eu 
fosse aos Broadway imediatamente. Durante o caminho diverti-me ao pensar no pnico que 
se devia ter espalhado quando Bremner disse que eu no havia chegado. Quando entrei no 
gabinete, Easton estava um pouco envergonhado.

197

Disse-me que o meu telefonema o surpreendera porque mandara Bill Bremner ao aeroporto 
para ver se me podia ser til em alguma coisa. Era uma desculpa um bocado 
despropositada e senti que ganhara o primeiro assalto. Isto no tinha importncia alguma, 
mas, de qualquer modo, disps-me bem. Lembrei-me depois de que talvez a misso de 
Bremner no aeroporto fosse ver se o M. I. 5 no se movera mais depressa que o S.I.S. e 
no me prendera logo  chegada. Perante o que aconteceu posteriormente, tal hiptese 
parece-me descabida, e apenas falo nela por graa.

Easton disse-me que Dick White estava ansioso por nos ver o mais depressa possvel, e por 
isso deslocmo-nos ao outro lado do parque a Leconfield House, em Curzon Street, onde o 
M.I. 5 estabelecera o seu quartel-general. Este seria o primeiro de muitos interrogatrios a 
que eu seria submetido, apesar de nesta altura terem feito o possvel para me esconderem 
esse facto. Easton estava sentado calmamente, enquanto White fazia as perguntas; o papel 
do primeiro era possivelmente ver como corriam as coisas. Podem imaginar facilmente que 
se. por um lado, eu estava apreensivo, eles, por seu turno, sentiam-se algo embaraados. 
No posso dizer que White era um amigo ntimo, mas as nossas relaes pessoais tinham 
sido sempre excelentes e ele. inegavelmente, ficara satisfeito quando eu substitu Cowgill. 
No conseguia disfarar, mas tentava imprimir  conversa um torn amigvel. Dizia que 
queria a minha ajuda para esclarecer aquele estranho caso Burgess-Maclean. Dei-lhe 
bastantes informaes sobre o passado de Burgess e impresses sobre a sua personalidade, 
afirmando-lhe ser quase inverosmil que algum como Burgess, que despertava 
continuamente as atenes sobre si prprio e era bastante conhecido pela sua indiscrio, 
pudesse ser um agente secreto, e ainda menos um agente sovitico a quem seria exigido 
que adaptasse um modo de agir totalmente oposto. No esperava que esta teoria fosse 
convincente, mas tinha esperana de que. ao menos, desse a impresso de que eu me 
estava a defender implicitamente contra a acusao ainda no formulada, de que eu, um 
agente treinado da contra-espionagem, havia sido enganado por Burgess. 

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Afirmei depois que no conhecia Maclean.  claro que ouvira falar dele e talvez at o 
tivesse encontrado aqui ou ali, mas de repente no conseguia sequer lembrar-me da cara 
dele. Como, desde 1937, o tinha visto apenas duas vezes, durante meia hora ao todo, achei 
que podia, com segurana, distorcer um pouco a verdade.

Ofereci-me para resumir por escrito tudo o que dissera. Era possvel que a nossa 
conversa estivesse a ser gravada e eu queria um relatrio escrito para corrigir 
qualquer deslize que o microfone pudesse ter trado. Quando voltei para o meu 
segundo interrogatrio, alguns dias mais tarde, White apenas deitou um olhar de 
relance ao que eu escrevera e encaminhou-se logo para os pontos que lhe 
interessavam. Podamos esclarecer o assunto, disse ele, se eu lhe descrevesse as 
minhas relaes com Burgess. Para esse fim seria til uma declarao 
pormenorizada acerca da minha carreira. Como j disse no captulo anterior, existiam 
alguns pormenores difceis de explicar e que teriam de ser omitidos, e defendi-me o 
melhor que pude. Ao faz-lo, dei a White uma informao gratuita, cometi um 
deslize de que me arrependi bastante na altura. Contudo  quase certo que esse 
pormenor teria vindo a lume com o tempo, e foi talvez melhor eu ter chamado a 
ateno para ele logo no princpio.

Essa informao estava relacionada com uma viagem que eu fiz a Espanha antes de The 
Times me ter enviado como seu correspondente oficial. O M. I. 5 ignorava-a 
completamente e pensava que The Times me enviara a Espanha directamente 
do escritrio de Fleet Street. Quando corrigi White nesse ponto, ele no tardou a perguntar-
me se eu pagara essa viagem da minha algibeira. Era uma pergunta embaraosa, porque ela 
fora-me sugerida e financiada pelo servio sovitico, tal como Krivitsky dissera, e bastava 
verificar a minha conta bancria nessa poca para ver que eu no possua meios para ir 
passear a Espanha. Tinha ainda de considerar o facto, algo comprometedor, de que Burgess 
fora encarregado de arranjar esses fundos. Justifiquei-me dizendo que a minha viagem a 
Espanha fora uma tentativa para entrar no jornalismo de alto nvel, e que empenhara e 
vendera tudo o que possua (sobretudo livros e discos)

199

para arranjar o dinheiro necessrio. Era uma explicao bastante plausvel e impossvel de 
ser desmentida. A ligao de Burgess com a minha aventura de Espanha nunca foi 
descoberta.

Quando me ofereci para fazer um segundo resumo das nossas conversas, White concordou, 
mas pediu-me, bastante impacientemente, que me preocupasse menos com Burgess e me 
concentrasse na minha prpria situao. Agora quase tudo estava esclarecido e no fiquei 
surpreendido quando recebi uma convocao do chefe. Disse-me que recebera uma carta 
muito dura de Bedell Smith, cujos termos excluam qualquer possibilidade de eu voltar a 
Washington. Soube mais tarde que a carta fora redigida por William Howard, cuja mulher 
Burgess insultara duramente durante uma festa na minha casa de Washington. Eu 
apresentara desculpas pelo seu comportamento e, aparentemente, essas desculpas tinham 
sido aceites. Era por isso difcil de perceber o acto de vingana de Howard. E logo de 
Howard! Depois disto, foi quase uma formalidade quando o chefe me chamou pela segunda 
vez e me disse, visivelmente penalizado, que eu tinha de apresentar o pedido de demisso. 
Seria generoso: quatro mil libras de indemnizao. Contudo, a minha inquietao aumentou 
pouco depois quando ele me afirmou que decidira no me pagar imediatamente a totalidade 
da quantia. Receberia j duas mil libras e o resto em prestaes semestrais de quinhentas 
libras. A razo apresentada para essa forma de pagamento era o receio que tinham de que 
eu dissipasse todo o dinheiro em especulaes, mas, como eu nunca especulara na minha 
vida, o motivo era pouco aceitvel. Provavelmente, queriam precaver-se contra a 
possibilidade de eu ser preso nos trs anos mais prximos.

Encontrei-me ento com duas mil libras em meu poder e uma grande nuvem negra sobre 
mim. Passei todo o Vero  procura de casa e finalmente encontrei uma, pequena, perto de 
Rickmansworth. Foi j em Novembro que o chefe me telefonou pedindo-me que l fosse 
no dia seguinte s dez horas. Parti para Londres numa linda manh de Inverno em que as 
sebes estavam cobertas por

200

uma espessa camada de geada. O chefe explicou que abrira um inqurito judicial acerca das 
circunstncias em que se efectuara a fuga de Burgess-Maclean. O inqurito estava a cargo 
de Milmo, um conselheiro do Rei que trabalhara para o M. I. 5 durante a guerra. Pediam-me 
que prestasse declaraes e o chefe esperava que eu no fizesse objeces. O facto de ser 
Milmo a dirigir o inqurito indicava que estava prxima uma crise. Conhecia-o e sabia que 
ele era um inquiridor hbil, o homem de que o M. I. 5 geralmente se servia quando os 
inquritos atingiam a sua fase final. Ao encaminhar-me, com o chefe, atravs de St. James 
Park para Leconfield House, preparava-me para uma prova difcil. Tinha confiana de que 
conseguiria resistir a qualquer interrogatrio por muito duro que fosse, desde que se 
baseasse nas provas que sabia existirem contra mim. Mas no podia ter a certeza de que 
Milmo no soubesse algo mais. Ao chegar a Leconfield House fui apresentado ao chefe do 
departamento respectivo do M. I. 5 e depois levado  presena de Milmo. Era um homem 
corpulento, com uma cara redonda que condizia bem com a sua alcunha, Buster *.  
esquerda estava Arthur Martin, investigadores do caso Maclean. Esteve calado todo o 
tempo a observar os meus movimentos. Quando eu olhava pela janela ele escrevia uma 
nota; quando juntava os dedos escrevia outra nota. Depois de me cumprimentar 
rapidamente. Milmo adoptou uns modos formais, pedindo-me que no fumasse, porque se 
tratava de um inqurito judicial.

 claro que era tudo mentira. Apeteceu-me pedir a Milmo as suas credenciais ou sugerir 
que a sede do M. I. 5 era um local algo inslito para um inqurito judicial. Mas isso no 
estaria de acordo com o papel que eu decidira representar: o de um ex-membro do S.I.S., 
to ansioso por colaborar, como Milmo de estabelecer a verdade sobre o caso Burgess-
Maclean. Por isso, durante cerca de trs horas, calmamente, respondi a perguntas ou ladeei-
as, apenas aparentando irritao quando atacaram directamente o meu carcter. Sabia que 
era intil tentar vencer Milmo, o ex-membro do

201

servio secreto; o meu papel era negar-lhe simplesmente a confisso de que ele necessitava 
como advogado.

Estava demasiado concentrado no interrogatrio que Milmo me fazia para poder formar uma 
opinio objectiva dos seus mritos. A maior parte dos assuntos que ele focava j me era 
familiar e as minhas respostas, preparadas h muito, apenas lhe deixavam a alternativa de 
gritar. Logo no princpio do interrogatrio revelou a fraqueza da sua posio acusando-me 
de confiar a Burgess papis pessoais ntimos. A acusao era to disparatada que nem 
mesmo tive tempo de me fingir espantado. Parece que o meu diploma de Cambridge fora 
encontrado em casa de Burgess durante a busca que fizeram depois da sua fuga. Alguns 
anos antes mandara encadernar aquele documento intil e guardara-o entre as folhas de um 
livro. Burgess, como toda a gente sabia, tinha por hbito levar livros emprestados, com ou 
sem licena dos donos. O propsito da acusao era mostrar que eu havia minimizado 
deliberadamente o grau da minha intimidade com Burgess. Era um argumento sem 
importncia, que ajudou a fortalecer a minha posio no resultado.

Mas Milmo referiu-se, pelo menos, a dois factos de que no tinha conhecimento, os quais 
mostravam que a cadeia de provas circunstanciais contra mim era maior do que eu temera. 
Dois dias depois da informao acerca de Volkov ter chegado a Londres, houve um 
aumento inusitado no volume das comunicaes telegrficas soviticas entre Londres e 
Moscovo, seguido de outro aumento semelhante entre Moscovo e Istambul. E ainda, pouco 
depois de eu ter sido informado oficialmente sobre a fuga de segredos da Embaixada em 
Washington, houvera tambm um maior volume de comunicaes soviticas. Estes dois 
pormenores, juntamente com as outras provas, eram bastante perigosos. Mas para mim, que 
estava apenas a ser alvo de um interrogatrio, no levantavam problemas. Quando Milmo 
me intimou, no seu torn mais irritado, a explicar estas coincidncias, eu respondi muito 
simplesmente que no podia.

Estava a comear a cansar-me quando de repente Milmo desistiu e deu por finda a 
inquirio. Martin pediu-me que esperasse uns minutos e fizeram-me passar

202

a outra sala, onde estava um agente do M. I. 5. Este disse-me que entregasse o meu 
passaporte, afirmando que mo podiam tirar de qualquer maneira, mas que uma colaborao 
voluntria da minha parte evitaria publicidade. Eu concordei imediatamente, porque o meu 
plano de fuga no inclua o uso dos meus papis de identificao. A minha oferta de enviar 
o documento nessa noite pelo correio foi rejeitada porque era muito arriscada. John 
Skardon foi escolhido para me acompanhar a casa e receb-lo em mo. No caminho 
Skardon gastou o flego fazendo-me sermes sobre as vantagens de colaborar com a 
autoridade. Estava demasiado aliviado para o ouvir, embora soubesse que ainda no estava 
totalmente livre de complicaes.

Skardon veio vrias vezes durante as semanas seguintes continuar os interrogatrios. Era 
muitssimo educado, tocando as raias do excesso, nada podia ser mais lisonjeiro que o seu 
vivo interesse pelos meus pontos de vista e aces. Era muito mais perigoso que o calmo 
White ou o irascvel Milmo. No entanto, resisti bem s suas polidas tentativas, pois estava ao 
facto de que fora ele quem conquistara a confiana de Fuchs, provocando resultados to 
desastrosos. Durante a nossa primeira conversa descobri e evitei duas pequenas armadilhas 
que ele me armara com habilidade e preciso. Mas mal me comeara a regozijar quando me 
lembrei de que ele poderia ter arranjado outras que eu no tivesse descoberto.

Mas mesmo Skardon cometia erros. Logo no incio de certa entrevista comeou por me 
pedir autorizao escrita para examinar a minha conta bancria. Como lhe era fcil obter 
legalmente licena para o fazer, com ou sem o meu acordo, no levantei quaisquer 
objeces at porque ele no encontraria o mnimo vestgio de pagamentos irregulares, pela 
simples razo de que nunca existiram. Mas, j com a autorizao nas mos, comeou a 
interrogar-me sobre as minhas finanas e eu aproveitei a oportunidade para lhe dar 
informaes erradas e sem importncia. E, ao faz-lo, tinha um objectivo em vista. Fora 
capaz de inventar explicaes plausveis para a maior parte dos factos estranhos ocorridos 
durante a

203

minha carreira, mas no para todos. Onde a minha inveno falhasse, s podia argumentar 
com lapsos de memria. No me lembrava desta pessoa ou daquele acontecimento. A 
verificao das minhas finanas dava-me oportunidade para confirmar as falhas da minha 
memria. Se eu no conseguia lembrar-me das transaes financeiras, no podiam esperar 
que me recordasse de todos os pormenores da minha vida social e profissional.

Depois de vrios interrogatrios deste gnero, Skardon nunca mais apareceu. No me disse 
se ficara satisfeito ou aborrecido; abandonou simplesmente o assunto. Estava sem dvida 
convencido de que eu lhe escondia tudo o que podia ter interesse, e eu gostaria imenso de 
ter lido o seu relatrio. No havia dvida de que as provas contra mim eram 
impressionantes, mas no concludentes. Mas tornou-se evidente que o problema no era 
encarado desta maneira nos Broadway e recebi outra convocao, desta vez para ser 
interrogado por Sinclair e Easton. Para mim, era muito penoso mentir ao honesto Sinclair; 
espero que ele perceba agora que estava apenas a defender os meus princpios, da mesma 
maneira que ele. Mas gostei do duelo com Easton. Depois das minhas experincias com 
White, Milmo e Skardon, movia-me num terreno familiar, e no admitia que ele pudesse ser 
bem sucedido onde os outros tinham falhado. E no foi.

Captulo XIII

As nuvens afastam-se

Durante mais de dois anos deixaram-me em paz ou antes vigiaram-me discretamente, talvez 
seja mais exacto. No tinha dvidas de que o meu dossier estava encerrado, mas 
no foram formuladas acusaes contra mim e eu mantinha relaes amigveis com alguns 
ex-colegas do M. I, 5 e do S.I.S. Foi um perodo de ansiedade. Possua duas mil libras, tinha 
a hiptese de receber outras duas mil e talvez arranjasse mais duas ou trs mil sob a forma 
de aplices de seguro. Conseguir um bom emprego continuava a ser uma aspirao difcil 
de concretizar, pois, quando procurava trabalho, a primeira pergunta que me faziam sempre 
era porque  que deixara o servio secreto. O campo onde parecia ter mais possibilidades 
era o jornalismo, e resolvi voltar a Espanha, onde tinha comeado a minha carreira 
jornalstica. No duvidava de que em breve poderia de novo dominar a situao, e pensei 
que o facto de ir para Espanha fortaleceria a minha posio perante aqueles que ainda 
duvidavam da minha inocncia. Madrid estava muito afastada da Cortina de Ferro, Escrevi 
por isso a Skardon pedindo-lhe que me devolvesse o passaporte. Recebi-o sem 
comentrios, na volta do correio.

A minha aventura em Espanha durou pouco. Ainda no estava em Madrid h trs semanas 
quando recebi uma carta a oferecer-me um emprego na City. O salrio mencionado era 
modesto, mas proporcional em relao  minha total ignorncia em matria de negcios. 
Durante um ano patinhei no comrcio geral, deslocando-me diariamente entre 
Rickmansworth e Liverpool Street. Estava completamente contra-indicado para o lugar e 
fiquei aliviado quando a firma para que trabalhava deu sinais de falncia devido  situao 
difcil criada pelo seu departamento de embarque, com o qual, felizmente, nada tinha a ver. 
Os meus patres ficaram bastante satisfeitos quando me despedi, aliviando-os do encargo do 
meu salrio. A partir de ento, comecei a viver do jornalismo

205

livre, uma ocupao muito trabalhosa, pois  necessrio, alm de escrever, ter habilidade 
para colocar os artigos o que nunca foi o meu forte.

A minha existncia, bastante montona, foi animada por um episdio curioso. Recebi uma 
carta do capito Kerby, M. P., de Arundel e Horsham, que me convidou a tomar ch na 
Cmara dos Comuns. Depois de me explicar que tambm fora expulso do servio secreto, 
disse-me candidamente que estava a organizar uma campanha contra o Foreign Office em 
geral e Anthony den em particular. Afirmava que se encontrava em boa posio para isso: 
tinha assento no Parlamento e a Conservative Association local vinha comer-lhe  mo. 
Ouvira dizer que eu tambm tinha sido expulso do S.I.S. e como decidira vingar-se queria 
saber se eu lhe poderia fornecer elementos comprometedores para o Foreign Office. Ele 
tambm tinha muito que contar e ria s gargalhadas com as suas prprias piadas. Respondi-
lhe que percebia perfeitamente por que razo o Foreign Office provocara a minha demisso 
e deixei Kerby abruptamente. Menciono o caso porque Kerby surgiria novamente na minha 
vida, embora com um papel diferente.

Durante este perodo estudei vrias vezes o meu plano de fuga. Este, que fora estabelecido 
inicialmente em relao  Amrica apenas necessitava de ligeiras modificaes para se 
adaptar s circunstncias actuais. Talvez fosse mais fcil fugir de Londres do que de 
Washington. Mas de cada vez que pensava no projecto entendia que a minha situao ainda 
no era de extrema gravidade. Por fim algo ocorreu que me levou a desistir totalmente de o 
pr em prtica. Recebi, por uma via engenhosa, uma mensagem dos meus amigos 
soviticos, animando-me e prevendo em breve o reatamento das nossas relaes. Ento o 
caso mudou completamente de aspecto. J no estava sozinho.

Por isso, foi com melhor disposio de esprito que encarei a prxima tempestade, que se 
anunciava. Comeou com a desero de Petrov, na Austrlia, e com algumas observaes, 
no muito reveladoras, que ele fez acerca de Burgess e Maclean. Fleet Street lanou de

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novo o grito de alarme, dizendo que devia procurar-se o terceiro homem, mas, desta vez, 
houve um contratempo. Algum falou em mim aos jornais.  de espantar, que apesar das 
centenas de milhares de libras que a imprensa deve ter gasto  procura de informaes 
sobre os diplomatas desaparecidos, fossem necessrios quatro anos para chegar at mim  e 
mesmo assim foi preciso que algum cometesse uma indiscrio. Um dos meus amigos do 
S.I.S. disse-me que o culpado fora um oficial superior da Metropolitan Police, j reformado, 
que, e eu j o sabia, era muito falador. Esta idia parecia bastante plausvel porque foram os 
reprteres criminais que primeiro tiveram conhecimento da histria. The Daily 
Express afirmava que a terceira personagem implicada no caso era um oficial de 
segurana da Embaixada britnica em Washington, que tinha sido obrigado a demitir-se. 
Apesar de partirem de uma premissa inexacta, pois eu nunca fora oficial de segurana, j 
estavam bastante perto da verdade, e fui obrigado a tomar certas precaues. Assim, 
preparei um libelo difamatrio, e estava disposto a utiliz-lo contra o primeiro jornal que 
mencionasse o meu nome.

Em breve era abordado pelo primeiro enviado de Fleet Street. Telefonou-me de Londres, 
solicitando uma entrevista. Sugeri que me enviasse o interrogatrio por escrito. Duas horas 
mais tarde voltou a telefonar e ento decidi mostrar-lhe como actuaria. Disse-lhe que no 
contaria nada a no ser que me desse uma garantia por escrito de que no seria publicada 
uma palavra sequer sem a minha aprovao. Expliquei-lhe que a maior parte dos factos que 
eu conhecia acerca do caso Burgess-Maclean provinha de fontes oficiais, e que, portanto, 
estaria sujeito a ser acusado de no cumprir a Lei dos Segredos de Estado se os divulgasse. 
Aps telefonar ao editor, foi-se embora de mos vazias e depois disso a imprensa fechou-
me o cerco.

Tenho de explicar que me mudara de Hertfordshire para Sussex e vivia agora em 
Crowborough. a meio caminho entre Uckfield e Eridge. Por uma coincidncia feliz eu no 
era a nica atraco da regio, porque a princesa Margarida estava em Uckfield e Peter 
Townsend

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em Eridge. Os reprteres perseguiam a princesa de manh e Townsend  tarde ou vice-
versa. De qualquer modo, juntavam-se  minha volta  hora do almoo, o que, por duas 
razes, era bastante til para mim. Primeiro, o facto de eu ser perseguido pela imprensa 
simultaneamente com a princesa e Townsend punha a opinio local a meu favor e at o meu 
valente jardineiro se ofereceu para bater com uma forquilha no reprter que eu indicasse. 
Segundo, a regularidade dos movimentos dos reprteres permitia-me evit-los mediante 
simples expediente de adiantar o relgio trs horas. Levantava-me s cinco, tomava o 
pequeno almoo s seis, almoava s nove e meia e j estava refugiado no espesso bosque 
de Ashdown quando os jornalistas convergiam para minha casa. Quando voltava, s trs 
horas da tarde, j tinham desaparecido. O sistema s falhou uma vez. Uma senhora do 
Sunday Pictorial chegou a minha casa um sbado  noite a fim de 
me pedir uns comentrios urgentes sobre um artigo muito prejudicial escrito por um 
amigo meu, o capito Kerby, e que devia sair no jornal do dia seguinte. No o quis ler, no 
o quis comentar e pu-la na rua. Logo de manh comprei o Sunday 
Pictorial e no encontrei sequer uma palavra a meu respeito. O capito, to 
palavroso, no abrira a boca.

Quando se desencadeou a campanha contra mim entrei em contacto com os meus amigos do 
S.I.S. e eles disseram-me que no fizesse qualquer declarao que pudesse prejudicar-me. 
O Governo tinha prometido um debate sobre o assunto, e era extremamente importante que 
no interviesse nos trabalhos. Fizeram-me dois pedidos: que me sujeitasse a um 
interrogatrio final, feito, desta vez, por dois ex-colegas do S.I.S., e que voltasse a entregar 
o meu passaporte. Concordei com ambos. O meu passaporte mudou mais uma vez de mos, 
e eu fiz duas visitas a Londres. As entrevistas seguiram um ritmo idntico s anteriores, pelo 
que fiquei certo de que no tinham surgido mais provas contra mim. Entretanto, o facto de 
eu no ter tentado fugir durante um to longo lapso de tempo comeava a agir em meu 
favor.  medida que o tempo passava, tudo se tornava mais confuso e a minha pista mais 
difcil de seguir.

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Enquanto era alvo de todas as atenes recusara dois encontros com os meus amigos 
soviticos, mas quando, pela terceira vez, entraram em contacto comigo pensei que eles 
talvez precisassem de informaes, e eu, realmente, carecia de encorajamento. Como me 
devia demorar um dia inteiro, sa de Crowborough cedo e dirigi-me a Tonbridge onde 
arrumei o carro e apanhei o comboio para Londres. Desci em Vauxhall e fui o ltimo a sair 
da gare, ento j deserta. Depois de olhar bem em volta, tomei o metropolitano para 
Tottenham Court Road. A comprei um chapu e um caso e caminhei sem destino durante 
cerca de duas horas. Comi uma refeio ligeira num bar e resolvi utilizar-me do truque do 
cinema, sentando-me na fila de trs e saindo a meio do espectculo. Nessa altura tinha 
quase a certeza de que no era seguido, mas ainda me restavam algumas horas para me 
certificar. Vagueei por lugares por onde nunca passara, a p, de autocarro e de novo a p. J 
escurecera h uma ou duas horas quando me encaminhei realmente para o local do 
encontro, e peo desculpa ao leitor por no relatar o que nele se passou.

Ia de p no metropolitano quando li as ltimas notcias. Olhei por cima do ombro do meu 
vizinho e vi o meu nome nos cabealhos do Evening Standard. O 
coronel Marcus Lipton, M. P., de Brixton, perguntara ao primeiro-ministro se estava 
decidido a continuar a encobrir as actividades dbias do terceiro homem, do Sr. Philby. 
Fiquei grandemente desapontado, pois Lipton gozava de privilgios especiais e eu no 
podia refutar as suas afirmaes, nem atac-lo nos tribunais. Alm disso, desfizera o meu 
sonho de ganhar uma boa soma  custa do jornal de Beaverbrook. Mas o meu desgosto 
pessoal em breve foi abafado pela necessidade de agir. J fizera imediatamente em prtica. 
Assim, fui para o apartamento de minha me, em Drayton Gardens, e telefonei aos meus 
amigos do S.I.S. para lhes dizer que no podia manter-me mais tempo calado. Eles 
concordaram que, mais dia menos dia eu tinha de dizer qualquer coisa, mas pediram-me, 
mais uma vez, que adiasse as minhas declaraes para depois do debate nos Comuns.

Ainda faltavam doze dias. Desliguei a campainha da

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porta e pus uma montanha de almofadas em cima do telefone. A minha me proibiu-me de 
desenroscar a aldraba da porta, afirmando que, de qualquer maneira, no fazia barulho. No 
precisava de me ter preocupado, porque a imprensa deu cabo dela logo da a dois dias. A 
janela da cozinha tinha de ter as cortinas corridas dia e noite, porque um jornalista que se 
introduzira pela escada de servio assustara a cozinheira. Mas esta era uma mulher corajosa 
e manteve-os sempre bem fornecidos durante o cerco. Entretanto, passei os dias a preparar 
cuidadosamente as minhas inevitveis declaraes  imprensa, pois a minha situao 
dependia muito do resultado desta. Se no conseguisse forar Lipton a retractar-se, apenas 
me restava fugir.

Esperava que o resultado me fosse favorvel, j assistira a muitas conferncias de imprensa 
e sabia que nelas o ambiente era sempre de confuso, todos faziam perguntas ao mesmo 
tempo. Era essencial que eu mantivesse o controle dos acontecimentos na 
primeira meia hora, concentrando-me em Lipton e insistindo na inconsistncia das suas 
acusaes, sob todos os pontos de vista. Depois disso podiam fazer as perguntas que 
quisessem: tinha as respostas prontas. Um simples raciocnio levara-me a concluir que a 
acusao de Lipton era infundamentada. Apesar disso ainda acreditei, talvez erradamente, 
que ele fornecera provas importantes s autoridades competentes  em vez de me acusar 
publicamente na Cmara dos Comuns. Contudo, se as autoridades tivessem recebido tais 
provas, de Lipton ou de qualquer outra pessoa, j haveriam agido e eu teria sido preso. 
Portanto, nem Lipton nem ningum possua essas provas. O que mais me preocupava era a 
inaco das autoridades de segurana, porque elas sabiam dez vezes mais acerca do caso 
que todos os jornalistas de Fleet Street. Era delas que eu tinha medo e no da imprensa.

Chegou o dia do debate no Parlamento. Harold Macmillan, chefe do Foreign Office, no seu 
discurso na Cmara dos Comuns, falando em nome do Governo, disse que eu cumprira os 
meus deveres oficiais conscienciosa e habilmente (o que era verdade) e que no havia 
provas de

210

que tivesse trado os interesses do pas (o que era parcialmente verdadeiro). Esta afirmao 
sossegou-me. Tirei as almofadas de cima do telefone e pedi  minha me que dissesse a 
quem telefonasse que estaria  disposio dos jornalistas no dia seguinte s onze horas da 
manh. Vinte minutos decorridos j havia recebido meia dzia de chamadas. Depois 
deixaram-me em paz. Telefonei a um amigo do S.I.S. para o avisar de que ia conceder uma 
conferncia de imprensa e ento meti-me na cama e dormi nove horas.

A campainha comeou a tocar s dez e meia, mas, para manter a minha idia inicial de que 
era necessrio controlar a situao, deixei-a tocar. Marcava a reunio para as onze horas e 
somente abriria a porta a essa hora. No entanto, estava-me reservada uma surpresa: em vez 
da dzia de jornalistas que esperava, era uma autntica multido  que chegava  porta da rua  
que iria defrontar. No pude conter-me e soltei uma exclamao de espanto. Parecia 
impossvel que coubessem todos na sala de estar, mas l se arranjaram no sei como. 
Durante cerca de cinco minutos os flashes dispararam continuamente. Depois os 
fotgrafos desapareceram, dando-nos algum espao para respirar. Quando tudo estava mais 
calmo pedi a um dos reprteres, recostado numa cadeira de braos, que desse o seu lugar a 
uma senhora, que ficara encostada  porta. Ele deu um salto, como se tivesse sido mordido 
por uma vespa, e a senhora sentou-se envergonhada. Para mim isto foi agradvel; 
confirmou-me que mantinha o domnio da situao.

A conferncia foi reproduzida pormenorizadamente em todos os jornais e no h, por isso, 
necessidade de recapitular as perguntas e respostas. Comecei por fazer circular uma 
declarao escrita em que afirmava que, em certos aspectos, tinha de ser reticente devido  
Lei dos Segredos Oficiais. com esta reserva, estava preparado para responder s questes 
que me quisessem pr. Das primeiras seis perguntas uma mencionava Lipton e eu 
aproveitei-a. Ah, Lipton, disse eu, isso leva-nos ao mago do problema. Convidei 
ento Lipton a fornecer as provas que possua s autoridades de segurana ou a repetir as 
suas acusaes fora da Cmara dos Comuns.

211

Vinte minutos depois, quatro ou cinco dos reprteres pediram desculpa muito polidamente e 
saram a toda a pressa. bom, pensei eu, isto parece que vai sair nos jornais da tarde. 
Podia agora descansar, e dispus-me ento a responder a todas as restantes perguntas. Que 
pensava eu de Burgess? Era amigo de Maclean? Como podia explicar o desaparecimento 
deles? Onde estavam eles agora? Quais eram as minhas ideias polticas? Era o terceiro 
homem? As respostas eram fceis. Depois de cerca de uma hora dirigimo-nos  sala de 
jantar, onde havia cerveja e sherry. (Felizmente o nmero de presentes 
diminura). Nesta altura, a reunio decorria j sob um clima de amizade; apenas o reprter 
do Daily Express mostrava um certo excesso de zelo e por isso respondi 
alegremente a muitas das suas perguntas com um sem comentrios. Como soube, 
entretanto, que ele passou onze anos a tratar do caso e que durante cinco pouco mais fez  
estou a citar Burgess and Maclean, de Anthony Purdy  no o 
posso acusar pela sua impertinncia. S lhe posso sugerir que devia treinar-se, durante 
quinze dias, com Skardon na arte de fazer interrogatrios.

J passava da minha hora normal de almoo quando o ltimo dos reprteres saiu. A 
reportagem da conferncia feita pelos jornais da tarde servia-me s mil maravilhas. O 
desafio a Lipton vinha expresso precisamente nas palavras que eu usara e a impresso 
favorvel foi confirmada largamente pelos jornais da manh do dia seguinte. Um reprter 
amigo telefonou a dar-me os parabns. Era agora Lipton quem estava na baila. Na noite 
seguinte a B.B.C, relatou que ele tinha assistido  sesso da Cmara dos Comuns, mas que 
nada dissera. Na noite seguinte cedeu. As suas palavras exactas foram-me comunicadas por 
um reprter do Parlamento, que me perguntou se queria fazer algum comentrio. Disse-lhe 
que voltasse a comunicar comigo dentro de cinco minutos. No alvio que sentia, a minha 
primeira reaco foi dar os parabns a Lipton pelas desculpas que apresentara. Mas decidi 
que era uma atitude imerecidamente servil e escrevi umas palavras menos penhoradas. 
Penso que o coronel Lipton fez o que devia. Quanto a mim, o incidente est

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encerrado. Levei a minha me a passear pela primeira vez em duas semanas.

O caso estava, na verdade, encerrado, e assim ficou por mais sete anos. A imprensa largou-
me como se eu fosse um tijolo quente.  luz dos acontecimentos subsequentes,  fcil 
culpar Macmillan e o Governo por me terem ilibado, mas eles, de facto, no foram os 
culpados. Ningum no Governo, e sobretudo no servio de segurana, gostava, em 1955, 
de fazer declaraes pblicas. As provas eram inconcludentes: no me podiam acusar e no 
me queriam ilibar. Foram obrigados a agir devido ao relevo que a imprensa, indevidamente 
informada, deu ao assunto e  atitude estpida de Marcus Lipton. O jornal de Beaverbrook 
tem responsabilidades particulares neste fiasco monumental. Comeou a corrida e manteve-
a, errnea mas incansavelmente, como consequncia da estpida luta que Beaverbrook 
mantinha com den e o Foreign Office. Sena interessante comparar o  oramento 
ultramarino  do  Foreign Office com o dinheiro gasto por The Daily 
Express na aquisio de falsas informaes respeitantes ao caso Burgess-
Maclean. Mas h males que vm por bem. Tenho de agradecer s artimanhas de 
Beaverbrook sete anos de vida decente e a possibilidade de continuar a servir a causa 
sovitica.

EPLOGO

A so e salvo

As minhas experincias no Mdio Oriente, de 1956 a 1963, no se prestam facilmente  
narrativa, excepto como parte da histria geral da regio durante esse perodo. Contudo, 
como se fizeram grandes especulaes acerca das minhas actividades, fora, claro, do 
trabalho normal de correspondente de imprensa, seria injusto deixar o leitor numa total 
ignorncia. Porm, estou quase inibido de fazer revelaes pelo facto de se tratar de uma 
poca muito recente. Se o Governo ingls pode usar de uma prerrogativa que lhe permite 
evitar a publicao de documentos oficiais, relativos aos ltimos cinquenta anos, posso 
tambm reclamar o direito de manter uma discrio decente em relao a acontecimentos 
que ocorreram apenas h cinco ou dez anos. Contentar-me-ei, por isso, em relatar algumas 
meias verdades e peo ao leitor que no caia em armadilhas que arme a si prprio. A razo 
principal para a minha atitude  que, enquanto os servios secretos ingleses e americanos 
podem reconstituir bastante bem as minhas actividades at 1955, h provas evidentes de 
que nada sabem acerca da minha carreira subsequente no servio sovitico.

Pensou-se que eu estava a trabalhar, sob a capa de jornalista, para o S.I.S. Teria sido 
realmente estranho que no se tivessem utilizado de mim. Habitualmente usam jornalistas e 
eu, alm de conhecer bem as necessidades deles, estava ansioso por andar nas suas boas 
graas. Gostava de sossegar os meus amigos rabes que, por acaso, possam ler este livro. 
No me parece que tenha comprometido de algum modo a causa deles por transmitir ao 
Governo ingls o que realmente pensavam; de qualquer maneira, os Ingleses prestaram 
pouca ateno ao que lhes disse, e veja-se como tm agido at agora (Vero de 1967)!

Se no era crvel que o S.I.S. perdesse a oportunidade de tirar vantagens da minha presena 
no Mdio Oriente, seria ainda mais estranho que o servio secreto sovitico

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me tivesse pura e simplesmente ignorado. Um jornalista ingls perguntou, pouco depois da 
minha partida de Beirute, que servios poderia eu prestar  Unio Sovitica, e chegou  
espantosa concluso de que eu estaria, provavelmente, a fazer uma reportagem sobre o 
Colgio de Estudos Arbicos do Mdio Oriente, localizado em Shemlan, nas colinas que 
circundam Beirute. com todo o respeito que me merece essa instituio, que desfruta de 
mais fama do que realmente merece, a informao mais pormenorizada acerca dela seria 
apenas considerada, por todos os servios secretos, um escasso resultado de sete anos de 
trabalho.

A verdade  que a Unio Sovitica est sempre interessada pelos acontecimentos do Mdio 
Oriente. Em primeiro lugar, pretende manter-se a par das intenes dos Governos norte-
americano e britnico sobre a regio e, para isso, eu estava em boa situao. Um escritor, ao 
discutir o meu caso, comentava o facto de eu raramente fazer perguntas directas; era o 
menos curioso de todos os jornalistas. Pudera! Quando se fazem perguntas directas sobre 
assuntos importantes a um oficial ingls ou americano, ou responde por evasivas ou prega-
nos uma grandessssima mentira. Mas mantendo uma conversa, discutindo e argumentando, 
no  impossvel apanhar a linha de pensamento do interlocutor ou calcular com bastante 
exactido a sua posio relativamente a decises polticas.

 difcil, apesar de no ser de forma alguma impossvel, um jornalista conseguir acesso a 
documentos oficiais. Mas estes constituem muitas vezes uma armadilha e uma iluso. 
Apenas porque so autnticos, tm um encanto que leva a atribuir-lhes mais importncia do 
que merecem. Um documento conseguido ^numa Embaixada dos Estados Unidos, por 
exemplo.  uma primeira verso, uma segunda verso ou um memorando? Foi redigido por 
um oficial superior ou por algum espertalho? Foi escrito com intenes srias ou apenas 
para quem o escreveu se evidenciar? Mesmo que seja um documento enviado pelo 
secretrio de Estado, com instrues directas para o embaixador, e tenha data recente ainda 
 vlido na altura em que o lemos? Em

215

resumo, as informaes secretas conseguidas atravs de documentos devem, para serem 
realmente dignas de crdito, obedecer a uma certa regularidade e conter bastantes notas 
explicativas. Uma discusso de uma hora com um informador de confiana  muitas vezes 
mais proveitosa que a consulta de um nmero elevado de documentos oficiais. Claro que  
melhor, sendo possvel, dispor de duas fontes.

 assim, depois de ter passado sete anos em Beirute, resolvi fugir para a Unio Sovitica. 
Porqu? Talvez tenha sido desmascarado por um quarto homem, talvez algum cometesse 
uma indiscrio ou at  possvel que me sentisse simplesmente cansado. Trinta anos sob 
um disfarce  muito tempo, e no posso pretender que no me tivessem deixado uma 
marca. Quanto a mim, a interrogao pode ser formulada  Histria; ou antes, como a 
Histria no deve estar interessada em responder, podemos simplesmente esquec-la.

Contudo, no posso deixar de fazer notar que os comentrios que a minha fuga mereceu a 
vrios jornalistas so um exemplo flagrante da falta de veracidade que caracteriza a maior 
parte do que se escreve acerca de assuntos relacionados com o servio secreto. A pessoa 
que escreveu o artigo publicado em The Saturday Evening 
Post, a quem j me referi na introduo ao meu livro, contou uma histria 
perturbante segundo a qual a polcia libanesa vigiava as minhas actividades e em que 
participava tambm um confeiteiro armnio (um pormenor curioso). Alm disto falava ainda 
em perseguies de txi e fotografias  noite. No sei at que ponto o escritor estava no seu 
devido juzo; a menos que esteja totalmente enganado ele  demasiado inteligente para 
escrever estes disparates. Mais tarde, um outro jornalista, John Bulloch, aventou a teoria de 
que os Libaneses me tinham deixado ir embora deliberadamente, de acordo com os 
Ingleses. O nico ponto de apoio de que dispunha para sustentar esta teoria era a afirmao 
de que as autoridades de segurana libanesas eram to eficientes que eu no podia ter 
fugido sem elas saberem. Tenho a impresso de que isto revela um desconhecimento total 
das condies locais. Beirute  um dos centros mais

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activos de contrabando e espionagem do mundo. Dezenas de pessoas atravessam todos os 
meses ilegalmente as fronteiras do Lbano e s muito poucas so apanhadas.

A fantasia dos jornalistas perseguiu-me at na Unio Sovitica. As hipteses acerca dos 
locais onde teria fixado residncia so as mais variadas possvel: Praga, Riviera do mar 
Negro, uma datcha fora de Moscovo, uma grande manso, pertencente ao 
Governo, tambm fora de Moscovo, uma pequena cidade de provncia. Havia outros ainda 
mais fantasistas: acompanhei a delegao sovitica  Conferncia Afro-Asitica em 1955; 
estou a trabalhar num instituto cultural sovitico em Bloudane, no longe de Damasco, e at 
afirmaram que nem os prprios jornalistas que escreveram tais disparates acreditaram neles, 
mas se estavam a tentar adivinhar, para que fizeram afirmaes to estpidas? A hiptese 
mais lgica seria eu residir em Moscovo, num apartamento, como tantos milhes de 
moscovitas. E, de facto, era essa a realidade.

Vou terminar a minha narrativa mencionando um factor que espantou indevidamente alguns 
comentadores ocidentais: as tendncias liberais que apregoava, e que apenas serviam para 
esconder as minhas verdadeiras convices. Um dos jornalistas que travou conhecimento 
comigo em Beirute afirmou que o liberalismo que eu apregoei no Mdio Oriente era, com 
certeza, a minha verdadeira ideologia poltica. Um amigo pessoal tambm afirmou que eu 
no podia ter mantido uma tal consistncia intelectual a no ser que se tratassem realmente 
das minhas ideias. Ambas as observaes so muito lisonjeiras. O primeiro dever de quem 
trabalha secretamente  no s aperfeioar o disfarce que lhe serve de capa, mas tambm 
vincar a sua personalidade. H, sem dvida, desculpa para os citados erros cometidos acerca 
dos meus pontos de vista. Na altura em que fui para o Mdio Oriente tinha mais de vinte 
anos de experincia, e entre eles alguns em que fora bem posto  prova. Alm disso, 
iniciara as minhas actividades de uma forma bastante dura, na Alemanha nazi e na Espanha 
fascista onde um nico erro podia ter consequncias que s se podem descrever como 
horrveis.

CRONOLOGIA

1912  No dia 1 de Janeiro nasce em Amballa, ndia, Harold Adrian Russel (Kim) Philby, filho de Harry St. John 
Bridges Philby, um funcionrio do Servio Civil Indiano, que, mais tarde, se converteu ao islamismo e se 
tornou um arabista de renome, e de Dora Philby.

1929  Entrou para o Trinity College, Cambridge, com 17 anos e filiou-se na Sociedade Socialista da 
Universidade de Cambridge.

1932  Foi nomeado tesoureiro da Sociedade Socialista da Universidade de Cambridge e teve os primeiros 
contactos com os comunistas.

1933  Abandonou   Cambridge   e,   em   Junho   deste   ano, alistou-se no servio de contra-espionagem 
sovitico. Partiu para Viena de ustria, onde o chanceler Dr. Engelberts Dollfuss preparava o putsch 
fascista de Fevereiro de 1934.

1934  Voltou para Inglaterra e filiou-se na Liga Anglo- -Germnica, que tentava fundar, com dinheiro nazi, um 
jornal pr-Hitler. Visitou repetidas vezes Berlim, onde realizou conversaes com os ministros alemes da 
Propaganda e dos Negcios Estrangeiros, Goebbels e Von Ribbentrop, e desenvolveu actividade noutras 
organizaes pr-germnicas.

1937  Chega a Espanha em Fevereiro, a fim de fazer a reportagem acerca da guerra civil. Mais tarde foi 
nomeado por The Times correspondente de guerra junto das foras de Franco.

1938  Foi condecorado pessoalmente por Franco com a Cruz Vermelha de Mrito Militar.

1939  Quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial foi de novo nomeado por The Times 
correspondente de guerra junto do quartel-general britnico em Arras, Frana.

1940  Em Junho voltou para Inglaterra, depois de as tropas
britnicas terem evacuado o continente. Foi convidado a entrar para o servio secreto britnico e colocado 
no S. I. S. (ou M. I. 6). sob a chefia de Burgess, na Seco D (destruio). Depois foi nomeado instrutor numa 
escola de treino de sabotadores e agentes subversivos em Brickendonbury Hall, perto

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de Hertford, mas, como a tentativa no resultou, transferiram-no para Londres, para o departamento de 
operaes especiais. Depois foi de novo enviado, como membro do corpo docente, para uma recm-criada 
escola de formao e treino de sabotadores, em Beaulieu, Hampshire.

1941  Recebeu   ordem   de   transferncia   para   o   S. I. S., Seco V, chefiada pelo major Felix Henry 
Cowgill, onde ficou sendo o responsvel pela subseco Ibrica, encarregada de orientar a contra-
espionagem britnica em Espanha e em Portugal.

1942 -  Norman  Holes Pearson, membro do O.S.S., chega a Londres a fim de estabelecer ligaes com o 
servio secreto britnico. A rea sob a responsabilidade de Philby aumenta, passa a abranger tambm o 
Norte de frica e a Itlia, onde foram organizadas redes de contra-espionagem.

1945   criada no S. I. S. a Seco IX, encarregada da contra-espionagem em relao  Rssia e pases 
comunistas. Philby foi nomeado chefe desse novo departamento.

1947  Philby  colocado em Istambul, na chefia da base do S.I.S., com o cargo oficial de primeiro-secretrio da 
Embaixada britnica na Turquia.

1949  Foi nomeado representante do S.I.S. em Washington, como agente superior do servio secreto 
britnico, trabalhando em ligao com a C.I.A. e o F.B.I., e participou no Comit Poltico Especial, que 
estabeleceu o malfadado acordo anglo-americano acerca da tentativa de infiltrar agentes anticomunistas na 
Albnia, com vista a derrubar o regime.

1950  Guy Burgess chegou a Washington, para exercer o cargo de segundo-secretrio da Embaixada 
britnica, e Philby convida-o a alojar-se em sua casa, em Nebraska Avenue.

1951  Philby  informado da evidncia das provas acumuladas contra o diplomata do Foreign Office e agente 
sovitico Donald Maclean, que, no fim da guerra, dado o cargo que exercera na Embaixada britnica de 
Washington, fora nomeado secretrio do Comit Poltico de Energia Atmica. Philby arranja processo de 
Burgess partir para Londres a fim de avisar Maclean e preparar a sua fuga de Inglaterra, evitando que este 
fosse preso. Philby  chamado a Londres,

219

submetido a interrogatrio e convidado a apresentar a sua demisso do servio secreto.

1955  O primeiro-ministro Harold Macmillan, nos debates parlamentares acerca do caso, declara no haver 
provas concludentes de que Philby haja trado os interesses britnicos e iliba-o das acusaes.

1956  Philby vai para Beirute,  Lbano, como correspondente de The Observer e do 
Economist, e continua ao servio do S.I.S.

1963  A 23 de Janeiro, Philby desaparece de Beirute, depois de sujeito a repetidos interrogatrios pelo M. I. 
5. Pouco tempo depois, a Unio Sovitica declara que lhe tinha concedido asilo poltico em Moscovo.

NDICE

Pg.

Prefcio  7

Introduo  9

O levantar da cortina: a um passo do peloto de execuo ... 17

Captulo I  Aceite pelo servio secreto   21

II Dentro e fora do S.O.E  36

III uma instituio antiga e mal organizada 52

IV  As complexidades do servio secreto ingls e aliado     76

V  Sempre a subir      94

VI  A realizao      105

VII  Da guerra para a paz      115

VIII O caso Volkov       132

IX O terrvel Turco    143

X  A caverna do leo      160

XI  Ameaas de tempestade  176

XII Posto  prova  189

XIII  As nuvens afastam-se       205

Eplogo: A so e salvo    214

Cronologia    218

Diagrama      221
 
